terça-feira, 25 de agosto de 2015

Sexualidade

(Texto lúcido de Wesley Aragão)

A origem da palavra sexo é seccionar, cortar. O que foi cortado ?

No Banquete, Platão fala sobre amor ; Diotima, sacerdotiza de Afrodite, vai ensinando os filósofos os segredos e mistérios do amor. Essa é uma concepção platônica da humanidade que originalmente era andrógina.

Segundo ela, os deuses resolveram neutralizar o poder e a felicidade desses seres que, depois de seccionados, começaram a ansiar muito um pelo outro. É Eros quem vem para reunir as partes separadas.

Sexo é religião – cada vez que se faz sexo está se religando. Em várias culturas diferentes, percebeu-se essa relação, o sexo era uma coisa sagrada.

No mito de Kali, na Índia e nas celebrações celtas cujas orgias celebravam o ato criativo, observa-se a sacralidade do sexo.

Na época romana o sexo foi desvinculado da religiosidade, porque, até a época dos gregos, beleza e divindade caminhavam juntas – o cheirar e o comer era belo. As orgias romanas eram uma avacalhação geral. Agostinho foi um dos que tentou resguardar a alma dessa dessacralização.

O movimento cristão vem tentar purificar essa degradação romana. Já na idade média, o sexo e tudo o que estava interligado a ele virou profano, diabólico. A mulher, assim como o prazer nesse patriarcado virou culpado, reprimido.

A religião virou renúncia e ascetismo, saída e condenação do mundo : a clausura ; tentação versus salvação e misoginia, horror da mulher.

Portanto o sexo que na antiguidade era sagrado, agora virou pecado.

A renascença veio abalar a mentalidade medieval. A relação homem/mulher e o casamento estavam ligados a propriedade e ciúmes.

Rudolf Steiner fala de diferenciação das almas :  na época grega a “alma do intelecto ”, na época medieval a “alma do sentimento”, e na época moderna, a “alma da consciência”. Foi Kant quem primeiro falou de auto consciência, esta é uma percepção interna recente, onde cada um é ligado à si próprio.

Steiner propõe que, para cada um ser si mesmo, devia-se partir para o individualismo ético em lugar do egoísmo – o judeu herege foi Jesus e o maior herege indú foi Buda.

O toque é o elemento básico da sensualidade. A hipersexualidade da época  atual é justamente por uma hiposensualidade, ou em outras palavras, uma cultura com muita falta de toque, tato.

A concepção evolutiva da antroposofia se distingue da ciência oficial que crê na descendência do animal ; em um sentido, quanto mais para traz na evolução, mais espiritual e não animal .

Para que serve o sexo ? Reprodução, prazer, afeto, espiritualidade .

Existe uma relação direta entre a insatisfação afetiva, de toque, e as formas de câncer, em mulheres ,mais comuns o da mama e colo de útero, e nos homens, de pulmão e próstata .

Individual é uma coisa que não se divide. Uma das maiores coisas esquisofrênicas é puxar o espiritual para um lado e o sensual para o outro.

A “alma da consciência” exige que façamos escolhas livres e harmônicas com o si mesmo – pressupõe auto conhecimento.

Nos antigos mistérios existia o processo de iniciação que começava pela Katarsis, seguia para a Katabasis ( encontro com o sósia ), e terminava com a Anabasis ( encontro com Deus ).

Quando se tem uma proposta espiritual na vida, a primeira coisa que se tem que perder é a contradição entre as coisas .

São apenas aspectos diferentes da vida.

As pessoas tem que ser o que elas são verdadeiramente. Não é a sexualidade que é sombria, é o ser humano que tem um aspecto sombrio que pode mais facilmente se expressar na sexualidade.

