sábado, 28 de abril de 2018

1ª Carta para minha filha

Filha, estou adiando escrever para você. Talvez porque agora você não vá ler, mas poderá sentir dentro de mim o que está acontecendo e o que temos vivido juntas. A sua mãe desde muito pequena sonhou em ser escritora. Ela até já publicou um livro inspirada na história de como conheceu seu pai. (Acabo de perceber que eu disse “a sua mãe”, ao invés de “eu”, talvez ainda esteja me familiarizando com essa nova persona que é sua mãe, no fundo, no fundo, somos almas companheiras vivendo esses papéis nesta vida. Eu sinto profundamente que você é uma alma que me acompanha. Nós nos escolhemos em algum tempo e espaço em que tempo e espaço não existiam. E já é uma honra para mim ser sua mãe!)

Como estava dizendo, sobre minha vontade de ser escritora, de não apenas escrever, mas de ser lida, isso faz com que eu queria compartilhar com as pessoas o que eu vivo e o que eu sinto. Hoje temos a oportunidade de fazer isso através das redes sociais. Toda vez que escrevo sobre mim e você muitas pessoas lêem e se emocionam, acredito que consigo conectar nelas não o meu amor por você, mas algum amor que exista nelas. Na verdade o amor deve ser um só. Então são palavras de amor que despertam o amor, filha. Você já deve sentir. 


Esta semana, na noite de 23/4, seu pai e eu nos deitamos para dormir mas antes de fechar os olhos ou de ler um pouquinho (como costumamos fazer) o papai veio conversar com você colocando o rosto bem pertinho da minha barriga. Ele também colocou as mãos e eu coloquei as minhas com as dele. Ele já tinha feito isso outras vezes mas nesta noite foi a primeira vez que sentimos você se mexer dentro de mim. Enquanto ouvia a voz dele você se mexeu algumas vezes. E eu me dei conta que para sentir você eu preciso ficar bem quieta e atenta. Seu pai me ensina muitas coisas e neste dia ele me ensinou a te sentir. 




quinta-feira, 5 de abril de 2018

Terceiro ultrassom

Terceiro ultrassom - 3/04/2018

21 semanas. Bastante esperança de que confirmaríamos o sexo do bebê. 
Sempre tivemos expectativas de ter uma menina. Vivi neste universo desde a infância. Acompanhei a chegada de duas irmãs e 3 sobrinhas. Não tinha a mínima ideia de como seria criar um menino. Não dava pra sonhar com algo tão desconhecido. Sou rodeada de mulheres. Sempre foi assim. Além disso as menininhas da família sempre deixaram no Paulo um apaixonamento e um brilho nos olhos tão encantado que eu sempre tinha vontade de termos a nossa e de poder vê-lo também assim deslumbrado com uma que tivesse saído do meu ventre e tomado do meu leite, sendo um pedaço meu inteiro e autônomo recebendo dele atenção e devolvendo a ele a suprema alegria que mora em seu rosto nos contatos que faz com as crianças. 
Eu entendo bem uma menina, sendo uma até hoje, naquilo que me liga a todas as mulheres do planeta, nos desafios que a vida apresenta, nas doçuras possíveis. Eu não sabia nada sobre um menino. Estava disposta a seguir meu instinto mas sentia um lampejo de medo. Meu menino seria frágil demais com o amor que quero dar. E minha vontade de vestí-lo, quase fantasiá-lo, das tantas expectativas que tento me desvencilhar, mas que crio, assim mesmo. Umas são objetivas como roupas coloridas, flores, delicadezas... Como me livrar dos tantos conceitos que estão comigo a respeito do que é um homem e uma mulher?

Sim, aspiro a igualdade, como uma feminista. Como mulher reconheço uma sociedade que ainda limita os alcances do feminino. Observo com admiração as expoentes que atravessam barreiras e brilham. Talvez nunca as disseram: homens e mulheres são diferentes!

Pensei em não saber o sexo, deixar a surpresa para o momento do parto, para tentar me livrar das expectativas. Mas percebi que não conseguia. Estava acima do meu controle. A minha vontade de viver esse caminho um pouco mais conhecido — de criar uma menina — era tanta que eu temia machucar ou interromper a masculinidade de um menino sendo gerado no meu corpo. Muito neurótica? Talvez...rs

O Paulo, por sua vez, também tinha suas certezas. Abdicou do sonho de conviver com uma menininha e se preparou para receber um menino, começou a aceitar essa verdade que acreditava ser a mais provável. Ele dizia que no ato da concepção sentiu a alma de um menino passar por nós. Acreditou nisso o tempo todo, com tanta convicção, que eu também passei a compartilhar a sensação de que um menino estava nos preparando para chegar. 

Marcamos o ultrassom com o mesmo médico do exame anterior. Nosso segundo morfológico (um ultrassom bem detalhado). Vimos em 3D um lindo rostinho na tela. Narizinho arrebitado, boquinha. De repente o médico mostrou corriqueiramente os órgãos genitais. E já foi se referindo a ela. Foi um susto e não uma notícia. “Vocês não sabiam? Achei que já tivesse falado no ultrassom anterior. Como conseguiram esperar até agora?”

Fizemos aquela pergunta que só denuncia o espanto: Certeza?

Sim, certeza, ele respondeu e acrescentou: “Olha aqui como já está tudo bem formado” e com a seta ele apontava na tela alguns pontos e descrevia. 

Uma alegria me invadiu. Meu amor pela criança cresceu 10 vezes. Me arrependi de não saber antes. Incrível como esta única informação me aproximou deste Ser, como se agora eu a pudesse compreender mais. Como se eu, agora, soubesse mais quem ela é. Uma mulher! Uma fêmea! Uma espécie como a minha. Sei quem ela é. Alias, sei quem você é, mas terei que a descobrir por toda minha vida, filha. 

Finalmente posso chamá-la de filha. Filha. Filha! Filha...

Você ainda não tem nome, mas já tem todo o meu coração. 

