Tenho me maravilhado com as histórias das pessoas, algumas deixam jorrar pelos olhos o encanto da alma, sorriem com o corpo todo, a pele expande, adquirem outro tamanho. Eu me morderia diante disso, para ter certeza da realidade que me toca. Mas quando acontece apenas fico extremamente viva. Diante de mim há o universo acontecendo.
Uma escola, a minha, é o mundo todo.
É o pedaço de giz abandonado na lousa, o ventilador parado como decoração na aula esvaziada, um grito de criança, o povoado de cada sala, outro mundo inteiro dentro de um mundo inteiro. Os lugarejos das carteiras, mestres que entram e saem, saliva em seus discursos... Sentimento, tanto sentimento entalado. Sentimento, tanto sentimento aos berros, mesmo em silêncio. O silêncio, nosso minuto de paz invisível. Está tudo dentro. Dentro e fora, fora e dentro, somos o que está fora, des-somos, des-vivemos, des-olhamos o dentro. Mas somos o dentro, vivemos enclausurados dentro de nós.
Ah! Mas e a beleza das histórias?
Os livros descosturam a mochila pesada, em um pedaço de caderno declaro o amor que não conto por snapchat, mas rasgo em seguida. Um segundo de consciência para as horas de distância. A mãe sozinha cria o filho, a filha, outro filho, gravidez de abandono. O pai imaturo nem sabe a dor que causa, nele dói também. Não sabe tratar mulher. Descarta uma, só aprendeu a jogar baralho, descarta outra, mas se sente sempre descartado. A dor original se repete.
O abandono de quem morre, rejeitando a vida, uma criança sem pai, uma criança sem mãe. Pior, uma criança sem mãe, com mãe viva, uma criança sem pai, com pai vivo. Ausências na infância.
As histórias tristes que me contam. As belezas que me confidenciam.
Ah...
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Quem me procura
Na minha adolescência eu tinha muitos amores platônicos e era muito tímida. Eu já amava escrever, que era o único lugar de refúgio para todo o sentimento não expressado que morava em mim. Meus poemas contavam meus amores não vividos, tudo aquilo não realizado na vida, emitido somente em palavra. Quando me perguntavam para quem eu os escrevia, nem eu mesma sabia, era para um "outro" sonhado, que eu sequer conhecia, alguém que eu estava à procura. Mas se eu o procurava imaginei que ele também estava à minha procura. Então escrevi esse poema:
QUEM ME PROCURA
É muita amargura
Porque pra mim o teu olhar tem tal fissura
Que meu maior medo é do teu pranto
Derramando-me lágrimas que gritam
Tanto quanto gritam os que choram,
Tanto quanto choram os que por ti tem tal encanto
Choram porque te olham e não te encontram
Choram pelo medo e pela dor de te amar
Choram como eu choro
A desejar cada segundo do teu tempo
Meu maior desejo?
É estar em teu mundo e me encher de encantamento.
Porque teu beijo é meu momento de ilusão
É que o traduz e cristaliza sentimento e emoção.
Vale a pena te amar ou não?
Vale a pena te ter então?
Vale a pena te querer em vão?
A não ser que deixes de ser minha amargura e passes a ser minha esperança pura de um novo amanhã.
Acredito que te amar é uma loucura sã,
Porque não encontro ternura em teu olhar
Ainda que seja uma realidade dura
Vou ter que deixar de te amar pra encontrar
Quem me procura.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
O amor
O amor é o único pedaço do corpo com alma dentro
Todos os outros pedaços são corpo sem alma
E ocos sem amor.
O amor é a única alma que vibra
Faz bater o coração,
Ensanguentar as veias
Arder o olhar
Até sorrir de lágrimas.
O amor é a única vida do corpo
Todo resto é morte
Um corpo morto é um corpo que nunca experimentou o amor
Um corpo vivo é o que viveu dele até a morte.
