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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Sobre Rubem Alves

Tive grandes mestres que inundaram meu coração de amor, com tanta beleza evocada. Rubem Alves foi um deles. Suas palavras me trouxeram uma nova perspectiva sobre uma de minhas grandes paixões: a educação. Ele me conduziu com seus livros por seu pensamento de criança, como quem conduz um carrinho de rolimã, rápida e carinhosamente, sabendo que a alegria do brinquedo é um contato com o sagrado. Foi a primeira vez que compreendi que a literatura é sagrada, a poesia é sagrada e a criança é sagrada. Sonhei com ele uma escola única e deste sonho eu e tanta gente soube da existência da Escola da Ponte, em Portugal, onde jamais estive, mas que visitei com os pés que pisam os sonhos, em seu livro "A escola que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir". Há uns 10 anos li mais de 15 de seus livros. Ainda hoje suas palavras dançam em minha memória como pétalas de inigualável perfume... Uma vez em tantas que o assisti, em uma palestra, ele contou que um leitor chegou a ele e disse: "quem te deu permissão para entrar no meu coração?" E ele continuou dizendo que respondeu:"mas eu não entrei dentro do seu coração, eu entrei dentro do meu coração, e você estava lá!" Jamais esqueci disso, e por ser sua admiradora imaginei que eu também, como aquele leitor de Rubem, vivia em seu coração. Infelizmente não tive a oportunidade de confirmar com ele, mas agora que Rubem está internado no UTI, correndo risco de viver mais e mais, para sempre e eternamente, eu posso declarar minha certeza, não sei se vivo no coração dele, mas ele vive para sempre, muito vivo, no meu. 

(texto escrito em 17/07/2014, dias antes do falecimento dele)

domingo, 20 de julho de 2014

Carta a Rubem Alves

Voltou tudo, querido, tudo que sempre senti por você, tanta admiração, tanta gratidão, tanto respeito. Você foi um mestre que me fez sentir tanto... Iluminou tantos pedaços do meu coração. Você mudou a minha vida, você me permitiu encontrar meu sonho, você me trouxe coragem. E você nem me conhecia, né, Rubem? Talvez por isso o meu texto preferido que você escreveu é: "Uma árvore para Ladon Sheats". Esta história sobre um amigo distante que você jamais encontrou e mesmo assim compartilharam tanto. Mas nós nos encontramos. Eu o vi muitas vezes, assisti suas palestras e ouvi com muito silêncio tudo que disse em palavras faladas ou escritas e tudo, tudo, tudo reverberou em mim e agora reverbera novamente como se jamais tivesse deixado de ler as histórias que você contou. Quando finalmente tive coragem de abordar você eu o fiz da forma mais aconchegante para mim, escrevendo, como você. Enviei um e-mail, isso deve ter sido em 2003, por aí... Eu compus uma bela sinfonia com o máximo de beleza que me era natural pela inspiração que você me trazia e tinha certeza que teria uma resposta. E a resposta veio, mas tão sucinta diante do meu amor, que julguei não ter sido sua, poderia ser uma resposta automática... Em nosso próximo encontro eu timidamente o abordei, perguntei se você respondia os e-mails e sua resposta foi que lia, mas não conseguia responder a todos e te falei "não, na verdade enviei um e-mail para você e recebi resposta, eu só queria saber se foi você". Então você falou em um tom um tanto quanto aborrecido: "Ah, eu te respondo e você ainda vem me reclamar!" e riu. Fiquei sem graça e não falei mais nada, fiquei só te olhando dar autógrafos para uma fila imensa e sentindo a minha admiração e carência da sua atenção. Eu era mais uma leitora para você, Rubem, você era meu autor preferido... Então, depois de muitos dos seus livros, eu quis conhecer outros autores, muitos dos que você citava, muita poesia, filosofia... Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Nietzsche (seu filósofo preferido) Guimarães Rosa, Adélia Prado, Manoel de Barros, Pablo Neruda, Milan Kundera... E só agora percebo que nenhum, nunca, me tocou tanto como você. Você foi o que mais entrou no meu coração e, mesmo quando achei que já tivesse saído, quando já nem me lembrava mais, você estava lá...

Preciso contar que você esteve comigo nos momentos mais incríveis que vivi. Em 2004, quando saí pela primeira vez, com o grande amor de minha vida, eu trazia na mão dois de seus livros. Em 2011 quando me casei com ele, entre os textos mais lindos que poderíamos escolher para a nossa cerimônia, que aliás foi muito baseada em tudo que você escreveu sobre ritos e casamento, escolhi um texto seu. Ah, Rubem, veja quanto você perfumou a minha vida! O seu amor invadiu tudo, até o meu amor.

Como você fez com Ladon Sheats eu também preciso plantar uma árvore para você, uma árvore com seu nome, um ipê amarelo, diante de uma linda paisagem. Eu também tenho um lugar, com montanhas, lagos, muito verde, pássaros, cavalos e peixes. Como eu ainda não plantei uma árvore para o meu pai, vou plantar para ele também, vou colocá-los lado a lado, você vai gostar dele. Ambos estudaram teologia, filosofia e psicanálise, gostavam de jardins e sonhavam em voltar para as estrelas. Vou fazer isso, Rubem, por você, por ele, e por mim.

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Estava aqui vendo suas fotos, quando o conheci você já era velho, mas sempre o vi tão menino...
Eu te recebo e te ofereço todos os meus brinquedos, meus sonhos, flores, bolhas de sabão e poemas. O que mais você poderia querer? Uma leitora boba, que mal sabe o que dizer diante de você? Deixarei você a sós, na companhia do vento e de um ipê amarelo. Por favor, continue brincando nos jardins da minha alma, e esqueça que te assisto de longe, e que vivo porque você brinca.

Aline Ahmad