quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Relacionar-se com outro é um jeito de se relacionar consigo

Não se trata de olhar somente um para o outro. Mas de olhar, os dois, na mesma direção.

Se trata de caminhar junto e de se ver refletido no olhar do outro (para o bem e para o mal). É na parceria que temos a oportunidade de nos relacionar com quem somos. Nossos medos aparecem. Nosso melhor também aparece. Depende de quanto somos merecedores. E da coragem que temos de enxergar. O relacionamento pode favorecer muitas ilusões mas a intimidade permite as revelações. Uma dança dos 7 véus. As máscaras vão caindo. Os 7 chakras se apresentam, em um caminho que descobrimos mais sobre o outro (e sobre nós mesmos) quando somos capazes de nos reconhecer e nos mostrar. “Não é o outro, sou eu.” “Preciso assumir que vejo em você o que eu sou.”

“Não é a você que quero mudar, preciso mudar (curar) a mim mesmo”

“Você me dá a lente para que eu seja capaz de me ver verdadeiramente.”

Estas são frases-guias, lembretes importantes de uma verdade irrefutável: o outro não existe. Sou sempre eu e eu. Eu e o que escolho para mim. Eu com as lições que me servem. Eu me queixando, ou aprendendo e amando, eu recriando e revivendo o passado, ou eu vivenciando e criando o presente... Eu, eu, eu!

Se temos um companheiro que também reconhece esta verdade em si mesmo as chances de aprendizados profundos se ampliam, as de alegrias intensas também. 




Você me apresentou o autoconhecimento, quando nos conhecemos. Depois você me apresentou a Índia, meu amado guru, meu caminho espiritual, impulsionou meus talentos, minha poesia, meu livro, minha vontade de gerar uma outra vida... E nunca foi você. Fui eu que me permiti e você estava lá...

Lá no meu coração ❤️❤️❤️


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

É da sua natureza

É da sua natureza me mostrar poemas
É da sua natureza me deitar na terra
E a terra deitar também sobre mim
Com toda a natureza dela
me subindo pelas pernas
Só você faz isso assim
Porque é da sua natureza e da minha também 
(Manhã de 5/8/2017)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Sobre o passar do tempo e florescimento

Em 19/02/2015 às 3 da madrugada na legenda da foto de uma flor no Instagram:

Horas atrás foi o dia do meu aniversário. 
É preciso rever o que eu vivi. Já são 36 anos, mas ainda não me sinto velha, nem perto disso, como não considero velhos os que têm o dobro da minha idade. Acumular anos não é tornar-se imprestável, como a velhice já foi vista. A idade traz sim uma sabedoria. Embora o mundo valorize o jovem, acho que eu nunca fui tão boba quanto quando era "jovem". A sabedoria mora nos extremos da vida, infância e velhice e eu sou grata por parte dela ter me visitado aos 30 e poucos, não sei exatamente quando, mas eu tenho florescido. 
A flor é a ejaculação da planta, a exuberância da beleza que precede o fruto. Eu tenho florescido. Um florescimento que pode durar uma vida toda (ou mais!?) e mesmo neste processo eu tenho gerado frutos. Tudo que escrevo e que sai do meu coração; as palavras que passam pela minha boca como expressão do meu ser; os atos por mim praticados que geram frutos em outras pessoas, por intervenção da minha relação com elas, do amor que reverbera do nosso encontro, da luz que se celebra em uma alma e outra, de uma alma para outra. Enfim percebo que os frutos não são meus, mas da árvore (ou floresta) "humanidade", a qual me sinto pertencer, porque tenho florescido. 
Eu tenho florescido e vejo mais beleza no mundo e em mim mesma. Há flores que são sementes, vejo que um fruto aconteceu antes, para que a semente pudesse existir. E estas flores são belas, na semente que elas sabem ser, e eu uma privilegiada por vê-las neste instante do crescimento, quando elas nem imaginam a beleza que sairá delas mesmas, então às vezes são duras, como algumas sementes precisam ser para sobreviver. Mas há a incandescência (a indecência!) dos pequenos brotos, dos botões prestes a se abrir e há as flores que me mostram perfume, ou que me permitem saborear seus frutos e me alimentar de sua existência. Ah, como são lindas as pessoas a minha volta! Tenho florescido e visto, não o tempo todo, confesso, mas meu florescimento é conseguir ver e o florescimento dos outros é conseguir me ver... Mesmo quando não consigo ver...
Eu aceito vida! Eu agradeço por tudo que tenho recebido, por tudo aquilo que já compreendo, e por tudo aquilo que ainda não posso compreender, pois eu tenho florescido, mas não sei sobre tudo ainda, nem sequer sinto todo amor e beleza disponíveis neste Universo tão vasto, tão próspero... A natureza não economizou em nada. Ela me invadiu e, até por isso, por vezes eu não suportei tanto deslumbre, eu me fechei.
Neste ano, que se iniciou aos meus 35, no dia 18 de fevereiro de 2014 (com um sarau comemorativo em que fui muito feliz compartilhando minhas poesias e recebendo o talento de tantos amigos) e se finalizou no dia 17 fevereiro de 2015, eu vivi muita coisa: muitos retiros; muitos contatos com o silêncio e comigo mesma; eu consegui um editora para publicar meu primeiro romance (um projeto antigo que tenho sonhado há quase 30 anos!); eu iniciei um processo de transformação da escola que sempre foi minha mas que eu ainda não tinha conquistado; eu experimentei o que é ter um guru, um mestre espiritual, uma guiança de luz e amor infinitos... Eu compreendi tantas coisas de que nem fazia ideia!
Eu reconheci meus dons e meus talentos, que são as ferramentas que tenho para fazer o que eu vim fazer nesta vida. E à partir deste contato interno eu me conectei com todos ao meu redor, eu reconheci o talento das pessoas e a riqueza de tê-las comigo. 
Não há como perceber a si mesmo sem que se perceba os outros. E também não há como perceber os outros sem se perceber. 
Até que, por lampejos de consciência, eu concluo, em alguns instantes da minha existência, que "os outros" são também uma manifestação, uma criação minha, da minha vida, pelo menos esta forma de vê-los e percebê-los é uma expressão do meu próprio ser, que nada mais é que um ser único e maior: a mesma árvore, a mesma floresta!