(Foto ilustrativa deste momento de surpresa. Tirei da minha sobrinha Rubi)




terça-feira, 3 de abril de 2018

De repente um espinho

De repente um espinho atravessa camadas de pele e fica ali cravado, sangrando horas, dias, anos. Até nos acostumarmos com aquela dor como um acontecimento perdido no passado, mas continua ali, e a qualquer momento pode ser ativado novamente como se alguém fincasse o espinho um centímetro a mais, para nos lembrar que jamais parou de doer ou sangrar e que continua manchando de vermelho a nossa vida como se fosse novo, mesmo sendo só um reflexo, uma repetição daquela dor original. O espinho é cravado na nossa distração com a pétala e com o perfume, quando inocentemente estávamos entregues, com os poros bem abertos e a pele receptiva. 
Nossas dores são originárias de choques de humilhação, rejeição, exclusão ou abandono. Às vezes estes 4 aspectos de dor e tristeza estão presentes na mesma situação em que o espinho foi fincado. Fomos humilhados, rejeitados, excluídos, abandonados... Os sentimentos estão vivos, mesmo que as lembranças estejam mortas. Com sorte lembramos da cena, uma imagem de muita dor. Somos capazes de recordar quem nos humilhou, o que disse, ou onde nos abandonaram, ou porque até hoje nos sentimos excluídos ou novamente rejeitados. Às vezes o choro da criança está claro, às vezes perdido na memória. Pode ser que sobre uma cena da adolescência, ou então apenas essa sensação repetitiva em nossa vida adulta. Quando esta dor é tocada, por algum motivo qualquer, somos tomados profundamente por uma tristeza incompreensível aos outros e inexplicável com a razão. Nem sempre condiz com o que está acontecendo, mas é algo que fez o espinho ser espremido um pouco mais e aflora toda a dor guardada e reprimida, volta com força o sentimento de exclusão, rejeição, humilhação, abandono, volta atualizado e reeditado no presente. 
Dizem que a gravidez é uma travessia por todos os fatos importantes, bons ou ruins, que vivemos. De certa forma eles podem estar sendo reeditados no feto, não está sob nosso controle evitar isso. 
Tenho tido uma gravidez muito doce e alegre mas também tenho visitado (em alguns momentos com suavidade em outros com intensidade) os meus espinhos. Acho que aconteceu duas vezes nesta gravidez, por enquanto, mas na segunda vez parece que foi mais doloroso que na primeira. Há poucos dias estava bem no ponto em que o espinho foi fincado, revivendo a dor de uma cena que no passado não é muito clara e com um gatilho que sinto vergonha de contar. Mas é o momento chave em que sentimos tristeza. Da tristeza profunda nasce muita raiva e da raiva criamos nossos pactos de vingança  “eu vou me vingar de quem fez isso comigo”, e criamos também a mentira “ninguém vai saber, pois corro o risco de viver isso de novo, se souberem. Não posso deixar que ninguém perceba minha raiva e meu plano de vingança”. Pronto então nos mascaramos daquilo que consideramos que não será mais excluído, rejeitado, humilhado, ou abandonado. Mas o espinho nos acompanha como que denunciando que enquanto estivermos com ele fincado na pele será mais simples e fácil sentirmos a dor novamente. 

Fatos muito corriqueiros, uma frase que alguém nos disse, uma atitude de uma pessoa próxima ou desconhecida, qualquer coisa pode desencadear um processo doloroso conectado ao espinho da nossa dor original. Mas, sem dúvida, a esfera em que estaremos mais suscetíveis a sentir a dor novamente é na esfera dos relacionamentos, com ênfase para os relacionamentos mais íntimos. Assim como a criança faz com os pais e/ou familiares mais próximos, depositamos, na pessoa com quem nos relacionamos, muitas das nossas expectativas de felicidade. Esperamos sempre algo em troca ao que damos. Nada é de graça. Nosso coração ainda não é puro. É um coração ferido que teima em se ferir novamente. Esse é o caminho da liberdade e da autonomia, quando vemos em nós o movimento na direção de uma compreensão mais ampla, mesmo que o caminho inclua atravessar as dores, oferecendo-nos a única forma de curá-las: bem de perto!


quinta-feira, 29 de março de 2018

Primeiro ultrassom

Assim que constatamos a gravidez, o Paulo ligou para a prima obstetra que disse a ele o conselho que dá a todas as suas pacientes:


“Com o teste de farmácia você conta ao marido”

(No meu caso praticamente ele que tinha me contado...rs)

E ela continuou:

“Após o primeiro ultrassom conte para seus pais e irmãos. E após o ultrassom morfológico, dos 3 meses de gravidez, vocês contam para todos”


Procuramos seguir o conselho à risca, bem cientes de que a gravidez só fica mais segura após os primeiros 3 meses. 





Marcamos o ultrassom para os próximos dias. No dia do ultrassom eu também quis aproveitar para fazer o exame de sangue. O Paulo queria que eu fosse só no final do dia, pois achou que não daria tempo de chegar no horário marcado do ultrassom, olhei no relógio e achei que dava. Eu queria que ele fosse comigo e sabia que no final da tarde não estaríamos juntos, então indignada por ele preferir que eu fosse só no final do dia, sozinha, eu saí meio desaforada: “se você não quer ir agora comigo eu vou, vou sozinha então, você me pega lá e vamos juntos para o ultrassom”. Saí com raiva de casa. Com vontade de ir sozinha para o ultrassom também, só pra me “vingar” e não deixar ele ver o primeiro momento do nosso bebê. Mas eu sabia que ia me arrepender se deixasse a minha raiva tomar conta... Quando ele passou pra me pegar já entrei no carro chorando, me sentindo a maior vítima do mundo por ele não ter movido uma palha para me acompanhar no exame de sangue também (olha como as emoções já foram ficando a flor da pele!)


Fui falando que já desmaiei algumas vezes tirando o sangue, que sempre recomendam que eu leve acompanhantes (mas já faz alguns bons anos que vou sozinha e nunca mais desmaiei ou precisei de ajuda), falei que esperava que ele fosse mais sensível e cuidadoso comigo, ele foi ouvindo, me pedindo desculpas e rindo. O Paulo ri quando eu choro e percebe que é por bobagem. Ele não ri da minha cara, é o riso que damos olhando a inocência das crianças, é um riso diante de uma beleza. E quando ele ri assim de mim eu consigo reconhecer que estou exagerando um pouco, ou me aproveitando da situação para me vitimizar. E também me sinto amada neste riso que me contempla e aceita. 

Já estava tudo bem entre nós,  mas quando cheguei no lugar onde faríamos o exame meus olhos estavam inchados de choro. Pedi um tempinho para o Paulo, para descermos em seguida. Eu estava com vergonha da minha cara e nem tinha pensado o quanto chorar deve ser um acontecimento natural naquele recinto. Em geral o choro de emoção, imagino e espero. 