A humanidade ainda não sabe amar. Quanto mais humanos nos tornamos, mais capazes de amar nós somos.

sábado, 22 de agosto de 2015

Uma prática em CNV - Comunicação Não-Violenta

Estou há algum tempo buscando expressar o que aconteceu. 
Estou há algum tempo tentando conceber algo que sempre acontece, ou algo que poderia acontecer sempre, ou que acontece quando escolhemos que aconteça. 

Estive em um grupo de pessoas, durante um dia todo, e uma noite que o antecedeu, respeitando uma lógica que não respeitava a lógica comum, mas a convivência capaz de tornar comum um outro ser humano que a princípio seria incomum, diferente, e por isso um excluído de meu convívio. Ou por ser criança, ou por ter outra classe social, ou por ter uma formação diversa, ou por não ter formação alguma, ou por ter dinheiro demais, ou de menos, ou nenhum… A lógica do não-julgamento, da não-violência, da não-ignorância. 

Pausa. Neste momento procuro pela etimologia da palavra "ignorância". Encontro um dicionário em outro cômodo da casa. "Consto", como diria Dominic *, para dizer "constato", o quanto a linguagem e a forma me contagiam. Pois passo a escrever conforme as pessoas que leio, ou ouço. Escuto em minha mente uma outra voz, como se ele articulasse minhas palavras e respeito esse processo meu de reproduzir uma mensagem, que é minha, mas que escolhe a forma de uma outra pessoa por estar por demais embevecida, banhada, influenciada por ela. Vejo que alguns formatos de minha linguagem são misturas daquilo que ouvi e ouço do mundo, e não só de Dominic, e volto para a palavra "ignorância" cujo significado etimológico é "não saber, não conhecer". Ou seja, aquele a quem chamamos "você é um ignorante!", quando queremos dizer "você é um grosso" ou "grosseiro", estamos na verdade emitindo o que, muito provavelmente, é uma verdade. Isto é, talvez "você", este nosso interlocutor de que falamos, seja apenas alguém que não sabe, ou não conhece. Ainda não podemos julgar se a si mesmo, ao outro, ou ao mundo todo. Mas apenas alguém que não sabe ou conhece as mesmas coisas que nós e isso não deve diminuí-lo, ou desumanizá-lo, na mesma medida em que ele nos diminui ou desumaniza. Não só porque temos um conhecimento que ele não tem, mas porque ele também tem um conhecimento que não temos. Mesmo que ainda não tenha, ele mesmo, entrado em contato com este conhecimento, ele é a única ponte que temos para conhecê-lo, para adentrá-lo, como um explorador que busca um tesouro em uma gruta escura e que, `a medida que avança, pode perceber lampejos e brilhos das preciosidades que ainda não podem ser vistas. 

Comunicação não-violenta é desejar e buscar o tesouro "violentamente", `a todo custo. É se empenhar para que esse encontro seja possível, sobretudo com aqueles a quem consideramos ignorantes, grosseiros, quando na verdade são apenas uma outra pessoa, um ser, que sabe outras coisas, não as nossas mesmas coisas, e que por essa divergência parece muito diferente, mas guarda inumeráveis semelhanças com aquilo que somos mais profundamente. Comunicação não-violenta talvez seja a busca dessas semelhanças, uma exploração de algo que difere de nós na esperança do encontro daquilo que nos espelha. 

Então me recordo do trecho de uma canção de Caetano:
"Narciso acha feio o que não é espelho". 

Que possamos ver beleza, achar belo, o que não é espelho, o que é apenas humano. Que possamos chegar onde esta humanidade ainda sobrevive intacta como um tesouro intocado e valioso, repleto dos nossos próprios valores, os mesmos valores. 
…………………..
*Dominic Barter, o facilitador do workshop de CNV - Comunicação Não-Violenta, é inglês, mas fala fluentemente português, até com uma certa beleza e sofisticação de linguagem, talvez o neologismo faça parte disso. 😉

Como chegamos ao consumismo que nos consome?


