quinta-feira, 19 de março de 2015

Índia - Trem

Compramos a passagem de trem no hotel, só tinha segunda classe e apesar da estranheza em que eu estava, por tudo que tinha acabado de ver na estação, é bem confortável e a nossa companhia foi mais que especial. Este é Devendra (ou algum nome muito parecido, mas o nome não importa) ele e a mulher vão a Delhi a cada 6 meses para um acompanhamento médico, porque sua esposa já passou por uma cirurgia cardíaca. Ambos são sorridentes e simpáticos mas ele tem alguma doçura e serenidade raras de encontrar e sentir. 
Com 52 anos, é mestre de yoga há 15, e nos ensinou um pouquinho. 
"O yoga faz você ver a vida mais bonita", ele nos disse. 

Pessoas assim fazem a gente ver a vida mais bonita.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Índia - Estação de Trem

Acabei esquecendo de contar que a nossa ida para Agra foi no segundo dia, de trem. A estação de Nova Delhi (e de Agra também) é extremamente suja, foi meu primeiro choque de nojo. Ratos andam pelos trilhos e saem de buracos nas paredes, eu, por sorte não precisei me aproximar de nenhum mas, em vários momentos, os vi de longe. O chão tem uma camada de sujeira e mesmo assim as pessoas sentam e deitam para esperar o trem, às vezes protegidas por um pano ou pela própria mala. Vi um rato passar por cima da mala de um homem. Vi pessoas sentadas perto de onde passou um rato, inclusive uma mulher amamentando um bebê. Tudo isto estava muito chocante para mim. Os trilhos também ficam sujos de fezes, porque os banheiros dos trens são buracos. Então imaginem!
Ao mesmo tempo são pessoas. Quando temos um estilo de vida diferente olhamos para outros seres humanos como nós como se fossem animais em um zoológico, com estranheza, mas os olhares deles também me viam assim. Às vezes parecíamos (eu e Paulo) ser o centro de uma arena de circo, era só nos distrairmos que se juntavam pessoas a nossa volta nos olhando e algumas nos pedindo para sairmos ao lado delas em fotos. 
Essas que pediam fotos me comoviam, porque me devolviam a  admiração que saía de mim na direção delas. Mulheres tão bem vestidas, várias com trajes bordados, sempre em cores vivas. Por isso o contraste, tanta sujeira, porém tanta singeleza e beleza.
(Foto em Agra, vejam como a criança me olha)

Índia e um lampejo do terceiro dia

A Índia entrou no meu coração aos poucos. Não só por esta experiência local, mas pelo sonho que se criou em mim no últimos anos. Percebi que um pedaço deste país morava no meu peito, como uma semente fincando raízes por ter sido jogada muito longe de seu habitat, mas uma semente legítima, indiana, que me permitiu adoçar o paladar para sentir o gosto picante da vida em pura gratidão e prazer. Uma experiência assim só se descreve com poesia para que se mantenha mais mágica que as palavras, para que se perpetue suspensa no povoado das sutilezas que silenciam a mente e deslumbram a alma. 
Meu marido aprendeu na escola, com um professor, que a poesia é a única forma de se dizer aquilo que a poesia diz. Contrario este pensamento, a minha poesia é a única forma de não dizer (e não dizer é dizer tanto) para perambular pelas ausências de significado. (Que se deduza a verdade do dito e do não dito). 
A realidade é intocável pelas palavras, a poesia somente a sonha de um jeito mais belo. 
Mas o que eu ia dizer ao começar esse texto eu nem cheguei perto de revelar... Talvez por isso esteja completamente expresso aqui. 
O Taj Mahal ao fundo, nesta foto, no Forte de Agra é uma degustação da beleza das próximas fotos, a do meu terceiro dia na Índia. 