Entramos na sala de exame. Sentei e fiquei bem de frente para uma tela bem grande. O Paulo ficou de frente pra mim olhando a tela do computador do médico, que estava ao meu lado. Acho que ele nem percebeu essa tela maior. Foi tão mágico pois o rosto dele foi o que vi de mais nítido na hora que ouvimos o coração bater. Não tinha muito o que ver na tela, mas ele deu um passo pra frente como se tivesse sido empurrado, ou levado um susto, então abriu a boca, arregalou os olhos, com as sobrancelhas bem levantadas, e quis confirmar com o médico: “É o coração?”

O médico respondeu que sim. Mas o Paulo também é médico. Ele sabia que era o coração. É que a nossa alma precisa de uma confirmação para acreditar nos momentos de beleza e alegria. É como se disséssemos “me belisca para que eu tenha certeza que não é um sonho”. Mas não era um sonho, a realidade é que é inacreditável*

Eu achei que os olhos dele estavam lacrimejando, os meus estavam (e estão de novo ao lembrar). Alguns dos mais memoráveis momentos da minha vida eu passei vendo o sorriso dele, as emoções dele, e mais uma vez Deus estava me presenteando com a cena do seu sorriso, da sua alegria, bem diante dos meus olhos, e o motivo, desta vez, era a constatação de que dentro de mim tinha um outro coração batendo, uma outra pessoa feita de pedaços nossos misturados. ❤️❤️❤️


(*frase do livro: Uma aprendizagem, de Clarice Lispector)


(Foto tirada perto do dia que fizemos o ultrassom)

quarta-feira, 28 de março de 2018

Como ficamos grávidos




Entre tantas coisas chatas e difíceis com que os nossos olhos tem contato eu, que amo escrever, resolvi contar belezas que, de fato, aconteceram. 

(Principalmente com todo carinho que recebi com o post da minha gravidez. É mesmo muito lindo que a gente continue se comovendo com os novos seres que se preparam para chegar em nosso mundo!❤️🙏🏻)

Estou casada há quase 7 anos, estamos juntos há quase 9 e nesse tempo todo nos questionamos bastante sobre a responsabilidade vitalícia de sermos guardiões de uma nova vida. Fomos adiando e assumindo o risco de talvez a natureza não nos permitir mais esta escolha, afinal há um limite para a fertilidade. Ano passado foi um ano de mergulhos internos bem profundos, eu diria que até mais para o Paulo, mas eu acompanhei bem de perto suas descobertas e em especial o momento em que ele se percebeu firmemente com vontade de se eternizar. 

A única imortalidade possível ao nosso corpo físico é se manter vivo em um outro corpo, o de um descendente. Somos, cada um de nós, feitos da matéria viva de nossa ancestralidade. Carne, sangue e ossos novos com o componente genético antigo de nossos pais e avós que, muitos, nem sequer pudemos conhecer. 

Ao contrário do Paulo, a coragem de viver o desafio da maternidade não estava me visitando, ainda não me sentia completamente pronta. A primeira vez que deixamos de nos prevenir foi bem anterior ao meu período fértil, eu estava segura com isso. Quando, finalmente, nossa união mais profunda aconteceria em meu momento de fertilidade, tive que me abrir com o Paulo dizendo que precisava de pelo menos mais um mês para me preparar. Ele sentiu raiva, como um menino birrento, daquele dia em diante não me procurou mais. Porém algo de diferente estava acontecendo em mim. Uma alegria sem causa, segurança, amor-próprio... Dias depois comecei a desconfiar que eu tinha engravidado naquela primeira tentativa, fora do período fértil. Conforme os dias passavam eu me preenchia de uma sensação única de poder. Eu não tinha mais dúvidas sobre mim ou sobre o futuro, me sentia forte e saudável, como que uma escolhida pela cosmos para abrigar em meu útero uma semente humana. 


Sinalizei para o Paulo que gostaria de fazer o teste com ele para descobrirmos juntos.  Via em seu olhar um brilho de felicidade e, ao mesmo tempo, uma cautela bloqueando a expectativa. Quando nos tornamos adultos, não nos animamos demais com alegrias que podem ser efêmeras. Sentimos medo da frustração. Crianças não perdem tempo com isso. Criam expectativas e se frustram. E não ligam de criá-las novamente. Até que ficam adultas. Normalmente são as experiências de dor que nos transformam...

No dia 15 de dezembro, quando meu ciclo já estava atrasado há 6 dias, acho, trabalhei até tarde porque tive um evento de formatura no colégio. Lembro que sentei na mesa de homenageados perto da professora Camila e da Fabiana, assistente de direção, ambas grávidas, e que me senti parte daquela realidade que as duas estavam vivendo.


Antes de chegar em casa liguei para o Paulo e ele me pediu para esperar uns minutos na garagem enquanto ele chegava da academia. Na verdade ele queria que chegássemos juntos porque tinha me preparado uma surpresa. Comprou o teste e deixou ao lado de um buquê de flores. Ele também estava se convencendo de que seria uma noite de uma descoberta especial para nós. Além disso as flores não seriam só pra mim. Estávamos felizes com a simples possibilidade. Assim que fiz o teste ele já tirou da minha mão antes que eu visse e levou para debaixo do lustre da sala. Não tive nem tempo de sair do banheiro e o ouvi dizer: “Amor, você está grávida!”

Quando cheguei na sala vi o seu sorriso, que me encantou desde o nosso primeiro encontro. Meus olhos se enchem de lágrimas de lembrar. A gente se abraçou e se beijou, se deu parabéns e ficamos rindo, bobos, como que rodeados de estrelas. 


Eu registro aqui para que possa me lembrar para sempre exatamente como foi. (Como se eu pudesse esquecer) 


E compartilho na esperança de que possa trazer alguma alegria também a você que está lendo. 🙏🏻❤️❤️❤️


Quando o amor se expande em nós ele é capaz de transformar o mundo. Quem sabe o seu mundo😉

(Foto de 15/12/2017)

sexta-feira, 23 de março de 2018

HÁ UM SONHO CRESCENDO DENTRO DE MIM




Como esta história começa? 
“Tudo começou com uma porta entreaberta” esta é a primeira frase do romance que escrevi contando a história de amor que eu vivo e sonho. As histórias, mesmo vividas, são sempre criações. Não sei a história que o Paulo criou sobre isso tudo, até sei um pouco, quando conversamos sob o seu olhar. É uma história bem diferente da minha. Há momentos do livro em que uso as palavras dele, em especial a primeira vez que ele me respondeu um e-mail:

“Compactuo sim dos mesmos pensamentos que você e acho que esse contato iniciado entre nós pode, de alguma forma, trazer frutos. Afinal, hoje em dia são raras as pessoas com esse brilho no olhar.
 