É, meu Deus, tenho florescido! Obrigada!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Inhotim

A de amarelo sou eu, caminhando por uma das lindas obras de #Inhotim, um enorme jardim botânico (140 hectares, só ontem, sem perceber, andei mais de 10 km, mas há também a opção de fazer o passeio em carrinhos) e museu a céu aberto, repleto de galerias de artistas brasileiros e internacionais. A cada galeria temos uma surpresa. Um banho de beleza e criatividade. Passear pelo parque é ser arrebatado pela natureza (paisagens exuberantes, flores e árvores) e pela arte (às vezes convidativa e surpreendente, às vezes delicada e emocionante). Estou amando!
A obra que aparece na foto é de John Ahearn e seu parceiro Rigoberto Torres. É um mural todo esculpido e resultado de uma imersão dos artistas em #Brumadinho, cidade onde está instalado Inhotim, para conhecer seus personagens reais “invisíveis”, mas que sustentam a cultura local com suas vidas, e, assim, retratá-los com sensibilidade, neste processo comum na trajetória dos artistas. 


Fotógrafo: Paulo Campregher
#mg #minasgerais #jeitinhomineiro

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Contemplo




Quero agradecer suas bênçãos, seu amor, quero agradecer porque viajo para a Índia (apenas em espírito) sendo levada em seu coração. 


Talvez eu ainda não seja digna disso tudo... Mas eu não sei de nada. É você, grandioso e eterno, quem sabe. É seu canto e sua luz que não se encerram, sua força e seu olhar potentes e belos que desvendam o universo. A sua presença se expande, e eu, miúda como um grão de areia, contemplo a grandeza do meu coração no seu. 🙏🏻❤️ #sriprembaba #prembaba #devoção #amor #alinenaíndia 

domingo, 21 de janeiro de 2018

Um conto encantado

Há milhões se séculos a lua cheia ofereceu ao céu seu mais belo ramalhete de estrelas. O universo escuro foi respingado de brilhos e ela ficou estática como um lago cor de pérola, bem redondo, no centro. 

Nas noites de luar é só olhar para cima e ver. As estrelas ainda brilham floridas nos jardins escuros e profundos. E a lua, como um raso lago perolado, encanta e às vezes mingua e sorri. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Estamos em extinção

Pessoas conscientes e sensíveis estão nos dizendo que este não vai ser um ano fácil. Então precisamos de ânimo, precisamos buscar no coração a nossa força vital que já nos fez vencer grandes batalhas. Estar vivo é uma milagre! O funcionamento do nosso corpo, a harmonia do planeta que propicia a nossa existência, o amor que uniu duas pessoas que geraram nosso DNA, a água, o ar, são possibilidades muito raras no universo. Muito raras!