Índia - Segundo Dia - Jantar Mantar

Ainda no segundo dia, segunda-feira (16/03/2015), visitamos Jantar Mantar, um complexo arquitetônico com 13 instrumentos astronômicos dos anos 1700, que tinham como objetivo medir o movimento do sol, da lua, além das demais estrelas e planetas. 
Se quiser acompanhar também pelo blog será um prazer😊

Índia - Segundo Dia

Nosso segundo dia começou com uma visita ao templo dedicado a Lakshmi e Narayan, que não pode ser fotografado por dentro, mas é um primor do conhecimento védico. Muito didático com textos (e figuras) explicativos em inglês. Uma das imagens que me tocou foi a de um homem com 5 cavalos diante de uma bifurcação no caminho, um dos lados o levaria para baixo e estava escrito neste caminho: sons, toques, formas, gostos, cheiros. Terminava em uma representação do inferno. O outro o levaria para cima, nele estava escrito: caminho certo, caminho da evolução  espiritual, boas ações, devoção, sabedoria. Terminava com uma representação do céu, da iluminação ou libertação. Ao lado havia a explicação: dizem que os sentidos do homem são os cavalos [alusão aos nossos 5 sentidos], os objetos das sensações são seu caminho. O homem com a mente sã alcança os mais altos lugares de Deus. 
Nesta única figura foi possível condensar muito sobre o hinduísmo. Achei lindo e inspirador, mas, como acontece com diversos textos a interpretação conta muito.

terça-feira, 17 de março de 2015

Índia - Protestos

Ao mesmo tempo em que acompanho as manifestações no Brasil também tenho visto protestos aqui na Índia. Dois países do BRIC em que seus povos se sentem injustiçados. Seja o povo simples e carente, como os agricultores que protestam aqui, seja o povo escolarizado e mais privilegiado socialmente, como aconteceu no Brasil, eu quero lembrar que somos sempre "povo" uma mesma massa. Por mais que ainda exista uma ilusão de separação: ricos e pobres, dominantes e dominados, e assim por diante, sinto que estamos mais unidos do que se imagina, apesar das diferenças ainda contrastantes. O que prejudica um grupo, prejudica também o outro. O que beneficia um grupo, beneficia também o outro. Existe uma minoria que não enxerga isso, penso eu que seja uma minoria, mas todo o povo quer o bem de todo o povo, sem discriminação. É óbvio que tudo respinga em todos, uma economia forte é bom para todos, uma economia fraca e ruim para todos. Boa educação é bom para todos, e assim por diante. Chega de nos separarmos. Que possamos nos unir!

Índia - continuando

O primeiro dia na Índia foi um domingo calmo, passeando por ruas bonitas e limpas em New Delhi. Mas se a Índia não é sempre e completamente suja e bagunçada, ela também não é sempre limpa e organizada. Fui percebendo isso aos poucos. 
O trânsito de dentro de um tuc-tuc pode ser bastante engraçado. As buzinas que ouvimos o tempo todo a cada carro que passa por nós, ou a cada lugar que passamos, ainda não me irritaram. É divertido! 
A forma com que os indianos tentam nos cobrar por tudo, sempre mais caro do que o fariam, para nossos padrões de honestidade (que, convenhamos, não é grande coisa, afinal somos brasileiros e talvez por isso mesmo, culturalmente, também gostamos de tirar nossa vantagem em tudo) chegou a me irritar em algumas situações, mas depois, fazendo as contas, o "estelionato", o engano que me causaram gera um prejuízo de 2 reais, às vezes 10 e, quer saber? É tão menos do que a Índia tem me dado. Tão, tão menos...

domingo, 15 de março de 2015

Índia - Parte 3

Por que generalizamos tanto?
Por que dizemos que um país é sujo e desorganizado, se ainda não conhecemos com profundidade o país? E pior, por que acreditamos nessas meias verdades?
Duas de minhas cidades favoritas no mundo: Veneza e Paris, são amadas e odiadas. Alguns dizem que são cidades sujas, que cheiram mal, etc. Basta reservar um hotel ruim, em uma zona pouco limpa e será possível dizer sobre toda a cidade: "Paris é suja", ou "Paris é perigosa", repetimos a nossa experiência daquele lugar. É legítimo, mas não é tudo. Todo país e toda cidade são entidades múltiplas que se mostram em diversas faces para cada pessoa. Ou em uma única face, que pode ser feia ou bela. A Índia tem se mostrado mais que linda para mim. 
Nossos amigos indianos nos levaram para passear pelo bairro onde ficam várias embaixadas internacionais. Tudo limpo, florido, bem cuidado. Nenhum trânsito (por ser domingo). Terminamos o dia vendo o sol se pôr em Humayun's Tomb. 
#alinenaÍndia #Índia #thankyouIndia #humanaynstomb
#Délhi