Beijo.
 
Me escreva.”

Eu me lembro claramente que o trecho “acho que este contato iniciado por nós pode, de alguma forma, trazer frutos” me fez fantasiar muitas coisas. Afinal o que ele queria dizer com “frutos”? Quando me enviou essas palavras só tínhamos nos visto uma única vez. Mas as intenções que trocamos por e-mail ficaram gravadas na minha alma e, acredito eu, foram escritas pela alma também. 

Nossos primeiros frutos demoraram anos para nascer: muitas poesias, algumas canções, um livro...

Mas só agora compreendemos sobre o que, verdadeiramente, a alma do Paulo estava se referindo naquele primeiro e-mail, ainda que nenhum de nós tivesse muito consciência sobre isso. 

Estou aqui, quase 14 anos depois, gestando o fruto e o sonho deste contato iniciado por nós em 2004: uma criança!

Era isso então, amor?

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Relacionar-se com outro é um jeito de se relacionar consigo

Não se trata de olhar somente um para o outro. Mas de olhar, os dois, na mesma direção.

Se trata de caminhar junto e de se ver refletido no olhar do outro (para o bem e para o mal). É na parceria que temos a oportunidade de nos relacionar com quem somos. Nossos medos aparecem. Nosso melhor também aparece. Depende de quanto somos merecedores. E da coragem que temos de enxergar. O relacionamento pode favorecer muitas ilusões mas a intimidade permite as revelações. Uma dança dos 7 véus. As máscaras vão caindo. Os 7 chakras se apresentam, em um caminho que descobrimos mais sobre o outro (e sobre nós mesmos) quando somos capazes de nos reconhecer e nos mostrar. “Não é o outro, sou eu.” “Preciso assumir que vejo em você o que eu sou.”

“Não é a você que quero mudar, preciso mudar (curar) a mim mesmo”

“Você me dá a lente para que eu seja capaz de me ver verdadeiramente.”

Estas são frases-guias, lembretes importantes de uma verdade irrefutável: o outro não existe. Sou sempre eu e eu. Eu e o que escolho para mim. Eu com as lições que me servem. Eu me queixando, ou aprendendo e amando, eu recriando e revivendo o passado, ou eu vivenciando e criando o presente... Eu, eu, eu!

Se temos um companheiro que também reconhece esta verdade em si mesmo as chances de aprendizados profundos se ampliam, as de alegrias intensas também. 




Você me apresentou o autoconhecimento, quando nos conhecemos. Depois você me apresentou a Índia, meu amado guru, meu caminho espiritual, impulsionou meus talentos, minha poesia, meu livro, minha vontade de gerar uma outra vida... E nunca foi você. Fui eu que me permiti e você estava lá...

Lá no meu coração ❤️❤️❤️


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

É da sua natureza

É da sua natureza me mostrar poemas
É da sua natureza me deitar na terra
E a terra deitar também sobre mim
Com toda a natureza dela
me subindo pelas pernas
Só você faz isso assim
Porque é da sua natureza e da minha também 
(Manhã de 5/8/2017)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Sobre o passar do tempo e florescimento

Em 19/02/2015 às 3 da madrugada na legenda da foto de uma flor no Instagram:

Horas atrás foi o dia do meu aniversário. 
É preciso rever o que eu vivi. Já são 36 anos, mas ainda não me sinto velha, nem perto disso, como não considero velhos os que têm o dobro da minha idade. Acumular anos não é tornar-se imprestável, como a velhice já foi vista. A idade traz sim uma sabedoria. Embora o mundo valorize o jovem, acho que eu nunca fui tão boba quanto quando era "jovem". A sabedoria mora nos extremos da vida, infância e velhice e eu sou grata por parte dela ter me visitado aos 30 e poucos, não sei exatamente quando, mas eu tenho florescido. 
A flor é a ejaculação da planta, a exuberância da beleza que precede o fruto. Eu tenho florescido. Um florescimento que pode durar uma vida toda (ou mais!?) e mesmo neste processo eu tenho gerado frutos. Tudo que escrevo e que sai do meu coração; as palavras que passam pela minha boca como expressão do meu ser; os atos por mim praticados que geram frutos em outras pessoas, por intervenção da minha relação com elas, do amor que reverbera do nosso encontro, da luz que se celebra em uma alma e outra, de uma alma para outra. Enfim percebo que os frutos não são meus, mas da árvore (ou floresta) "humanidade", a qual me sinto pertencer, porque tenho florescido. 
Eu tenho florescido e vejo mais beleza no mundo e em mim mesma. Há flores que são sementes, vejo que um fruto aconteceu antes, para que a semente pudesse existir. E estas flores são belas, na semente que elas sabem ser, e eu uma privilegiada por vê-las neste instante do crescimento, quando elas nem imaginam a beleza que sairá delas mesmas, então às vezes são duras, como algumas sementes precisam ser para sobreviver. Mas há a incandescência (a indecência!) dos pequenos brotos, dos botões prestes a se abrir e há as flores que me mostram perfume, ou que me permitem saborear seus frutos e me alimentar de sua existência. Ah, como são lindas as pessoas a minha volta! Tenho florescido e visto, não o tempo todo, confesso, mas meu florescimento é conseguir ver e o florescimento dos outros é conseguir me ver... Mesmo quando não consigo ver...
Eu aceito vida! Eu agradeço por tudo que tenho recebido, por tudo aquilo que já compreendo, e por tudo aquilo que ainda não posso compreender, pois eu tenho florescido, mas não sei sobre tudo ainda, nem sequer sinto todo amor e beleza disponíveis neste Universo tão vasto, tão próspero... A natureza não economizou em nada. Ela me invadiu e, até por isso, por vezes eu não suportei tanto deslumbre, eu me fechei.
Neste ano, que se iniciou aos meus 35, no dia 18 de fevereiro de 2014 (com um sarau comemorativo em que fui muito feliz compartilhando minhas poesias e recebendo o talento de tantos amigos) e se finalizou no dia 17 fevereiro de 2015, eu vivi muita coisa: muitos retiros; muitos contatos com o silêncio e comigo mesma; eu consegui um editora para publicar meu primeiro romance (um projeto antigo que tenho sonhado há quase 30 anos!); eu iniciei um processo de transformação da escola que sempre foi minha mas que eu ainda não tinha conquistado; eu experimentei o que é ter um guru, um mestre espiritual, uma guiança de luz e amor infinitos... Eu compreendi tantas coisas de que nem fazia ideia!
Eu reconheci meus dons e meus talentos, que são as ferramentas que tenho para fazer o que eu vim fazer nesta vida. E à partir deste contato interno eu me conectei com todos ao meu redor, eu reconheci o talento das pessoas e a riqueza de tê-las comigo. 
Não há como perceber a si mesmo sem que se perceba os outros. E também não há como perceber os outros sem se perceber. 
Até que, por lampejos de consciência, eu concluo, em alguns instantes da minha existência, que "os outros" são também uma manifestação, uma criação minha, da minha vida, pelo menos esta forma de vê-los e percebê-los é uma expressão do meu próprio ser, que nada mais é que um ser único e maior: a mesma árvore, a mesma floresta!