Estamos aqui, escrevendo com nosso corpo, com nossos sentidos, a nossa história. Temos sim, muitos motivos para celebrar esse dia, esse momento, esse encontro (do meu ser com o mundo, vivendo esta época, este ano). Posso escolher me conectar com a vida que pulsa em meu peito, veias, carne, sangue, alma... Posso escolher ser uma testemunha dos acontecimentos que vem e vão, compreendendo sua real brevidade e importância, e também protagonizar cada cena do meu dia com o meu melhor, colocando brilho em meus olhos, sorriso em meus lábios e canções que acariciem meus ouvidos. 

Eu canto meu destino. Eu crio meu caminho. Eu percebo os desafios como oportunidades novas que me surgem. 

Somos únicos, cada um de nós. Por isso estamos todos em extinção. 

Este dia é a única chance de vivê-lo. 

Eu tomo esta chance nas mãos. A minha chance! O MEU DIA! 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Enquanto se espera um amor

Conheci meu amor quando eu tinha 25 anos, ele 29. Só ficamos juntos quando eu tinha 30. Uma história romântica que me inspirou a escrever um livro. 

Às vezes tenho contato com jovens sofrendo pelo primeiro amor aos 15 (não sei se é o seu caso) e me lembro que aos 15 eu ainda nem conhecia aquele que seria meu grande amor. (Pelo menos até hoje. Porque mesmo em um relacionamento verdadeiro e amoroso, precisamos estar cientes da efemeridade da vida. Escrevo isso para me lembrar, pois vivo sentindo a eternidade que talvez não seja tão garantida quanto parece ao meu coração).

Vivi diversas desilusões, vivi até mesmo desilusões com este meu grande amor. Elas existem porque criamos mesmo ilusões a respeito do outro, e até de nós mesmos(as). Estas sim as mais difíceis. 

Vivi anos de solidão amorosa. Anos... Eu tinha apenas amores platônicos. Não tinha coragem de vivê-los e tinha muito medo de me machucar. Ninguém me disse que seria impossível me proteger se eu quisesse realmente experimentar uma relação. Pois relacionar-se é justamente assumir o risco. É como entregar algo frágil e precioso nosso para outra pessoa tomar conta. E assim como estamos ainda aprendendo a ter a maturidade de cuidar desse “algo” frágil e precioso do outro, fatalmente encontraremos, no máximo, alguém que está legitimamente querendo aprender. 
Nós, definitivamente, não sabemos cuidar do outro pois ainda estamos aprendendo a cuidar da gente com amor. 

Então, se um dia alguém não cuidar bem de você. Lembre-se de aprender você mesma(o) este cuidado. De saber os carinhos que merece e praticar em si como deseja ser tratada(o). 

Lembre-se de sorrir com cada lição que a vida quiser ensinar e de acreditar que aquilo que não parece ser tão legal, pode ser um presente que o tempo irá te mostrar. 
Olhe para trás para aprender com as escolhas que fez e escolha plantar o seu futuro com sementes ainda mais bonitas e férteis. Fazendo isso de forma consciente (sem perder a pureza e ternura do coração) o seu jardim crescerá mais saudável. 
Aprenda a gostar da sua companhia, a apreciar os momentos sozinha(o), a valorizar o seu corpo, a sua capacidade de respirar, de se mover e de dançar. 

Dance mais! Ouça suas músicas preferidas, cante alto e dance. A melhor celebração é a que você faz para si mesma(o)

Sorria para estranhos e tenha curiosidade a respeito de como será o seu dia, o seu ano, a sua vida. É sempre um mistério que o tempo te revela aos pouco e que você tece com seus dedos, e com suas emoções. 

Leia poesias, decore as que tocam sua alma, recite para alguém que mereça os versos preferidos. São palavras mágicas que transmutam as horas!

Escreva um diário sobre seus pensamentos e sentimentos, observe-se com mais atenção!

Dignifique suas atividades e seu trabalho com inteireza. Tudo em que se colocar por inteiro, oferecendo o seu melhor, se torna sagrado e belo. 

Descubra-se e mostre-se! 
O ano apenas começou. 
Não importa se o amor virá agora (eu sempre comecei meus anos com essa esperança) ou se terá que esperar 30 anos (como eu) ou mais. Importa aproveitar esta espera com sede de vida e com amor por si mesmo(a). 
Feliz ano novo!