Esse vídeo me toca porque representa a cultura ao nosso redor, aquilo com o que compactuo de forma inconsciente... É uma porta para reflexão e abertura de consciência a respeito desse consumismo louco. Você já se perguntou se isso está certo? Se faz mesmo bem para você? Tenho me perguntado cada vez mais e torço para que as respostas sejam encontradas antes que o planeta seja ainda mais destruído. 
Onde (e quando!) vamos parar?

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Louis Lavelle


Estou fascinada com o livro "O erro de Narciso" de Louis Lavelle, filósofo do qual nunca tinha ouvido falar. Sinto-me grata por ter me deparado com esta bela edição da Realizações Editora. 

"O próprio da sinceridade é obrigar-me a ser eu mesmo, isto é, tornar-me eu mesmo o que sou. Ela é uma busca da minha própria essência, que começa a se adulterar quando tomo do exterior os motivos que me fazem agir. Pois essa essência nunca é um objeto que contemplo, mas uma obra que realizo, o emprego de certos poderes que estão em mim e que murcham se deixo de exercê-los".

domingo, 2 de agosto de 2015

Amor



Amor é uma palavra rara. Não importa quantas vezes seja dita. A palavra se realiza no ato, não no verbo. É o ato de amar que faz a palavra amor ser provável, existível, "vivível mas não achável". Que é o mesmo que dizer "capaz de ser vivido, mas não de ser encontrado". Se alguém disser que encontrou o amor, foi porque o viveu, ou viu alguém que o vive e que, por isso, ama. 
Eu já vi. O amor puro. Não porque estava conscientemente em busca, porque mesmo a busca consciente não ajuda tanto,  mas há o propósito da alma, a alma está destinada a esse fim: o amor, e a minha foi arrebatada com este encontro. Eu olhei para o amor e ele tinha braços, pele, pernas,  olhos e sorriso de gente. E ele amava tudo ao seu redor, até eu mesma. Ser verdadeiramente amado é uma parte da libertação, é um passo na caminhada de amar, embora seja um trajeto misterioso e escuro a quase todos que vivem nesta Terra. 
O amor eleva a alma a estados superiores, é uma morte em vida. A morte do "eu", do "meu", do ego. E a possibilidade de visão do que é real. Como ouvi ontem "o mundo não é um shopping center" embora muitos pensem que seja só isso "não viemos aqui só para comprar, casar, ter filhos e morrer". Ou você acredita nisso também? Viemos aqui por diversão, então? O problema é que essas "diversões" são fantasias que não preenchem por muito tempo. Por isso queremos sempre mais e mais e mais... Com isso como fica o planeta? É possível conseguir atender tantos desejos? Falo debaixo, de todos meus desejos, e não de cima. Falo de dentro de todo meu ego, minha prisão ilusória. Falo apenas. Não busco o amor, basta que minha alma o busque. E uma sabedoria me diz que é meu destino vivê-lo, mesmo sem encontrá-lo. Enquanto isso reverencio quem já o vive. Quem pode ser o próprio amor. Reverencio com todo amor e devoção que me é possível. 
(Mas não deixa de ser curioso que a palavra esteja exposta justamente em frente e um shopping center)

sábado, 1 de agosto de 2015

Mudar o mundo. Que mundo?

Um comentário a um amigo desanimado com a "ignorância" de sua timeline no Facebook:
"Entendo completamente suas palavras e acredito que alguns desses amigos são os mesmos. Mas acredito ainda mais que esses amigos também somos nós, infelizmente. Uma parte nossa é assim já que são "nossos amigos" mesmo que só no Facebook. Acho que a revolução precisa acontecer na gente, dentro do coração e quando ela acontece de verdade ela há de pegar esses amigos e todos. Se eles ainda não compreendem, ou não foram 'pegos' é porque temos ainda muito a fazer e a mudar. Isso não devia nos desanimar. Se a nossa paixão é empreender, fazer o que amamos, influenciar pessoas, mudar o mundo, que possamos nos motivar porque existe muito mundo (e muita gente) a ser mudado e mudada. Mas precisamos começar por nós mesmos, um pouquinho a cada dia. E a mudança acontecerá. Sempre. 
'Que possamos ser a mudança que queremos ver no mundo'. "🌸😉