É, meu Deus, tenho florescido! Obrigada!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Inhotim

A de amarelo sou eu, caminhando por uma das lindas obras de #Inhotim, um enorme jardim botânico (140 hectares, só ontem, sem perceber, andei mais de 10 km, mas há também a opção de fazer o passeio em carrinhos) e museu a céu aberto, repleto de galerias de artistas brasileiros e internacionais. A cada galeria temos uma surpresa. Um banho de beleza e criatividade. Passear pelo parque é ser arrebatado pela natureza (paisagens exuberantes, flores e árvores) e pela arte (às vezes convidativa e surpreendente, às vezes delicada e emocionante). Estou amando!
A obra que aparece na foto é de John Ahearn e seu parceiro Rigoberto Torres. É um mural todo esculpido e resultado de uma imersão dos artistas em #Brumadinho, cidade onde está instalado Inhotim, para conhecer seus personagens reais “invisíveis”, mas que sustentam a cultura local com suas vidas, e, assim, retratá-los com sensibilidade, neste processo comum na trajetória dos artistas. 


Fotógrafo: Paulo Campregher
#mg #minasgerais #jeitinhomineiro

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Contemplo




Quero agradecer suas bênçãos, seu amor, quero agradecer porque viajo para a Índia (apenas em espírito) sendo levada em seu coração. 


Talvez eu ainda não seja digna disso tudo... Mas eu não sei de nada. É você, grandioso e eterno, quem sabe. É seu canto e sua luz que não se encerram, sua força e seu olhar potentes e belos que desvendam o universo. A sua presença se expande, e eu, miúda como um grão de areia, contemplo a grandeza do meu coração no seu. 🙏🏻❤️ #sriprembaba #prembaba #devoção #amor #alinenaíndia 

domingo, 21 de janeiro de 2018

Um conto encantado

Há milhões se séculos a lua cheia ofereceu ao céu seu mais belo ramalhete de estrelas. O universo escuro foi respingado de brilhos e ela ficou estática como um lago cor de pérola, bem redondo, no centro. 

Nas noites de luar é só olhar para cima e ver. As estrelas ainda brilham floridas nos jardins escuros e profundos. E a lua, como um raso lago perolado, encanta e às vezes mingua e sorri. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Estamos em extinção

Pessoas conscientes e sensíveis estão nos dizendo que este não vai ser um ano fácil. Então precisamos de ânimo, precisamos buscar no coração a nossa força vital que já nos fez vencer grandes batalhas. Estar vivo é uma milagre! O funcionamento do nosso corpo, a harmonia do planeta que propicia a nossa existência, o amor que uniu duas pessoas que geraram nosso DNA, a água, o ar, são possibilidades muito raras no universo. Muito raras!

Estamos aqui, escrevendo com nosso corpo, com nossos sentidos, a nossa história. Temos sim, muitos motivos para celebrar esse dia, esse momento, esse encontro (do meu ser com o mundo, vivendo esta época, este ano). Posso escolher me conectar com a vida que pulsa em meu peito, veias, carne, sangue, alma... Posso escolher ser uma testemunha dos acontecimentos que vem e vão, compreendendo sua real brevidade e importância, e também protagonizar cada cena do meu dia com o meu melhor, colocando brilho em meus olhos, sorriso em meus lábios e canções que acariciem meus ouvidos. 

Eu canto meu destino. Eu crio meu caminho. Eu percebo os desafios como oportunidades novas que me surgem. 

Somos únicos, cada um de nós. Por isso estamos todos em extinção. 

Este dia é a única chance de vivê-lo. 

Eu tomo esta chance nas mãos. A minha chance! O MEU DIA! 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Enquanto se espera um amor

Conheci meu amor quando eu tinha 25 anos, ele 29. Só ficamos juntos quando eu tinha 30. Uma história romântica que me inspirou a escrever um livro. 

Às vezes tenho contato com jovens sofrendo pelo primeiro amor aos 15 (não sei se é o seu caso) e me lembro que aos 15 eu ainda nem conhecia aquele que seria meu grande amor. (Pelo menos até hoje. Porque mesmo em um relacionamento verdadeiro e amoroso, precisamos estar cientes da efemeridade da vida. Escrevo isso para me lembrar, pois vivo sentindo a eternidade que talvez não seja tão garantida quanto parece ao meu coração).

Vivi diversas desilusões, vivi até mesmo desilusões com este meu grande amor. Elas existem porque criamos mesmo ilusões a respeito do outro, e até de nós mesmos(as). Estas sim as mais difíceis. 

Vivi anos de solidão amorosa. Anos... Eu tinha apenas amores platônicos. Não tinha coragem de vivê-los e tinha muito medo de me machucar. Ninguém me disse que seria impossível me proteger se eu quisesse realmente experimentar uma relação. Pois relacionar-se é justamente assumir o risco. É como entregar algo frágil e precioso nosso para outra pessoa tomar conta. E assim como estamos ainda aprendendo a ter a maturidade de cuidar desse “algo” frágil e precioso do outro, fatalmente encontraremos, no máximo, alguém que está legitimamente querendo aprender. 
Nós, definitivamente, não sabemos cuidar do outro pois ainda estamos aprendendo a cuidar da gente com amor. 