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Natal em família

O Paulo tirou esta foto do almoço de natal, com as 3 gerações femininas da família. Minhas sobrinhas, Rubi (comendo romã) e Amora (já posando pra foto) já têm o delinear das personalidades em definição. Já carregam as marcas da educação, do exemplo da mãe (minha irmã @adelitaahmad ) e o reflexo do carinho e dos estímulos que recebem. Um pouco da avó, também se imortaliza nelas, um pouco da titia, e de todas as convivências mais próximas. Assim somos. As festas de encontros de família também são momentos para nos reconhecermos, olhando o espelho que cada “outro” traz sobre nós. Misteriosamente, se formos atentos, seremos capazes de nos encontrarmos naquilo que julgamos no outro, ou naquilo que sentimos sobre ele. Então podemos dar o passo da individuação, em que reconheço-me no outro mas me distancio dele para que possa ser eu e ele si mesmo. E só assim voltamos a nos sentir parte do mesmo todo, com menos julgamento, mais aceitação e amor. Não é fácil. Pois para aceitarmos as pessoas como são é preciso antes aceitar como somos. É a não aceitação de nós que nos impede de aceitar o outro... 

O natal, aniversário do ser de Jesus, nos deixa o seu legado de amor, aceitação, perdão. Que possamos começar por nós!🙏🏻❤️


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A vida é um caminhar por águas

A vida é um caminhar por águas. As nossas. Mares calmos, mares revoltos, águas claras, águas profundas. Sem desistir. Há as ondas que nos levam, as que nos elevam, as que nos afundam. Há as rasas, que beijam nossos pés, que abençoam a alma. Há as fortes, as que revoltam a alma. São sempre as nossas próprias águas. Delas nascemos, nelas caminhamos, para elas vamos! 

Um banhar-se que se chama Vida! 

#poesia #vida #verdade #águas 

sábado, 9 de dezembro de 2017

Os poetas estão fora do tempo

A poesia é uma cura para o mundo talvez um pouco desconhecida e inexplorada pela maioria das pessoas. Os poetas são profetas que contam histórias que predizem o futuro e elevam o passado. 


Como suspiros de um novo tempo inalcançável, suas palavras são sempre flashes de luz, esferas contemporâneas para os corações sensíveis. 

#rainermariarilke (1875-1926)


domingo, 19 de novembro de 2017

A Carta

A carta

Ele tinha acabado de sair, dela e do lugar. Ia para uma viagem longe, naquele agreste distante, e ninguém sabia se voltava. E havia tanta coisa dela que ele não sabia... Que ela dormia cedo e gostava de doce de abóbora; que ela mordia os lábios de tédio e lavava as calcinhas no banho; que ela nunca deixava comida no prato com medo de escassez e penteava os cabelos longos todo dia antes de dormir; e que ela já sentia saudade, tanta e muita, mesmo sem conhecê-lo bem. Mas seu corpo o conhecia. Fazer amor com outro corpo é a forma mais profunda de conhecer. E ver o cavalo dele pela janela ir ficando pequeno ao seguir a distância da estrada causou nela um aperto no peito. Dor. Como se o escuro da noite invadisse a manhã. Tudo era breu depois que ele sumiu na claridade. Mesmo toda a manhã, e todo o céu, e toda a luz... Nada iluminava. 

A vida eram dois pequenos cômodos de madeira com uma janela, de onde se via a estrada longa e, às vezes, alguém chegar ou ir embora. O coração era um espaço ainda menor e, mesmo assim, tão vasto, que cabia a estrada toda, porque talvez a estrada a levasse a ele. Mas ela mal sabia escrever o nome. Ficou ali pensando umas letras. A juntou com M, com O, com R... Será que era assim que se escrevia?

Percebeu que escrevendo podia senti-lo um pouco mais. A voz dele tocou seu ouvido. Era o sussurro da noite não dormida. Ele dizia “amor”, mesmo sem saber muito bem dela.

Distanciou os olhos do papel e ficou olhando na janela até me ver passar:

“Moça!” - ela me disse - “A senhora escreve?”

Pensei “Como ela sabe?”, mas quando olhei vi seu desespero na janela e compreendi que não falava de mim, estava só pedindo socorro. “Escrevo”, respondi.

Ela abriu a porta e me chamou com a mão. Estava tão triste, tão só, que todas as minhas palavras quiseram lhe fazer companhia. 

“Ele foi embora. Se eu não escrever, ele nunca vai saber.”

Fiquei ouvindo e ela continuou:

“O problema é que não sei escrever... Nem sei o endereço dele, nem o nome inteiro.”

Perguntei:

– Você sabe o que sente?

Saber o que se sente já é saber muito, pensei.

Ela assentiu com a cabeça e me trouxe outro papel e lápis. Pedi:

– Vai falando o que queria falar pra ele que eu escrevo!