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Imagem e mil palavras

"Nós nos amamos muito e amamos a filha que criamos juntos. Temos uma moto e nossos corpos para apoiar a bicicleta que acabamos de comprar, com todo amor, para o aniversário de 10 anos da nossa herdeira. Em um dia distante, esperamos, ela herdará de nós não a bicicleta, tão pouco a moto, mas o amor, esse que nos incendeia de vontade de fazer o outro feliz. E a nossa alegria, não em comprar a bicicleta, nem em trazê-la, mas em vê-la aprender a andar, caindo, levantando e sorrindo com a conquista de superar sempre um pouco mais a si mesma".
(Tudo isso enxerguei quando fotografei esta cena)

terça-feira, 28 de julho de 2015

O herói de mil faces - Joseph Campbell

Somos bombardeados o tempo todo com tantas incríveis informações.
Resolvi há algum tempo compartilhar no blog não só que escrevo, mas também o que leio, o que vejo, o que me interpela e me provoca.
Artifício também de colecionadora. Diante de tantas belezas que a internet dispõe, aqui vão ficar as minhas escolhas. Uma curadoria do que vejo de mais interessante.

Como um exemplo este vídeo:




Infelizmente só encontrei sem legendas mas achei um incrível resumo sobre o estudo de Joseph Campbell, acerca da "Jornada do Herói"

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Amar em 4 letras

Um "eu te amo" calado. 
Amar é estar atento. É ter duas cores do olhar, uma que diz sem palavras, outra que cala e acolhe. 
Amar não são 4 letras, nem 4 atitudes. Amar são 4 silêncios, 4 intervalos de vida (em que cabem a vida toda), 4 suspiros, 4 pulsações cardíacas. Nesse espaço de apenas 4 tempos é possível amar e ser amado, para sempre. 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Três minutos

Escrito por um amigo muito lúcido acerca da diminuição do limite de velocidade nas Marginais em São Paulo:
"Três minutos. 
Estamos todos correndo demais. Correndo com tudo, como se fosse necessário sempre correr. Cada dia mais intolerantes com a espera, perdendo a paciência com facilidade, pensando pouco na importância de desacelerarmos esse ritmo inadequado que tomou conta de nossas vidas.
O grau de desconforto causado pela redução da velocidade nas marginais é um exemplo claro disso. 
Em qualquer trajeto que fizermos, em qualquer uma das pistas, levaremos, em média, 3 minutos a mais do que costumávamos, considerando-se um percurso de tráfego totalmente livre (coisa rara nas marginais). Se formos da ponte do Piqueri à Eusébio Matoso pela expressa, ou à Casa Verde pela local, em ambos os casos levaremos 3 minutos a mais do que levávamos antes.
Três minutos. Não mais do que isso. A não ser, claro, que as vias estejam entupidas, coisa que pouco depende de velocidade e, muito mais, da quantidade de veículos disputando um mesmo espaço. Aí, a espera vira aquela incógnita de sempre.
O que observo é que uma medida como essa, que "rouba" três preciosos minutos de nossa agitada vida, torna-se alvo de ataques aparentemente óbvios, dado o grau de insatisfação geral da nação com tudo e todos. "Esse governo, que já me mata com impostos, insegurança e falta de transporte público adequado, ainda quer restringir meu direito de chegar 3 minutos antes no meu destino?". 
Não era só pelos 20 centavos e, agora, certamente dirão que não é só pelos 3 minutos. Questiono, entretanto, se a queixa advém, verdadeiramente, de uma preocupação com o bem comum, defensável com argumentos lógicos, ou por mais uma reivindicação individualista e ranzinza de cidadãos que não admitem desacelerar um pouco e assumir que podem, sim, esperar 3 minutos pra chegar onde desejam caso queiram usufruir daquele espaço comum por onde outros cidadãos igualmente apressados também precisam passar, especialmente se a proposta é favorecer a segurança. 
Claro que, em nossa tradição paranoica, a medida é vista como uma manobra maquiavélica para arrecadação de multas. "Segurança? Que nada! Eles querem é dinheiro!". Confesso que o bom senso me faz pensar preferivelmente que não existe uma indústria das multas e, sim, uma indústria da desobediência, da pressa, da desatenção, do pezinho nervoso no acelerador que rende milhões de reais aos órgãos de trânsito. A regra é simples: obedeça à sinalização e você não será punido. 
Acredito que temos reivindicado muito e nos dedicado pouco, recusado a todo custo qualquer sacrifício ou esforço e ficado na condição de vítimas o tempo todo. Estamos tão irritados com tudo, que qualquer coisa que exija algum empenho do cidadão e coloque um novo limite é severamente rechaçado. Vide as ciclovias. Vide agora, essa redução de velocidade nas marginais. Vide os próximos capítulos dessa novela que é o progresso da mobilidade urbana em constante choque com os interesses individuais e setoriais.
Se você não concorda comigo, peço desculpas por tomar esses 3 minutos do seu tempo, que poderia ter sido melhor aproveitado fazendo um miojo. Apenas convido você a repensar seu ritmo de vida, as concessões que você aceita fazer ou o quão irritável fica o seu humor quando alguém lhe diz "não, você não pode ultrapassar este limite". Pense nisso. Sem pressa." (Cezar Siqueira)