Índia - Primeiro dia (parte 2)

Chegar na madrugada de sábado para domingo, ter um motorista nos aguardando no aeroporto, não pegar trânsito até o hotel, encontrar café da manhã gostoso, cama boa, acordar em um domingo sem trânsito, com amigos indianos vindo nos buscar no hotel com flores, fez o nosso dia.

Chegar na madrugada (após 22horas de viagem, sem contar o deslocamento até o aeroporto e as horas de espera), nossas malas ficarem em Londres, não termos nem uma muda de roupa na bagagem de mão, dormirmos às 6h para acordar ao meio-dia para passear, não foi suficiente (nem um pouco!) para estragar o quanto a Índia tem sido boa comigo. 🙏💕💗

Índia - Primeiro dia (parte 1)

Pensando a respeito do que é uma viagem:
Viajar, se locomover: mudar de lugar; não estar mais no ponto de partida; se comover: mover-se junto. Qualquer trajeto de presença é uma viagem, qualquer sonho, qualquer beleza mental, também. Eis que saio do meu mundo, da comodidade do meu entorno e logo de dentro da minha casa percebo que a viagem começou. Não a que travo pela vida, mas a jornada para a Índia. Um e-mail anuncia nossa necessária troca de vôo, que faríamos o mais rápido possível. Uma viagem de horas, não há vôo direto e o que se ouve sobre a Índia, além da beleza de seus templos, da pobreza (e alegria!) de seu povo, é que se trata de um grande choque cultural, uma mistura de cheiros, sabores, carros, poeira, barulho, buzinas, animais e pessoas pelas ruas. A história que ficou para mim foi a de minha irmã que, ao chegar na Índia, há 18 anos mais ou menos, quando ela também tinha por volta desta idade, teve um desmaio, um espasmo, uma ruptura diante da feiura confusa de uma beleza velada. Uma linguagem que não dizemos porque não somos daqui (escrevo do lado de cá, da Índia), mas que ao mesmo tempo se comunica com a alma, fala com a minha. 
No entanto a Índia tem sido completamente diferente para mim do que sempre ouvi dizer. 
(Foto tirada no aeroporto de Délhi)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Tristes

Tenho me maravilhado com as histórias das pessoas, algumas deixam jorrar pelos olhos o encanto da alma, sorriem com o corpo todo, a pele expande, adquirem outro tamanho. Eu me morderia diante disso, para ter certeza da realidade que me toca. Mas quando acontece apenas fico extremamente viva. Diante de mim há o universo acontecendo.
Uma escola, a minha, é o mundo todo.
É o pedaço de giz abandonado na lousa, o ventilador parado como decoração na aula esvaziada, um grito de criança, o povoado de cada sala, outro mundo inteiro dentro de um mundo inteiro. Os lugarejos das carteiras, mestres que entram e saem, saliva em seus discursos... Sentimento, tanto sentimento entalado. Sentimento, tanto sentimento aos berros, mesmo em silêncio. O silêncio, nosso minuto de paz invisível. Está tudo dentro. Dentro e fora, fora e dentro, somos o que está fora, des-somos, des-vivemos, des-olhamos o dentro. Mas somos o dentro, vivemos enclausurados dentro de nós.
Ah! Mas e a beleza das histórias?
Os livros descosturam a mochila pesada, em um pedaço de caderno declaro o amor que não conto por snapchat, mas rasgo em seguida. Um segundo de consciência para as horas de distância. A mãe sozinha cria o filho, a filha, outro filho, gravidez de abandono. O pai imaturo nem sabe a dor que causa, nele dói também. Não sabe tratar mulher. Descarta uma, só aprendeu a jogar baralho, descarta outra, mas se sente sempre descartado. A dor original se repete.
O abandono de quem morre, rejeitando a vida, uma criança sem pai, uma criança sem mãe. Pior, uma criança sem mãe, com mãe viva, uma criança sem pai, com pai vivo. Ausências na infância.