Ela me falou rápido e escrevi como ela me dizia, sem corrigir nada, porque isso não se faz com verdades assim tão sérias. Depois ela enrolou o papel, amarrou uma fita de cetim e por fora pediu para eu escrever “Jão”. Perguntei se não era “João” e ela disse: “Não, é Jão mesmo! Jão, jagunço do Zé Caboclo”.

A carta viajou de mão em mão, andou em bolsos, malas, camisas, nada de chegar ao Jão. Ele viveu tanta coisa sem saber que a carta existia! Quase nem se lembrava mais dela. Aquela noite passada juntos, não dormida enlaçados um no outro era uma semente no passado que não tinha dado fruto algum. Jão dormia tantas vezes com mulheres que conhecia pelo caminho. Parece que ele viajou pra um lado e aqueles dizeres pra outro. A carta passava perto do rio, ele estava acampado no mato; a carta subia a montanha, ele atravessava lugarejo. Até que... 

Oito anos depois – e oito anos são toda a vida de uma criança que a altura chega na cintura! – alguém entregou pra Jão a carta, quase rasgada, mal dava pra ler. A fita desfiada, o papel sujo de terra, molhado de suor e chuva. Jão viu que era assinada por Meire. Forçou a vista, não pra ler, mas pra lembrar da cena, o rosto dela não vinha, mas foi só ler que tudo foi clareando. E o rosto, corpo, gosto dela parecia estar ali agora. Ficou pensando como se fosse a voz dela dizendo, falando aquelas coisas que a carta contava. Ele nem sabia, nem sonhava aquilo tudo. Ficou pensando no dia que ela escreveu, fazia já 8 anos aquele dia e parecia ontem. Imaginou Meire com saudade, saudade que ele não sentiu, mas sentia agora. Imaginou Meire sozinha no quarto escrevendo pra ele e chorando. Parecia que estava chorando, ele pensou. Mulher nenhuma tinha chorado por ele. E aquelas palavras todas tinham atravessado o tempo para encontrar seus olhos. Aquele papel tinha resistido ao sertão para tocar seus dedos... Na carta, Meire dizia:

Não sei seu nome intero, mas sei seu chero! Parece um vento que senti uma vez na estrada. Um chero fresco. Gostei quando mexeu no meu cabelo. A sua mão é um carinho que nunca recebi antes. É diferente do seu chero. É quente. Esquentou cada pedaço meu. Até drento! Eu nem falei que tava gostano para num estragar aquilo tudo lindo que ocê tava fazeno. Fiquei quieta. Ocê é como uma comida boa que a gente faz até silêncio pra comê, sentir o gosto direito. Depois que ocê chegou meu coração bateu diferente e inté agora tá assim. Eu queria gritar quando vi ocê ir embora daqui, mas minha voz num saía. Eu tava é com medo de ocê não ficá memo assim. E daí acho qui tá doeno inda mais. Tá doeno agora e parece que vai doer a vida toda sem ocê. É isso que é amor, né? Umas hora alegre de amor, e o resto da vida de dor. Vô ficá assim inté ocê voltá. Essa carta é pra te chamá pra cá de novo. Pra dentro de casa e pra dentro de mim. Meu amor tá aqui procê... E ocê, cadê?

Ele não sabia mais o caminho de volta. Será que era Barra Alta ou Serrado, era Rio Largo ou Garlhas onde ela morava? Se soubesse ia prá lá. Mas e se ela já tivesse casado, se já estivesse com outro? “Meire não ia esperar tanto”, pensou. “Era mulher bonita, jeitosa. Já tinha passado oito anos...”

Jão resolveu escrever. Se era uma carta que tinha acendido nele o amor, como se a tivesse amado aqueles dias todos, e meses e anos, também uma carta havia de chegar a ela, nem que pra isso fosse preciso mais 8 anos. Jão que tinha feito Meire viver de espera, queria viver ele a espera dela. Guardou a carta lida no bolso da calça e se apoiou na cela do cavalo para escrever uma resposta. Dobrou o papel e escreveu: “Para Meire, a da casa azul de Barra Alta.” 