Então, se um dia alguém não cuidar bem de você. Lembre-se de aprender você mesma(o) este cuidado. De saber os carinhos que merece e praticar em si como deseja ser tratada(o). 

Lembre-se de sorrir com cada lição que a vida quiser ensinar e de acreditar que aquilo que não parece ser tão legal, pode ser um presente que o tempo irá te mostrar. 
Olhe para trás para aprender com as escolhas que fez e escolha plantar o seu futuro com sementes ainda mais bonitas e férteis. Fazendo isso de forma consciente (sem perder a pureza e ternura do coração) o seu jardim crescerá mais saudável. 
Aprenda a gostar da sua companhia, a apreciar os momentos sozinha(o), a valorizar o seu corpo, a sua capacidade de respirar, de se mover e de dançar. 

Dance mais! Ouça suas músicas preferidas, cante alto e dance. A melhor celebração é a que você faz para si mesma(o)

Sorria para estranhos e tenha curiosidade a respeito de como será o seu dia, o seu ano, a sua vida. É sempre um mistério que o tempo te revela aos pouco e que você tece com seus dedos, e com suas emoções. 

Leia poesias, decore as que tocam sua alma, recite para alguém que mereça os versos preferidos. São palavras mágicas que transmutam as horas!

Escreva um diário sobre seus pensamentos e sentimentos, observe-se com mais atenção!

Dignifique suas atividades e seu trabalho com inteireza. Tudo em que se colocar por inteiro, oferecendo o seu melhor, se torna sagrado e belo. 

Descubra-se e mostre-se! 
O ano apenas começou. 
Não importa se o amor virá agora (eu sempre comecei meus anos com essa esperança) ou se terá que esperar 30 anos (como eu) ou mais. Importa aproveitar esta espera com sede de vida e com amor por si mesmo(a). 
Feliz ano novo!

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Natal em família

O Paulo tirou esta foto do almoço de natal, com as 3 gerações femininas da família. Minhas sobrinhas, Rubi (comendo romã) e Amora (já posando pra foto) já têm o delinear das personalidades em definição. Já carregam as marcas da educação, do exemplo da mãe (minha irmã @adelitaahmad ) e o reflexo do carinho e dos estímulos que recebem. Um pouco da avó, também se imortaliza nelas, um pouco da titia, e de todas as convivências mais próximas. Assim somos. As festas de encontros de família também são momentos para nos reconhecermos, olhando o espelho que cada “outro” traz sobre nós. Misteriosamente, se formos atentos, seremos capazes de nos encontrarmos naquilo que julgamos no outro, ou naquilo que sentimos sobre ele. Então podemos dar o passo da individuação, em que reconheço-me no outro mas me distancio dele para que possa ser eu e ele si mesmo. E só assim voltamos a nos sentir parte do mesmo todo, com menos julgamento, mais aceitação e amor. Não é fácil. Pois para aceitarmos as pessoas como são é preciso antes aceitar como somos. É a não aceitação de nós que nos impede de aceitar o outro... 

O natal, aniversário do ser de Jesus, nos deixa o seu legado de amor, aceitação, perdão. Que possamos começar por nós!🙏🏻❤️


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A vida é um caminhar por águas

A vida é um caminhar por águas. As nossas. Mares calmos, mares revoltos, águas claras, águas profundas. Sem desistir. Há as ondas que nos levam, as que nos elevam, as que nos afundam. Há as rasas, que beijam nossos pés, que abençoam a alma. Há as fortes, as que revoltam a alma. São sempre as nossas próprias águas. Delas nascemos, nelas caminhamos, para elas vamos! 

Um banhar-se que se chama Vida! 

#poesia #vida #verdade #águas 

sábado, 9 de dezembro de 2017

Os poetas estão fora do tempo

A poesia é uma cura para o mundo talvez um pouco desconhecida e inexplorada pela maioria das pessoas. Os poetas são profetas que contam histórias que predizem o futuro e elevam o passado. 


Como suspiros de um novo tempo inalcançável, suas palavras são sempre flashes de luz, esferas contemporâneas para os corações sensíveis. 

#rainermariarilke (1875-1926)


domingo, 19 de novembro de 2017

A Carta

A carta

Ele tinha acabado de sair, dela e do lugar. Ia para uma viagem longe, naquele agreste distante, e ninguém sabia se voltava. E havia tanta coisa dela que ele não sabia... Que ela dormia cedo e gostava de doce de abóbora; que ela mordia os lábios de tédio e lavava as calcinhas no banho; que ela nunca deixava comida no prato com medo de escassez e penteava os cabelos longos todo dia antes de dormir; e que ela já sentia saudade, tanta e muita, mesmo sem conhecê-lo bem. Mas seu corpo o conhecia. Fazer amor com outro corpo é a forma mais profunda de conhecer. E ver o cavalo dele pela janela ir ficando pequeno ao seguir a distância da estrada causou nela um aperto no peito. Dor. Como se o escuro da noite invadisse a manhã. Tudo era breu depois que ele sumiu na claridade. Mesmo toda a manhã, e todo o céu, e toda a luz... Nada iluminava. 

A vida eram dois pequenos cômodos de madeira com uma janela, de onde se via a estrada longa e, às vezes, alguém chegar ou ir embora. O coração era um espaço ainda menor e, mesmo assim, tão vasto, que cabia a estrada toda, porque talvez a estrada a levasse a ele. Mas ela mal sabia escrever o nome. Ficou ali pensando umas letras. A juntou com M, com O, com R... Será que era assim que se escrevia?

Percebeu que escrevendo podia senti-lo um pouco mais. A voz dele tocou seu ouvido. Era o sussurro da noite não dormida. Ele dizia “amor”, mesmo sem saber muito bem dela.

Distanciou os olhos do papel e ficou olhando na janela até me ver passar:

“Moça!” - ela me disse - “A senhora escreve?”

Pensei “Como ela sabe?”, mas quando olhei vi seu desespero na janela e compreendi que não falava de mim, estava só pedindo socorro. “Escrevo”, respondi.

Ela abriu a porta e me chamou com a mão. Estava tão triste, tão só, que todas as minhas palavras quiseram lhe fazer companhia. 

“Ele foi embora. Se eu não escrever, ele nunca vai saber.”

Fiquei ouvindo e ela continuou:

“O problema é que não sei escrever... Nem sei o endereço dele, nem o nome inteiro.”