O corpo morre, o amor vive, pois é ele a própria vida.
Todos os outros pedaços são corpo sem alma
E ocos sem amor.
O amor é a única alma que vibra
Faz bater o coração,
Ensanguentar as veias
Arder o olhar
Até sorrir de lágrimas.
O amor é a única vida do corpo
Todo resto é morte
Um corpo morto é um corpo que nunca experimentou o amor
Um corpo vivo é o que viveu dele até a morte.
O corpo morre, o amor vive, pois é ele a própria vida.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
O que eu não sei dizer
Tenho pensado sobre a literatura, com meu coração apertado querendo dizer coisas que eu não sei dizer, só sentir, mas me cobro. Se são da textura da minha vida, as palavras, a elas devo recorrer para me dizer. E, mesmo assim, não me digo.
Eu me cobro uma descoberta constante, acontecimento que não posso promover sem dor.
Eu me cobro, delinear sonhos novos...
Eu me cobro uma descoberta constante, acontecimento que não posso promover sem dor.
Eu me cobro, delinear sonhos novos...
domingo, 7 de julho de 2013
O verso e o inverso
Toda alegria é estar sozinha.
Toda tristeza é estar sozinha.
E a ilusão de que tudo se resolve com um abraço.
E a verdade de que tudo se resolve com um abraço.
Entre estes versos o antagonismo da vida.
Toda tristeza é estar sozinha.
E a ilusão de que tudo se resolve com um abraço.
E a verdade de que tudo se resolve com um abraço.
Entre estes versos o antagonismo da vida.
Aline, preciso te dizer:
Aline, preciso te dizer que a vida nem sempre brilha, que as luzes nem sempre faíscam por dentro e que você nem sempre reluz como pedras em água cristalina sorrindo nos dias claros.
Aline, preciso te dizer que a vida tem te dado tantos presentes, mas você muitas vezes se maravilha só com o embrulho. O melhor da vida é quando cai a casca. É quando se atravessa o escuro. É quando parece que o caminho chegou a um fim. Só que não é o fim, talvez seja simplesmente o começo.
Preciso te dizer que você fez tantas escolhas erradas e elas doem mesmo, elas rasgam pele, carne, espirram sangue, sobretudo na alma. A sua alma está suja desse sangue, por isso tantas lágrimas...
Descobertas profundas não acontecem todas as horas, embora existam em todos os instantes e nem sequer estejam encobertas... É que sem embrulho talvez você não as veja ou perceba.
Aline, as pessoas não são como você sonha, elas nem mesmo são como são. Por isso é tão difícil olhar para elas, porque tudo que verá é a si mesma.
Aline, alguém só te magoa quando você permite. E impedir é não amar, e não amar é não viver. Aliás, Aline, as pessoas só te magoam porque você não as ama. Você, como todas elas, deseja ser amada.
Preciso te dizer que cada minuto da vida é de encantamento e magia, se você seguir seu desejo. Sei que você tem se esquecido demais disso, é por isso que escrevo esta carta, porque também percebo que está muito próxima de lembrar-se mais.
Por mais violento que seja tudo que aconteceu até aqui, a maior violência é esquecer-se. Não de tudo, de você. O esquecimento de si é a maior violência pela qual uma pessoa pode passar. E todas passam. Você já passou e pode escolher, agora, deixar passar o esquecimento. Só assim a lembrança poderá voltar a reluzir o "seu" brilho e espalhar a "sua" luz.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Vislumbre da verdade
Sou sozinha por dentro. Minha solidão às vezes grita meu próprio nome, eu me confundo. Quando ouço "Solidão" acho que sou eu quem deve responder. Eu me escondo, reclusa em minha vida, eu me isolo do mundo e das pessoas. Deve ser medo de ser descoberta. Na vida é melhor fingir ser qualquer outra coisa, menos si mesmo, para não sofrer. Quando escrevo posso ser um vislumbre da verdade que carrego, depois é só dizer que estava inspirada em outra gente ou personagem. Aqui ficam as verdades minhas... Nas palavras! Não sei onde aprendi a adorá-las tanto... Tanto...
terça-feira, 16 de abril de 2013
Olhe bem para ela
Olhe bem para ela
Olhe nos olhos
Janela de sonhos
Alma dos desejos.