sábado, 18 de novembro de 2017

Molhados de chuva

Voltamos correndo molhados de chuva, somos dois adolescentes beirando os 40. Escrevo poesias nas linhas do meu pensamento e sei que jamais irei lembrar aquelas palavras que me sorriem. Eu perco os poemas no tempo, mas eu me encontro. Faz poucos minutos que as pessoas se levantavam da sala de cinema eu me perguntava como podiam ser tão insensíveis. Um filme demora anos para ser pensado, amado, escrito, filmado, finalizado… Cada música, cena, fala… Depois de derramar lágrimas não se pode simplesmente levantar-se e ir embora. Estamos todos fugindo de sentir? Eu não. Eu sinto aqueles personagens dentro de mim. Parece que tenho uma outra vida em que eles me cabem. É como se tudo aquilo fosse um pedaço de uma vida minha. Dói quando ele vai embora, dói quando ele encontra outra e eles se casam, e dói que ele ainda se lembre dela. Será mesmo que ninguém é feliz? São todos incompletos? Eu choro, talvez você enxugue as minhas lágrimas antes que venham pedir para deixarmos a sala para a próxima sessão. Bom filme, você diz. Será que me identifico com os personagens errados? Talvez eu esteja apenas habitando a tristeza de alguns instantes. Mas ela sorri no último trecho, caminha forte e inteira, é isso que fica pra você. Ainda não compreendo as pessoas que deixam a sala antes de mim. Eu abraço os meus sentimentos, ja não são mais o filme, sou eu. Não sou mais a menina jovem que se casa com o professor, nem a que seduz uma pessoa mais velha. Fui uma jovem insegura que admirava a maturidade com respeito e distância. Amor velado, como meus outros. Agora que sou experiente parece que o mundo é dos jovens, como se eles fossem mais fortes e seguros do que sou. Onde mostro ao mundo os presentes que a idade me deu? É como se eu estivesse sempre do lado mais fraco. 

Lá fora chove, refugio-me na livraria e seus braços vem como doces forças mundanas tocar meu corpo. Você está forte e me acalentam seus lábios docemente. Recebo um frescor na sua ternura. O entorno fica mais leve e claro. Eu continuo sonhadora, basta que me deem motivos. Meus sonhos não envelheceram. São os mesmos. Componho a minha sinfonia com as cenas de amor dos filmes românticos. Sou sempre eu. E você. Eu e você. Nós. Compreendo você  quando não se sente amado, amo as histórias e personagens que crio quando estamos juntos. Às vezes me sente atuando. É porque estou a testar aquele roteiro novo em que cabemos perfeitamente nos personagens. 

Poderia ser um filme, poderia ser um livro. 

Poderia ser apenas essas linhas. 


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Ardente

Sou flor ardente

Como me fez Deus, o poderoso artesão do universo 

Fui uma pétala única em suas mãos carentes de amor

E fui amada enquanto feita 

E ainda mais depois. 

Por seu sopro perfumou meu pólen, inseriu em mim a sua divindade

Estou à beira de alguns caminhos 

Sou a delicada constatação de que Ele existe e de que em mim colocou suas mãos. 

Um toque assim nem o tempo apaga, nem o vento leva...


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Tem tanto

Eu tenho aquilo que não cabe

A palavra que o tempo come

Aquilo engolido que não disse

Não escrevi, não falei


Tem tanto...

Tá tudo aqui. 

Aqui e no ontem


Aqui e no antes


Hoje? Digo isso!


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O amor nasce na carne

O amor nasce na carne
Depois ele corre e se espalha na alma
Não tem volta 
É como doença boa
Não contagia
Inebria o doente
Dói o peito
Dói dentro da gente
"Estou morrendo", se sente
E um pedaço lá do fundo morre mesmo
Pro amor trazer outro mundo pra fora
Então nesta viagem só de de ida
O amor desbrava as maiores mortes da vida 
Atravessa tudo
Me atravessa!
Não importa se me olha
Ou se se esquiva
Ele tem nas mãos os seus poderes
E me mantém viva
Sei quando te vejo
Um aceleramento
Um espasmo, seu beijo
Sei quando te toco
Como a um tesouro
Te suspiro, silencio,
Te evoco. 
Ficamos suspensos
Nossa respiração é o tempo. 
Uma rara eternidade o nosso encontro. 
Nascem palavras invisíveis que não sei se conto
Me calo. 
Só me invade o sentimento 
Vivo.

sábado, 26 de agosto de 2017

Palavras

E eu? Eu colhi as palavras espessas e puras. 


Palavras raras que debruçavam sua força 

por uma rampa longa e escura. 


Palavras que desciam do céu como candelabros acesos em chamas singelas


Palavras que beijavam o horizonte com cores de sol poente. 


Palavras que a brisa levava para dançar canções no breu.


Palavras pelos recantos, cantos, matos, pelas multidões, campos, cidades, levadas em vôos de besouros, mosquitos, pernilongos. 


Palavras caminhando nas peles e pelos, nos corpos e folhas, em você, em mim. Dentro e fora de nós. 


Palavras, sim.


Palavras. 


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Casamento Marcela e Flavia

Tenho algumas considerações sobre a cerimônia de casamento da @mmpaduan e da @flaviateles que fui neste sábado, aliás servem para toda festa a que somos convidados. 