Perguntei:

– Você sabe o que sente?

Saber o que se sente já é saber muito, pensei.

Ela assentiu com a cabeça e me trouxe outro papel e lápis. Pedi:

– Vai falando o que queria falar pra ele que eu escrevo!

Ela me falou rápido e escrevi como ela me dizia, sem corrigir nada, porque isso não se faz com verdades assim tão sérias. Depois ela enrolou o papel, amarrou uma fita de cetim e por fora pediu para eu escrever “Jão”. Perguntei se não era “João” e ela disse: “Não, é Jão mesmo! Jão, jagunço do Zé Caboclo”.

A carta viajou de mão em mão, andou em bolsos, malas, camisas, nada de chegar ao Jão. Ele viveu tanta coisa sem saber que a carta existia! Quase nem se lembrava mais dela. Aquela noite passada juntos, não dormida enlaçados um no outro era uma semente no passado que não tinha dado fruto algum. Jão dormia tantas vezes com mulheres que conhecia pelo caminho. Parece que ele viajou pra um lado e aqueles dizeres pra outro. A carta passava perto do rio, ele estava acampado no mato; a carta subia a montanha, ele atravessava lugarejo. Até que... 

Oito anos depois – e oito anos são toda a vida de uma criança que a altura chega na cintura! – alguém entregou pra Jão a carta, quase rasgada, mal dava pra ler. A fita desfiada, o papel sujo de terra, molhado de suor e chuva. Jão viu que era assinada por Meire. Forçou a vista, não pra ler, mas pra lembrar da cena, o rosto dela não vinha, mas foi só ler que tudo foi clareando. E o rosto, corpo, gosto dela parecia estar ali agora. Ficou pensando como se fosse a voz dela dizendo, falando aquelas coisas que a carta contava. Ele nem sabia, nem sonhava aquilo tudo. Ficou pensando no dia que ela escreveu, fazia já 8 anos aquele dia e parecia ontem. Imaginou Meire com saudade, saudade que ele não sentiu, mas sentia agora. Imaginou Meire sozinha no quarto escrevendo pra ele e chorando. Parecia que estava chorando, ele pensou. Mulher nenhuma tinha chorado por ele. E aquelas palavras todas tinham atravessado o tempo para encontrar seus olhos. Aquele papel tinha resistido ao sertão para tocar seus dedos... Na carta, Meire dizia:

Não sei seu nome intero, mas sei seu chero! Parece um vento que senti uma vez na estrada. Um chero fresco. Gostei quando mexeu no meu cabelo. A sua mão é um carinho que nunca recebi antes. É diferente do seu chero. É quente. Esquentou cada pedaço meu. Até drento! Eu nem falei que tava gostano para num estragar aquilo tudo lindo que ocê tava fazeno. Fiquei quieta. Ocê é como uma comida boa que a gente faz até silêncio pra comê, sentir o gosto direito. Depois que ocê chegou meu coração bateu diferente e inté agora tá assim. Eu queria gritar quando vi ocê ir embora daqui, mas minha voz num saía. Eu tava é com medo de ocê não ficá memo assim. E daí acho qui tá doeno inda mais. Tá doeno agora e parece que vai doer a vida toda sem ocê. É isso que é amor, né? Umas hora alegre de amor, e o resto da vida de dor. Vô ficá assim inté ocê voltá. Essa carta é pra te chamá pra cá de novo. Pra dentro de casa e pra dentro de mim. Meu amor tá aqui procê... E ocê, cadê?

Ele não sabia mais o caminho de volta. Será que era Barra Alta ou Serrado, era Rio Largo ou Garlhas onde ela morava? Se soubesse ia prá lá. Mas e se ela já tivesse casado, se já estivesse com outro? “Meire não ia esperar tanto”, pensou. “Era mulher bonita, jeitosa. Já tinha passado oito anos...”

Jão resolveu escrever. Se era uma carta que tinha acendido nele o amor, como se a tivesse amado aqueles dias todos, e meses e anos, também uma carta havia de chegar a ela, nem que pra isso fosse preciso mais 8 anos. Jão que tinha feito Meire viver de espera, queria viver ele a espera dela. Guardou a carta lida no bolso da calça e se apoiou na cela do cavalo para escrever uma resposta. Dobrou o papel e escreveu: “Para Meire, a da casa azul de Barra Alta.” 


sábado, 18 de novembro de 2017

Molhados de chuva

Voltamos correndo molhados de chuva, somos dois adolescentes beirando os 40. Escrevo poesias nas linhas do meu pensamento e sei que jamais irei lembrar aquelas palavras que me sorriem. Eu perco os poemas no tempo, mas eu me encontro. Faz poucos minutos que as pessoas se levantavam da sala de cinema eu me perguntava como podiam ser tão insensíveis. Um filme demora anos para ser pensado, amado, escrito, filmado, finalizado… Cada música, cena, fala… Depois de derramar lágrimas não se pode simplesmente levantar-se e ir embora. Estamos todos fugindo de sentir? Eu não. Eu sinto aqueles personagens dentro de mim. Parece que tenho uma outra vida em que eles me cabem. É como se tudo aquilo fosse um pedaço de uma vida minha. Dói quando ele vai embora, dói quando ele encontra outra e eles se casam, e dói que ele ainda se lembre dela. Será mesmo que ninguém é feliz? São todos incompletos? Eu choro, talvez você enxugue as minhas lágrimas antes que venham pedir para deixarmos a sala para a próxima sessão. Bom filme, você diz. Será que me identifico com os personagens errados? Talvez eu esteja apenas habitando a tristeza de alguns instantes. Mas ela sorri no último trecho, caminha forte e inteira, é isso que fica pra você. Ainda não compreendo as pessoas que deixam a sala antes de mim. Eu abraço os meus sentimentos, ja não são mais o filme, sou eu. Não sou mais a menina jovem que se casa com o professor, nem a que seduz uma pessoa mais velha. Fui uma jovem insegura que admirava a maturidade com respeito e distância. Amor velado, como meus outros. Agora que sou experiente parece que o mundo é dos jovens, como se eles fossem mais fortes e seguros do que sou. Onde mostro ao mundo os presentes que a idade me deu? É como se eu estivesse sempre do lado mais fraco. 