Uma pérola de Dominic Barter

Um texto chocante que revê todos os padrões instituídos sobre o que somos, quem somos, o que não somos, quem não somos, o meu, o seu, o nosso. Algo profundo sobre ter e ser. Sobre reconhecer-se, observar-se, não perder a si mesmo, ter apenas si mesmo. E com isso tudo e todos. E ser também de tudo e de todos, além de si mesmo.


"Fui assaltado agora pouco, por três pivetes, que levaram minha bicicleta.

Zera. Começo de novo.
Alguns minutos atras parei a bicicleta e logo três pessoas, de uns 13 a 16 anos, estiveram tão perto de estar me apertando, mãos na bicicleta e todos falando juntos, ‘me dá, me dá, deixa eu, vou pegar tio….’
Noto como, de surpresa, a longa viagem de volta para a tranquilidade com o mundo chegou num ponto em que continuo segurando o que chamo ‘minha’ - ou seja, resisto - mas sem o estresse da ideia de posse. É como se meus músculos seguissem uma lógica bem enraizada, enquanto meu olhar já procura outra.
Esse estado criou um impasse, que nos providenciou uma pausa. E na pausa, podíamos conversar. Quatro cadeias musculares puxando em direções diferentes, formando um equilíbrio tenso mas estranhamente estável. Dentro do qual as palavras fariam a diferença.
Vi que ninguém procurou meu olhar direto. Levou um tempo e uma mudança de tom de voz minha, e uma leve desaceleração no ritmo das palavras, para gerar a curiosidade, e talvez a segurança, para a mais nova levantar sua cabeça para me encontrar. Todo o clima mudou naquele instante - todos nós perdemos 10% da tensão.
Nesta pausa dentro da pausa eu achei a primeira pergunta: “Mas não é que queriam passear um pouco com a bicicleta?” Tempo para considerar. Ocorreu-me que talvez o que queriam mesmo - neste caso, naquela hora - não teve antes tempo para ser visto, como não teve para mim. Estávamos para descobrir. Agora estávamos de 8 mãos na bicicleta, mãos firmes mas nenhuma puxando.
Outra pergunta, seguindo o silencio depois da primeira, que ouvi como uma disposição de considerar que talvez sim, passear seria legal, “Vocês podiam fazer uma volta aqui, cada um, e depois eu continuo.” Meu tom pretende um silencio “Que tal?” no final da frase. “Fazer uma volta e devolver nas minhas mãos”. Outro “que tal?” embutido na inflexão da voz.
Mais contato de olho. “Tio, tem água?”. Eu solto a bicicleta e sento para abrir meu bolso e dividimos os quatro a água. Noto as limões nas mãos, para fazer malabarismo no sinal/semáforo perto. Noto três colegas ou irmãos, trabalhando entre os carros. Noto o cuidado com que limpam o bico da garrafa, um cobrindo com a camisa e assim filtrando o que bebe. Algo nisso me toca. Gosto do que consigo ver como semelhante. Gosto ainda mais do que admiro.
Saem para dar uma volta, sem mais falas além do silencioso reconhecimento mútuo no passar da água e a volta da garrafa para mim. A ‘volta’ é bem maior do que imaginei. Logo nem vejo o ciclista, e quem corre junto. Leva vários minutos até a primeira troca, que acontece quase no limite do meu olhar. E ai, enquanto assisto, noto que continuo assistindo o que é 'minha', e que isso é tangível pela tensão no meu corpo. Desisto disso.