Olhe no encanto
No canto dos olhos
Na raiz de todos os beijos.
Olhe e se encante
e se cante
Cante para ela
Como se fosse única
Sozinha e bela.
Olhe nessa vida,
Porque uma filha
É a vida toda!
Olhe nos olhos
Janela de sonhos
Alma dos desejos.
Olhe no encanto
No canto dos olhos
Na raiz de todos os beijos.
Olhe e se encante
e se cante
Cante para ela
Como se fosse única
Sozinha e bela.
Olhe nessa vida,
Porque uma filha
É a vida toda!
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Des-existir
Eu não tenho nome,
(Isto eu só conto em segredo)
Tenho complexos, reflexos, sem nexo
Sobre quem sou.
Eu des-sou,
Eu des-faço,
Eu des-ço.
Eu des-existo,
Isto!
Eu des-isto.
(Isto eu só conto em segredo)
Tenho complexos, reflexos, sem nexo
Sobre quem sou.
Eu des-sou,
Eu des-faço,
Eu des-ço.
Eu des-existo,
Isto!
Eu des-isto.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Para morrer onde se nasce
"Ele tinha que, tentado, Vencer o mal e o bem, Antes que, já libertado, Deixasse o caminho errado". (Fernando Pessoa)
Ali depois do imenso portão um novo mundo se abria, em que duas rodas giravam embaixo de si e uma enorme, de fogo e de luz, o aquecia muito mais alto que sua cabeça. As de baixo o faziam desbravar caminhos, a de cima bronzeava sua pele. Levava apenas o vento na garupa. Algo assim como liberdade. Livre do mundo e para o mundo. "Adiante! Avante!" Gritava o menino. Pelas duas margens da estrada as copas das árvores se debruçavam para dentro como se tentassem abraçar-se, eram fugazes desenhos de sombra no chão que a mobilete atravessava em velocidade. Para onde ia? Lugar nenhum. E lugar nenhum era o mundo todo, a terra toda, a natureza completa, com feitiços e matizes, com silêncios e mistérios que habitavam seus sonhos fugidios e presentes desejos de esconder-se de si, para somente assim ser si mesmo.
Acelerava na descida e a pequena moto ameaçava voar. Voava a dor, voava a solidão, voava a angústia... Subia a estrada íngreme de onde podia apreciar a paisagem verde e árida. Parecia estar tão perto, chegando em algum espaço de chegada, mas nunca chegava. Porque não havia chegada, só uma partida constante. E um deixar-se. Para ser-se era preciso deixar-se em cada trecho da estrada. Espalhar-se pela terra como um semeador faz com as sementes.
Aquela terra é testemunha de tanta vida! Uma vida que ele busca respirar de novo.
"Quando eu morrer vou me enterrar aqui. Para que eu possa voltar pro lugar onde nasci". Um homem só nasce no lugar que o amor se fez sentir pela primeira vez, onde a sua existência, de fato e consciência, começou a ser moldada. Por isso era ali que tinha nascido. Antes tinha só existido, ou vivido, mas "nascido", começado-se... Aquele era o lugar. Uma terra de montanhas ao redor de onde podia ser observado o por-do-sol e o raiar das estrelas. De onde era possível sentir o cheiro do mato e da flor, da chuva, do bolo de chuva... O calor da lareira, do sol, do amor...