As histórias tristes que me contam. As belezas que me confidenciam.
Ah...

domingo, 28 de dezembro de 2014

Invenção

Você nunca está comigo
Nunca
Você não me vê
Você não repara
Você não me sente
Queria que me adivinhasse
Mais do que sou capaz de adivinhar a mim mesma. 
Não seria o homem amado aquele que me sabe mais do que mostro?
Que me nota o que não digo?
Que me oferece abrigo?

Preciso inventar que não me ama
Para justificar minha tristeza inerente
Que sinto dentro da alegria
Que escondo no riso


A solidão que fica junto a mim

Eu sei da minha solidão 
Um isolamento que se consuma em meio aos outros
Ninguém me sente ou sabe
Sou abandonada por dentro
As aproximações não sou capaz de sentir
As rejeições sim 
O tempo todo, quando estou junto

Como se sozinha eu fosse mais alegre
Como se junto eu fosse mais sozinha. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Labirinto

Chego em casa e penso em percorrer todo um labirinto. São muitas as canções dos meus passos. A literatura me dita frases de efeito que saem prontas. Basta ouvir um poeta me dizer um punhado de palavras. Os livros me provocam isso. Um vômito sem sentido. Mas uma beleza que coleciono porque de alguma forma conversa comigo. Em casa eu penduraria quadros com as minhas frases. Penduraria nas paredes brancas meus próprios rabiscos. Caberia meu nome? Minha assinatura é a lembrança que existo, sou alguém, tenho nome.

O que escrevo componho entre o intelecto e o espírito, ainda sou eu com alguma consciência de mim mesma. O prazer de ser traz só silêncio, as palavras precisam de um desconforto para sair. São a busca de um estado que as cala. A busca permanece e elas nunca calam, nem eu mesma calo. Vejo que as palavras são em grande parte eu mesma.

A literatura é também uma religião aos que a vêem desta forma. Um caminho para iluminação, mas um caminho que nunca ninguém alcançou, onde as passagens importam mais que a chegada. O escritor teme se livrar dos desprazeres que o fazem explorar a linguagem. É isso! Uma busca da libertação através da linguagem. Jamais se chegará a algum lugar. Escreve é um consolo. Ler é um consolo. Vem o êxtase momentâneo. O paraíso se aproxima por frágeis instantes. Viver no paraíso é não ter palavras para contar.

Canto as canções do labirinto que eu sou. Sem saída.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Retiro com Prem Baba




Acabo de voltar de um retiro do silêncio com Prem Baba, no Spa Maria Bonita em Nova Friburgo, Rio de Janeiro. 

Uma experiência vivida em silêncio é difícil de ser explicada em palavras. Silenciar é ouvir (e ver) nossas questões internas. Falar é um vício de distração e falta de presença. Muito do que dizemos não sentimos e muito do que sentimos não dizemos. As palavras, em geral, estão privadas de expressar quem somos, por puro mal uso. Ficam reduzidas a automatismos. Sem alma as palavras estão mortas, com palavras mortas a vida fica repleta de sons vazios. Vazios que o silêncio preenche com alegria ou angústia, mas com verdades.
Prem Baba é um despertador de presença, um guia do turismo interior, ele conduz pelo trajeto que ele mesmo passou, além dele ser essa inspiração toda, que é sua própria existência: uma vida dedicada ao amor. 

Quem parar para ouvir o que ele diz, para ouvir seus silêncios, encontrará verdades muito profundas. Há uma maestria em tornar simples aquilo que é complexo. Isso pode vagamente ser interpretado como óbvio, mas um ouvido apurado perceberá que há uma sabedoria além desse óbvio, somente acessível aos mais sensíveis. Há um detalhamento das entranhas e sentimentos humanos que não se encontra nos livros e que independe dele ser um iluminado, ou um guru para você. A magia é que ele pode ser a qualquer um apenas um amigo, mas uma amizade verdadeira, que enxergará suas verdades sombrias, mas suas mais brilhantes virtudes e saberá dizê-las com precisão ou calá-las conforme seu merecimento. 