Agora assisto ainda, agora para aquilo para o qual sou responsável. Ideia com que compactuo, pois a bicicleta em questão não é só ‘minha’, mas também é. Porém ideia que - como esse texto em vários momentos - não sabe largar a divisão ‘eu’ e ‘eles’. E assisto igualmente o perigo, de vidas jovens tão perto de carros em velocidade, numa bicicleta desproporcionalmente grande e pesada.
Converso com quem estava antes entre os carros enquanto assistimos o malabarismo. Ele quer saber da bicicleta. Falo como não tenho pressa e, enquanto falo, noto que não tenho mesmo. Só não quero que travem a bicicleta, pois não terei como destravar depois e continuar.
E, lá atrás, cresce os pensamentos que não são minhas - nem o som da voz deles é minha - e que me falam que aqui tem perigo. Que é assim - com esse engano de que você está se relacionando - que as pessoas se encrencam. Anos de desconsiderar estes discursos, e da vantagem de ser ‘outro’, e agora não sou mais tão outro, e assim as vozes entram pela porta dessa identificação, e perturbam. E eu sinto o desapontamento sem fundo, uma caída sem fim, de ser sujeito a qualquer lógica que me separa do humano, do outro, do encontro, de mim, enfim do nós, querendo tao intensamente de acontecer a cada instante e sendo tão esmagadoramente rejeitado. E carrego esse desapontamento, viro e vou embora, sem mais falar.
Caminho para caminhar. Não estou tenso. Só sério. Tomo café ali perto. E noto que estou olhando com uma mansa curiosidade para este medo - que 'minha' é e não é - e que isso, esse aconchego íntimo, com as ideias que mais nos viciam, é o retorno ao contato. Então volto a eles, tendo voltado a mim, e - agora escuro - a pracinha do sinal está vazia de gente.
E lá no meio, está a bicicleta. Com aquilo que trava ela colocado espertamente para fingir que está segurado, mas solto.
Fui encontrar, agora pouco, com três pessoas, e dividimos uma bicicleta." (Dominic Barter)

A moral para Rudolf Steiner

"Se dermos às crianças preceitos definidos em forma conceitual, obrigando-as a chegar à moralidade na forma de ideias, surge a antipatia; o organismo interior do homem defende-se de preceitos morais abstratos ou mandamentos, ele se opõe a eles. Mas eu posso incentivar a criança a formar seus próprios sentimentos morais diretamente da vida, do sentir, do exemplo e, posteriormente, levá-la para o estágio catabólico: levá-la a formular princípios morais como um ser autônomo livre. Neste caso, eu estou ajudando-a em uma atividade que beneficia todo o seu ser. Assim, se eu der a uma criança preceitos morais faço dessa moralidade algo desagradável, repugnante, para ela e esse fato desempenha um papel importante na vida social moderna. Você não tem ideia do quanto os seres humanos têm sentido aversão a alguns dos mais belos, nobres e majestosos impulsos morais do homem, porque têm sido apresentados a eles na forma de preceitos, sob a forma de ideias intelectuais." (Rudolf Steiner)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Autoconhecimento na política