1. Casamento é a convivência, é o que duas pessoas constroem se relacionando. Cerimônia e festa é a celebração, e a partilha desta decisão de caminhar junto. .


2. Quando somos convidados a celebrar, muitas vezes pensamos mais em nós que no motivo da celebração e no que será celebrado. Pensamos no traje, em como seremos recebidos (e alimentados...rs), é possível que esqueçamos o real motivo. Quando a cerimônia é de casamento (poderia ser aniversário) vamos festejar a união de 2 pessoas corajosas, por, em tempos de separação, violência e desamor, estarem publicamente escolhendo: AMAR!

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3. Ser convidado é ter a oportunidade de se conectar com as pessoas, com quem elas são e com o significado daquilo para elas e para o mundo. Cada ser humano que nasce (no caso dos aniversários) ou que se une (no caso dos casamentos) é único e traz consigo uma compreensão nova para este planeta. A celebração pode ser sempre uma inspiração para os convidados, seja um convite para amarmos o outro ou para sermos também a nossa verdade.

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Recebi um banho de amor, beleza, alegria e verdade, com esta cerimônia e festa que pude vivenciar com presença e consciência (para não perder nada!)🙏🏻❤️❤️❤️

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Fiquei tocada pelo convite pra cantar "Prabhu Ap Jago" durante o ritual, cujo o significado da letra, originalmente em sânscrito, é uma prece: "Que o amor desperte em mim, em todos e em todos os lugares"🙏🏻 🌷


#casamento #amor #celebrar #viver #reflexão


domingo, 13 de agosto de 2017

Dia dos pais

O pai, portal masculino do que somos, 

raiz do que seremos. 


Um homem e uma mulher nos trouxeram aqui. 


O sexo, união profunda de dois corpos, é um chamado que diz à alma da criança "vem"


E nós viemos. 




@alineahmad

terça-feira, 8 de agosto de 2017

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Inverso

Atravesso, sou verso,

Inverto, sou o inverso,

De tudo,

De todos,

Não me mudo,

Nem me contento,

Não lamento,

Eu tento. 


Não sou rápido 

Sou lento 

E silencioso

Como o seu olhar

Mais vigoroso

Sou cuidadoso

De pétala em pétala. 

Minha flor voa

Seu perfume ecoa

Ela vive

Eu também!

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Para Adelita

Espero o tempo suspender o espaço 

Que me separa de você

No instante de um abraço

Me aproximo do seu coração

Eu choro como sempre faço

Você não


É seu aniversário

O mundo sorri

A irmandade permanece

A história se repete 

Agora você é a mãe

O amor acontece

(Aline Ahmad para Adelita Ahmad)

#poesia #poema #instapoema #instapoesia #poetisa

O amor é uma lembrança

A verdade é que a beleza está disponível mesmo quando a gente não olha. 

O amor é uma lembrança de quem somos. 

E um portal para ver o belo. 

Por isso, coração puro e peito aberto para amar!



sexta-feira, 28 de julho de 2017

O mundo e eu

Eu venci esse apelo do mundo

Esse pedido imediato de crescimento

Pede para deixar-me

Eu me abraço e fico

O mundo caminha

Eu fico

O mundo regride

Eu fico

O mundo me agride 

Eu fico


O mundo sou eu. 

(Aline Ahmad)

#poem #poema #poesia #instapoesia #instapoema #poemasescritos #poetisa #frases

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Infância

Num espaço sem tempestade caminho por uma estreita ponte. Não sei o que virá até que um novo dia amanheça. Não sei de onde vim. Se era luz ou sombra, de onde saí. Caminho para deitar meus olhos em outro lugar. Ouço muitos nomes, muitos sussurros. De repente vejo dois seres pequeninos brincando em um jardim. Há também pedrinhas brancas e uma árvore que nem sequer cresceu. São menininhas loiras, eu também sou pequena. Criamos o nosso mundo entrelaçadas por horas e anos celestiais. Uma vida de porcelana frágil e delicada. 


Eu me esqueci quem vocês eram. Esqueci para poder me lembrar. Só agora me recordo. Presenças sagradas da minha infância, com quem colecionei os momentos mais tristes que costuraram quem sou, de quem recebi as maiores alegrias do passado. Eu estava viva. Vocês também. Mesmo sangue, mesma história, mesma mãe. Ser mãe se abre como uma possibilidade. Estendo a mão e vocês ainda estão lá. Lá dentro. Andreza e Adelita

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Distância

É clara a noite escura

Nela me vejo só e nua

A mim mesma 

como evito olhar

De mim me esquivo 

por doer se aproximar

Assim revivo

A distância 

Do que sou



Aline Ahmad

domingo, 16 de julho de 2017

Resolvi ser eu



Resolvi ser eu

Um curto espasmo

Em que percebi que não era

Continuo não sendo

Mas naquele instante resolvi ser


Resolvi ser eu

A que observa

Não a que faz

A que respira

Não a que esquece

De si


Resolvi ser

Então tudo aconteceu:

Resolvi 

Tudo!