Lá fora chove, refugio-me na livraria e seus braços vem como doces forças mundanas tocar meu corpo. Você está forte e me acalentam seus lábios docemente. Recebo um frescor na sua ternura. O entorno fica mais leve e claro. Eu continuo sonhadora, basta que me deem motivos. Meus sonhos não envelheceram. São os mesmos. Componho a minha sinfonia com as cenas de amor dos filmes românticos. Sou sempre eu. E você. Eu e você. Nós. Compreendo você  quando não se sente amado, amo as histórias e personagens que crio quando estamos juntos. Às vezes me sente atuando. É porque estou a testar aquele roteiro novo em que cabemos perfeitamente nos personagens. 

Poderia ser um filme, poderia ser um livro. 

Poderia ser apenas essas linhas. 


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Ardente

Sou flor ardente

Como me fez Deus, o poderoso artesão do universo 

Fui uma pétala única em suas mãos carentes de amor

E fui amada enquanto feita 

E ainda mais depois. 

Por seu sopro perfumou meu pólen, inseriu em mim a sua divindade

Estou à beira de alguns caminhos 

Sou a delicada constatação de que Ele existe e de que em mim colocou suas mãos. 

Um toque assim nem o tempo apaga, nem o vento leva...


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Tem tanto

Eu tenho aquilo que não cabe

A palavra que o tempo come

Aquilo engolido que não disse

Não escrevi, não falei


Tem tanto...

Tá tudo aqui. 

Aqui e no ontem


Aqui e no antes


Hoje? Digo isso!


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O amor nasce na carne

O amor nasce na carne
Depois ele corre e se espalha na alma
Não tem volta 
É como doença boa
Não contagia
Inebria o doente
Dói o peito
Dói dentro da gente
"Estou morrendo", se sente
E um pedaço lá do fundo morre mesmo
Pro amor trazer outro mundo pra fora
Então nesta viagem só de de ida
O amor desbrava as maiores mortes da vida 
Atravessa tudo
Me atravessa!
Não importa se me olha
Ou se se esquiva
Ele tem nas mãos os seus poderes
E me mantém viva
Sei quando te vejo
Um aceleramento
Um espasmo, seu beijo
Sei quando te toco
Como a um tesouro
Te suspiro, silencio,
Te evoco. 
Ficamos suspensos
Nossa respiração é o tempo. 
Uma rara eternidade o nosso encontro. 
Nascem palavras invisíveis que não sei se conto
Me calo. 
Só me invade o sentimento 
Vivo.

sábado, 26 de agosto de 2017

Palavras

E eu? Eu colhi as palavras espessas e puras. 


Palavras raras que debruçavam sua força 

por uma rampa longa e escura. 


Palavras que desciam do céu como candelabros acesos em chamas singelas


Palavras que beijavam o horizonte com cores de sol poente. 


Palavras que a brisa levava para dançar canções no breu.


Palavras pelos recantos, cantos, matos, pelas multidões, campos, cidades, levadas em vôos de besouros, mosquitos, pernilongos. 


Palavras caminhando nas peles e pelos, nos corpos e folhas, em você, em mim. Dentro e fora de nós. 


Palavras, sim.


Palavras. 


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Casamento Marcela e Flavia

Tenho algumas considerações sobre a cerimônia de casamento da @mmpaduan e da @flaviateles que fui neste sábado, aliás servem para toda festa a que somos convidados. 

1. Casamento é a convivência, é o que duas pessoas constroem se relacionando. Cerimônia e festa é a celebração, e a partilha desta decisão de caminhar junto. .


2. Quando somos convidados a celebrar, muitas vezes pensamos mais em nós que no motivo da celebração e no que será celebrado. Pensamos no traje, em como seremos recebidos (e alimentados...rs), é possível que esqueçamos o real motivo. Quando a cerimônia é de casamento (poderia ser aniversário) vamos festejar a união de 2 pessoas corajosas, por, em tempos de separação, violência e desamor, estarem publicamente escolhendo: AMAR!

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3. Ser convidado é ter a oportunidade de se conectar com as pessoas, com quem elas são e com o significado daquilo para elas e para o mundo. Cada ser humano que nasce (no caso dos aniversários) ou que se une (no caso dos casamentos) é único e traz consigo uma compreensão nova para este planeta. A celebração pode ser sempre uma inspiração para os convidados, seja um convite para amarmos o outro ou para sermos também a nossa verdade.

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Recebi um banho de amor, beleza, alegria e verdade, com esta cerimônia e festa que pude vivenciar com presença e consciência (para não perder nada!)🙏🏻❤️❤️❤️

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Fiquei tocada pelo convite pra cantar "Prabhu Ap Jago" durante o ritual, cujo o significado da letra, originalmente em sânscrito, é uma prece: "Que o amor desperte em mim, em todos e em todos os lugares"🙏🏻 🌷


#casamento #amor #celebrar #viver #reflexão


domingo, 13 de agosto de 2017

Dia dos pais

O pai, portal masculino do que somos, 

raiz do que seremos. 


Um homem e uma mulher nos trouxeram aqui. 


O sexo, união profunda de dois corpos, é um chamado que diz à alma da criança "vem"


E nós viemos. 




@alineahmad

terça-feira, 8 de agosto de 2017

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Inverso

Atravesso, sou verso,

Inverto, sou o inverso,

De tudo,

De todos,

Não me mudo,

Nem me contento,

Não lamento,

Eu tento. 


Não sou rápido 

Sou lento 

E silencioso

Como o seu olhar

Mais vigoroso

Sou cuidadoso

De pétala em pétala. 

Minha flor voa

Seu perfume ecoa

Ela vive

Eu também!

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Para Adelita

Espero o tempo suspender o espaço 

Que me separa de você

No instante de um abraço

Me aproximo do seu coração

Eu choro como sempre faço

Você não


É seu aniversário

O mundo sorri

A irmandade permanece

A história se repete 

Agora você é a mãe

O amor acontece

(Aline Ahmad para Adelita Ahmad)

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O amor é uma lembrança

A verdade é que a beleza está disponível mesmo quando a gente não olha. 

O amor é uma lembrança de quem somos. 

E um portal para ver o belo. 

Por isso, coração puro e peito aberto para amar!



sexta-feira, 28 de julho de 2017

O mundo e eu

Eu venci esse apelo do mundo

Esse pedido imediato de crescimento

Pede para deixar-me

Eu me abraço e fico

O mundo caminha

Eu fico

O mundo regride

Eu fico

O mundo me agride 

Eu fico


O mundo sou eu. 

(Aline Ahmad)

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