Ele falou "vou me enterrar aqui", assim dessa forma, como se fosse possível a alguém enterrar a si mesmo. Talvez, caso se percebesse morto ainda vivo... Quanta gente morta não há que vive andando por aí só com o corpo e olhos abertos? Provavelmente se "morresse" mesmo vivo - dizem que se morre quando se abandona os sonhos - gostaria de ordenar seu corpo a deitar-se naquela terra até parar de respirar, para que respirasse pela última vez no lugar onde nasceu. Para que respirasse-se, respirasse a si mesmo, misturado aquele ar. Tanto Paulo há pelos ares de Ibiuna... Paulo misturado ao rio, Paulo misturado às folhagens, às plantas, aos cachorros vira-latas que andam como selvagens pelo condomínio Colinas. Paulo misturado ao céu e às piscinas.
Dizem que naquele tempo de antes piscinas eram invadidas por espíritos da floresta, só os íntimos sabem, porque só a eles contou, mas era o espírito dele e o de outros amigos - que também estavam nascendo ali - que pulavam muros ou criavam passagens secretas por baixo de cercas de arame em busca do proibido. O proibido era mesmo mais gostoso!
Ele abre a janela do carro e respira o ar que sempre esteve misturado a ele. Está de novo chegando em seu recôndito lugarejo. Inspira fundo como quem sente um perfume amado e conhecido, cheiro do passado que fica guardado no vento (o mesmo que andava em sua garupa), e mais uma vez as partículas se misturam ao seu sangue e passam a fazer parte do seu ser.
Então ele me disse: "-Vou te mostrar os 'matos' que comprei!"
Estava, obviamente fazendo alusão a um fato que contei a ele. Esta foi a frase escrita pelo o meu avô em uma carta para minha vó quando eles começaram a namorar. Era um amor platônico, dito em palavras escritas, em um tempo que só se permitia um relacionamento que acontecesse unicamente em mãos dadas, nenhum toque além desse. Minha vó não sabia ler, precisava de ajuda para entender o que as cartas diziam. Depois de lidas, as cartas eram guardadas em um porta-jóia como objetos de muito valor. Foi somente pelo cuidado e afeto com que foram mantidas que, uns 50 anos depois de escritas, eu as encontrei. Esta era a frase que mais tinha me causado estranheza... "Vou te mostrar os matos" resgatava da minha cidade uma lembrança que eu não tinha. Para mim Guarulhos era um lugar urbano, com prédios e avenidas. Imaginar que tudo aquilo tinha sido um aglomerado de matos com estradas de terra ligando uma propriedade a outra me causava espanto. Depois, compreender que a prosperidade de meu avô tinha começado com aquele estreito pedaço de terra, foi como encontrar um sentido. Uma coisa não começa do jeito que é. Pelo menos não em aparência. As coisas nascem e se tornam outras coisas, em geral maiores. A riqueza do meu avô - que em grande parte me sustenta até hoje - tinha começado modestamente do jeito que ele descrevera como "matos".
"Olha é aqui. Meus matos!" Ele apontou um pedaço de terra, o seu primeiro, e pude agradecer por existir ainda começos e nascimentos no mundo, e por ele poder começar da mesma forma que meu avô. Quando li aquela carta tive a sensação de que não existiam mais "matos" como ele descrevera. Ainda há. Não se sabe por quanto tempo...
Pode ser que toda riqueza comece do mato, ou, se não começa mais, um dia começou. Mas além dessa riqueza, constituída de dinheiro, capaz de comprar terrenos e sustentar bocas com comida, havia escondida ali uma outra riqueza. A riqueza dele, feita de sensibilidade e sentimento, feita de canto e doçura, plantada com ferramentas de agricultor e com muitos passeios levando o vento na garupa. Espalhou-se por Ibiuna a riqueza do meu amor, riqueza que não caberia naquele primeiro pedaço de mato comprado com notas verdes. Porque precisa do mundo todo para abrigá-la. Meu amor é rico! E já o era, desde menino. E o será, até o dia de espalhar-se de novo, só que em matéria, enterrado naquele lugar.
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