Eu digo por experiência própria, pelo que vivencio e vivenciei aprendendo com ele. As experiências são particulares, o que serve para mim não é necessariamente o caminho de todos, claro. Contudo, mesmo que não seja seu caminho algum benefício encontrará nesta sabedoria que ele propaga.
Eu costumava me sentir envergonhada sobre as interpretações das pessoas quando a gente expõe o que sente, entretanto vi que estamos tão carentes de VERDADES, de autoconhecimento, mesmo sendo tão conhecedores de tudo... Então, que eu possa espalhar o que aprendi porque não mereço me banhar sozinha nesse conhecimento tão rico e farto que tenho entrado em contato.

domingo, 2 de novembro de 2014

Rei

Fazenda, em 14/10/2012:

É você meu rei
Somente eu o sei,
Embora a tua majestade brilhe
Como duas esferas cintilantes
Sobre teus ombros. 

Você é meu rei 
Porque em ti encontro o ouro da minha vida
E a riqueza de cada manhã
Tenho ao teu lado o reino mais precioso
Que a história única e simples dos nossos dias

Sou, ao teu lado, uma rainha
E são teus lábios que coroam os meus com beijos noturnos, 
antes que eu durma

E antes que adormeçam teus olhos
Eles ainda iluminam nosso leito com tua sabedoria
(dos livros e da alma)
E sei que me sabes mais rainha quando durmo
E te sei ainda mais rei quando acordo e te vislumbro
Sou como quem acorda da realidade para mergulhar em um sonho profundo,
Que é você, meu amor. 

sábado, 1 de novembro de 2014

Iminência

Existe uma beleza na solidão que se instala quando estamos juntos.

É que ela está sempre na iminência de acabar. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Pessoa Humana

Existe um pleonasmo muito bem-vindo, que é quando dizemos "pessoa humana", como se a humanidade pudesse habitar duas vezes o mesmo lugar.

O Direito e a Vida

Vim prestigiar minha amiga Renata da Rocha, em sua palestra na PUC, ao lado da Profª Maria Garcia. Eu estudei Direito, mas isso foi em uma outra vida, quando eu esqueci de ser...

A palestra dela foi brilhante! Estou agora a refletir. O Direito existe por causa da humanidade, por causa da vida e é também uma forma de preservá-la, protegê-la, mas quando ele se distancia da vida para se tornar uma ciência abstrata ele se esvazia. É preciso gente, alma, pra devolver ao Direito a vida e para devolver o Direito à vida. 

Minha amiga Renata faz isso muito bem. O Direito de suas palavras é vivo. 

Vida

A coisa mais interessante do mundo é a vida. 
Quando é possível compreender a relação com a vida tudo pode ser interessante.

Mas o que é a vida?

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Quem me procura

Na minha adolescência eu tinha muitos amores platônicos e era muito tímida. Eu já amava escrever, que era o único lugar de refúgio para todo o sentimento não expressado que morava em mim. Meus poemas contavam meus amores não vividos, tudo aquilo não realizado na vida, emitido somente em palavra. Quando me perguntavam para quem eu os escrevia, nem eu mesma sabia, era para um "outro" sonhado, que eu sequer conhecia, alguém que eu estava à procura. Mas se eu o procurava imaginei que ele também estava à minha procura. Então escrevi esse poema:

QUEM ME PROCURA

É muita amargura
Porque pra mim o teu olhar tem tal fissura
Que meu maior medo é do teu pranto
Derramando-me lágrimas que gritam
Tanto quanto gritam os que choram,
Tanto quanto choram os que por ti tem tal encanto
Choram porque te olham e não te encontram
Choram pelo medo e pela dor de te amar
Choram como eu choro
A desejar cada segundo do teu tempo
Meu maior desejo?
É estar em teu mundo e me encher de encantamento. 
Porque teu beijo é meu momento de ilusão 
É que o traduz e cristaliza sentimento e emoção. 
Vale a pena te amar ou não?
Vale a pena te ter então?
Vale a pena te querer em vão?
A não ser que deixes de ser minha amargura e passes a ser minha esperança pura de um novo amanhã. 
Acredito que te amar é uma loucura sã,
Porque não encontro ternura em teu olhar
Ainda que seja uma realidade dura
Vou ter que deixar de te amar pra encontrar
Quem me procura. 