Segue trecho de um post que escrevi no facebook em 17 de julho de 2014:
"Queria te contar antes o meu sentimento com relação à política, que começa com o meu entendimento sobre mim mesma e sobre o mundo. Tudo que tenho estudado desde que conheci o Prem Baba é o autoconhecimento, é conhecer a mim mesma, sobretudo minha "sombra", máscaras, etc. A psicologia estuda muito isso, Jung usava o termo "sombra", Prem Baba costuma chamar de "eu inferior" que é aquela parte nossa que toma conta de nós quando por exemplo resolvemos comer um doce quando estamos de dieta, ou trairmos uma pessoa que amamos, ou quando nos sentimos superiores (ou inferiores) em relação ao outro, etc. Quando passei a me conhecer e a reconhecer a minha sombra, percebi, olhando para trás, o quanto eu era inconsciente sobre minhas próprias atitudes. Isso não é novo, Freud já nos trouxe esse conhecimento, de que somos guiados pelo nosso inconsciente, que é ele quem decide por nós. Eu diria que somos guiados por nosso ego, por uma vontade de sermos amados e reconhecidos, por muita vaidade e orgulho (e a maior parte das pessoas não tem consciência disso). Essas motivações para seguir uma carreira, ou desenvolver-se profissionalmente, (querendo ser famoso, amado, reconhecido) são motivações falsas, não são os verdadeiros motivos que nos trouxeram para este planeta. Acredito que temos uma missão e precisamos estar fortemente ligados a ela e ao serviço que queremos prestar nesta vida.

(…) Passei a acreditar que o autoconhecimento é fundamental para qualquer profissão, mas sobretudo para os líderes que vão nos governar (tenho para mim que estes são os segundos a mais precisarem se autoconhecer, os primeiros são os professores, pois formam todas as outras profissões, inclusive os líderes políticos e, mais que eles ainda, os pais, de todas as crianças, pois é na infância que "máscara" e "eu inferior" são forjados). Então eu estava desesperançosa com a política por sentir os políticos muito desconectados deles mesmos (que nada mais é que ser desconectado do Deus que existe em nós, mas que para ser revelado exige de nós passar por estas camadas negativas, reconhecê-las, enxergá-las), por sentir os políticos agindo no "eu inferior" querendo se autopromover, preocupados com a imagem de si mesmos, competitivos, com pouca consciência sobre o coletivo.
Então lá na terça-feira conhecemos algumas pessoas que tem trabalhado no sentido de renovar toda essa mancha de corrupção estagnada nos poderes governantes da sociedade e eles também acreditam que para isso é fundamental que se crie uma rede de autoconhecimento, que os líderes sejam preparados e apoiados por um grupo de pessoas e, assim, compromissados consigo mesmos e com uma agenda a ser seguida e cumprida no congresso. A ideia é tão bonita que me soa quase mágica. Na prática é o seguinte: um grupo de apaixonados por política tem se reunido há 4 anos mensalmente e tem estudado soluções para o nosso país. Um consultor avaliou que entre os 513 parlamentares do congresso apenas 80 são eficientes, portanto chegaram à conclusão de que se conseguissem eleger 10 candidatos comprometidos com a mesma agenda (que é um programa elaborado nesses anos pelo grupo com 10 questões principais ligadas à educação, segurança pública e um outro ponto que não me lembro agora) eles poderiam representar uma bancada de aliados, independentemente do partido, que trabalharia de forma coesa com o compromisso de cumprir aquela agenda e de procurar aliar outras pessoas. O processo de escolha desses candidatos, que serão apoiados financeiramente na campanha e também durante o mandato, se dá à partir de uma avaliação do que ele fez em mandatos anteriores, caso tenha, e também de um conhecimento mais profundo do candidato através de processos de autoconhecimento que ele passa/passará em grupo. Nesses processos a ideia é que esses 10 escolhidos criem fortes laços entre si, de mais amplo conhecimento humano um do outro e de si mesmos. Porque seja estejamos falando de líderes ou de liderados, estamos sempre falando de pessoas humanas e muitas vezes precisamos nos lembrar disso, porque é um conhecimento do qual nos distanciamos constantemente, principalmente em ambientes competitivos, como é a própria política. Somos tão humanos quanto o líder corrupto, quanto o cidadão omisso do exercício de sua própria cidadania, e quanto todos os papéis desempenhados em nossa sociedade, somos sempre igualmente imperfeitos e precisamos nos lembrar que quando falamos do outro, falamos de um igual, portanto falamos de nós mesmos.
Perceber que existem pessoas com esse tipo de consciência trabalhando para colocar essa luz nas lideranças políticas me deixou extremamente feliz, pois é uma esfera da sociedade tão carente quanto cada um de nós, porém com poderes muito maiores. Uma luz colocada ali pode iluminar muita gente e trazer esperança e claridade para imensuráveis distâncias, ao alcance de muitas pessoas. Que assim seja!!!"