Quando resolvi ser eu eu


#poesia #poema #eu #selfie #selfpoem #selfpoet #autoconhecimento (Quem me segue no Stories sabe que momentos foi esse!)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Imaginação

É nossa responsabilidade alimentar a nossa alma com conteúdo imagético (imagens e imaginação) capaz de nos salvar da nossa própria miséria. Isso não é viver uma mentira, mas sim buscar a verdade. (7/7/2017)

Shiva


Um #tbt do Senhor Shiva, em Laksham Jhula, Rishikeshi. Nesta região a água do Ganges ainda é limpa (para nós ocidentais, para eles o rio sagrado é sempre puro). 


Uma vez, antes de ir pra Índia, eu estava meditando e vi uma figura dançando e me chamando, sorrindo. Eu identifiquei aquilo como uma entidade hindu me convidando a visitar a Índia. Era Shiva, pelo menos é como hoje faz sentido para mim. Eu o reconheço. 


Podemos ver o hinduísmo como uma religião com muitos deuses. Mas também podemos olhar como aspectos de Deus que representam diferentes aspectos nossos. Desta forma, todas as escrituras sagradas, de todas as religiões, com seus personagens, se tornam mais próximas de nós, como alegorias sobre nosso mundo interior (a mais pura realidade que pode existir e permanecer), tudo extremamente real e possível. E sagrado. 🙏🏻 #shiva #lakshmanjhula #lordshiva #senhorshiva


domingo, 9 de julho de 2017

Gurupurnima e a gratidão ao guru





Hoje é um dia muito auspicioso na Índia, é o dia da lua cheia do guru. O momento de agradecer tudo ue foi recebido, pois todos que tem um guru sabem o quanto recebem no coração. Esse é um tesouro desconhecido para a mente. Ele só pode ser recebido quando o coração se abre para a  grandeza do amor puro, só pode ser conhecido com muito merecimento e é assim que a gratidão floresce no peito. Pelo menos uma vez ao ano todos saem de casa e vão em busca do guru para neste dia fazer o agradecimento pessoalmente e para tocar os pés do guru (que significa entregar a ele toda sujeira energética e mal karma). Quando as pessoas estão tocando o pé do guru não se trata de uma reverência, mas de entregar o lixo a ele. O guru recebe sorrindo e transforma o mal karma em luz e amor. Esse poder só pode ser sentido por quem se expõe à presença do guru querendo verdadeiramente conhecer esse poder. Se fizer isso repetidamente durante alguns dias acredito que seja disponível a qualquer ser humano compreender o mistério. É preciso sentar bem próximo, para que mesmo os mais insensíveis possam sentir. Todas as pessoas que presenciei fazerem isso puderam receber presentes e compreender sobre o que estou falando. 🙏🏻❤️

Eu jamais compreenderia se não tivesse feito isso. Faço parte dos insensíveis. Mas o guru foi muito amoroso comigo e quebrou as barreiras, os muros, do meu coração. No momento que isso aconteceu meu peito se encheu de amor e eu jamais fui a mesma. O poder do guru é o amor, mas o amor em uma dimensão só compreendida por quem vive a experiência. Não é nem mesmo parecido com o amor humano que experimentamos ao longo da vida. Muitos sábios viveram isso através dos tempos, muitos discípulos experimentaram esse amor com um mestre vivo.  

Meu desejo, neste dia, além de agradecer a ele por tudo que recebi, é de que você possa receber a graça de compreender sobre o que estou falando. 🙏🏻

Aline***

“Um mestre espiritual é como uma estrela cadente: passa muito rápido. E, neste planeta, é raro quem possa presenciar esse fenômeno, pois todos estão muito preocupados em ‘ganhar a vida’ e não sobra tempo de olhar para o céu." (Sri Prem Baba)

Guruji, agradeço pelo Deus em mim que me fez olhar o céu da existência e notar a estrela que você é! Entre esse céu e o meu coração não há distância, você brilha dentro e fora de mim. 🙏🏻

 #prembaba #sriprembaba #awakenlove #awakenlove

(Escrito em 8/7/2017)