Assinatura

De repente passei a assinar seu sobrenome ao lado do meu. Um gesto simples mas que na palavra me fez ser sua. O nome do pai são as letras do sangue. O nome do marido é o verbo do amor habitando a persona da mulher escrita.

Eu me sou mais quando escrevo. E quando me escrevo com seu nome ao lado eu te sou. Ou sou como que tua. Como que sua. E seu nome é meu. 

O último nome da mulher é o que ela mais ama. O último homem é o que ela mais ama. Supera o pai. E neste instante ela deseja deste outro homem que ele possa ser o melhor pai para seus filhos. 

Foi natural, mas não sem significado que passei a assinar seu nome. 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Pais, filhos, governos e cidadãos

Acho que alguns governos poderiam ser vistos sob uma ótica psicanilítica. Alguns reduzem os cidadãos à crianças dependentes dos pais (governo) e estes cidadãos desejam ser eternamente crianças (dependentes), como se o governo fosse o único adulto competente, merecedor e responsável por tudo, por cuidar, dar comida, amor, escolaridade, etc. Esses povos jamais serão livres, ao meu ver, porque crescem em tamanho, mas por dentro são crianças desestruturadas e dependentes de uma estrutura externa. Se tornam incapazes de criar sua própria estrutura, que eqüivale a criar o seu próprio mundo e edificar o seu próprio sonho. Sonho? Se tornam incapazes de sonhar. 

Algumas medidas até devem ser tomadas, como um pai que alimenta uma criança que jamais conseguiria se alimentar sozinha. Mas se esse pai se vicia nesta dependência do filho e o impede de crescer e buscar alimento com suas próprias mãos o amor pelo filho se torna uma distorção de amor, esse pai passa a amar o poder que tem sobre o filho e a desejar que esse poder permaneça para sempre e que essa dependência jamais acabe. 

Princesa


Quando entendi bem o que é ser uma princesa
de uma casa, 
Que transita na cozinha e faz bem a mesa
Somente então fui coroada

Uma conjuntivite avermelha os olhos e adoça os dias, de molho em casa, em pazes com livros empoeirados esperando leitura. Reconcilio-me também com as panelas. Arroz com grãos e passas. De molho me ponho a pensar em molhos. Comemos. Vamos andar de mãos dadas pela Av. Paulista. Atraída por um produto específico daqueles que carinhosamente chamo de "hippies da Paulista", entre pulseiras, colares e brincos ele vendia uma coroa. Olhei de perto e percebi que tudo ali era um produto para coroar-se, quem comprasse. Ele foi logo dizendo, "um presente por um sorriso". Imediatamente sorri, pelo que ele disse, não pelo presente. O "hippie" se pôs a trabalhar com uma espécie de arame em cor de zinco. Enquanto isso comentou: "Falta água em São Paulo, não?" respondi que sim, claro, e ele me mostrou os inúmeros carros brilhantes atravessando a avenida naquele instante. Aprendi. Triste constatação. Em seguida ele me coroou com um anel em formato de coroa.

Na simplicidade daquela calçada, depois de uma aula de humanidade e consciência eu pude finalmente ser a princesa que sonhei na infância. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Sobre Rubem Alves

Tive grandes mestres que inundaram meu coração de amor, com tanta beleza evocada. Rubem Alves foi um deles. Suas palavras me trouxeram uma nova perspectiva sobre uma de minhas grandes paixões: a educação. Ele me conduziu com seus livros por seu pensamento de criança, como quem conduz um carrinho de rolimã, rápida e carinhosamente, sabendo que a alegria do brinquedo é um contato com o sagrado. Foi a primeira vez que compreendi que a literatura é sagrada, a poesia é sagrada e a criança é sagrada. Sonhei com ele uma escola única e deste sonho eu e tanta gente soube da existência da Escola da Ponte, em Portugal, onde jamais estive, mas que visitei com os pés que pisam os sonhos, em seu livro "A escola que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir". Há uns 10 anos li mais de 15 de seus livros. Ainda hoje suas palavras dançam em minha memória como pétalas de inigualável perfume... Uma vez em tantas que o assisti, em uma palestra, ele contou que um leitor chegou a ele e disse: "quem te deu permissão para entrar no meu coração?" E ele continuou dizendo que respondeu:"mas eu não entrei dentro do seu coração, eu entrei dentro do meu coração, e você estava lá!" Jamais esqueci disso, e por ser sua admiradora imaginei que eu também, como aquele leitor de Rubem, vivia em seu coração. Infelizmente não tive a oportunidade de confirmar com ele, mas agora que Rubem está internado no UTI, correndo risco de viver mais e mais, para sempre e eternamente, eu posso declarar minha certeza, não sei se vivo no coração dele, mas ele vive para sempre, muito vivo, no meu. 

(texto escrito em 17/07/2014, dias antes do falecimento dele)

Vida em poema

Meu pensamento às vezes acontece em poemas
São nas frases curtas dos versos
Que às vezes expresso meus eus

Eu teria como iluminação 
Objetivo de alma
Virar eu mesma um poema

Não quero que me escrevam em linhas ou palavras
Não isso
Mas uma vida toda sem elas
Que seja, quando olhada, uma poesia
Que rime repentinamente
Que soe rimas raras, claras, obscuras, densas
Uma poesia da junção de todos os meus dias, horas, segundos
Para rimar com meu próprio universo e próprio mundo,
Onde tão raramente me exponho
Mas por meio dela me ponho 
a ser
eu


Onde vivem os monstros

A conjuntivite me deu o presente.
E o tempo presente me devolveu a literatura. 
E a literatura devolveu minha alma. 
Roubada alma. 

Os monstros que invento são meus. 
Eu me visto deles. 
Eles se vestem de mim
Os monstros que invento tem meu nome e me assombram. 
Eu sonho com eles à noite. 
De dia eles usam minha pele para sair. 

Os monstros são sempre humanos
Agora percebido não os temo
São meus. 

Uma irracionalidade de um antes... 
Julgava os monstros uma outra coisa qualquer. 
Não existe outra coisa qualquer. 
Somente nós. 
.
.
.
Somente eu e todas as outras coisas. 
.
E todas as outras coisas em mim. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Cozinha

A cozinha foi um laboratório feminino por muito tempo. 
Lágrimas misturadas ao feijão. 
Submissão. Submissão. 
Mas, também riso, como tempero
Amor, café coado, 
Bolo de aniversário. 

Olha, filha, pra você quero outra vida. 
Aprende não a cozinhar,
Vá ser princesa. 

Mas no palácio dos anos futuros
Em que a aristocracia mora uma sobre a outra,
E que o castelo vizinho é repleto de cômodos-cubículos
Divide-se o transporte que economiza a escada
E quem não se vira na cozinha
Come miojo ou terceiriza a arte de fabricar delícias
Com grãos e ervas que boas mãos
transformam em cheirosa comida. 

Ah, que vida de princesa mais desnutrida de sentido!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Jornada da vida



A vida é uma jornada, um caminho de pedras ou flores, depende de como você olha e vê. 

Em período eleitoral, mas também na vida...


Se você deseja difamar alguém, baseado em fatos reais, você conseguirá. Se você deseja enaltecer alguém, baseado em fatos reais, você também conseguirá.

Se você deseja contar uma história, baseada em fatos reais, você conseguirá. Se desejar contar uma história completamente oposta, também baseada em fatos reais, você também conseguirá.

Depende de que lado você está, para onde e de onde você olha, o que quer ver e focar, o que valoriza e o que não olha. É por isso que todos tem razão (no que dizem), mas ao mesmo tempo ninguém tem razão (a capacidade de perceber racionalmente que os fatos e as pessoas são dúbios e incoerentes, que não se alcança uma verdade absoluta, que duas pessoas podem dizer verdades opostas sem estar mentindo e por aí vai...)


[texto inspirado na exímia fala do jornalista Ricardo Boechat ao final do debate com os presidenciáveis, ontem]