terça-feira, 14 de julho de 2015

A pintura, de tão linda parece a natureza



Uma vez meu terapeuta me disse "Aline, você é uma pessoa muito mental, com a sua mente você nunca consegue ver a beleza. Você se depara com a beleza da natureza e o impacto é parecido com estar diante de uma tela, ou uma foto, você não sente a beleza viva, pois todas as sensações passam por sua mente". Aquilo fez todo sentido para mim. Lembro que fazíamos sessões de terapia usando o corpo e exercícios de respiração. No final da sessão eu sentia que meus pés, literalmente, tocavam mais o chão. Sentia também uma abertura na visão. Ele, então, costumava me apontar uma flor no centro da mesa, ou uma planta do jardim, para que eu aproveitasse aqueles instantes de presença para "ver" a beleza, ou sentir seu impacto diante de mim. Para isso é preciso silêncio, vazio... Na semana que ele me disse isso lembrei da expressão "tão bonito que parece uma pintura". Nós dizemos isso. Que a beleza natural parece uma pintura. Mas, não, dizer isso é loucura. São as pinturas belas que parecem a natureza real, mágica, viva, presente. Esta foto parece a natureza que vi no Parque Burle Marx neste final de semana. Parece, por isso é bela. A beleza pura não parece uma pintura, isso seria desmerecer a vida. Pois a arte está sempre em dívida. Viver é mais. O máximo da arte é nos permitir sentir isso. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A arte de preencher vazios com vícios


Ontem foi assim...

Vim visitar minha cunhada, minha sobrinha de um mês, ver esse céu e ser feliz❤️❤️❤️

De um lado o preenchimento da vida. De outro o vazio do distante. 

Resultado = Estou muito viciada no snap. Quem também está?

O meu é: 👻ahmadaline 

#tentandopreencherosvazios
#tentandoaproximarseparações
#tentandoeliminardistancias

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Beleza espontânea



Há uma certa beleza na natureza que se completa com um olhar atento. 
Há uma exuberância espontânea que se mostra mesmo na ausência do olhar. 
Estou me contradizendo por conta de um olhar para dentro. 
A natureza está sempre completa. 
Quem não está sou eu, por isso preciso olhar. 

Amor antigo

Sempre fico tentando adivinhar a idade do amor nas rugas da humanidade. Fico encantada olhando o amor viver sem tempo e preenchido de histórias. Tive que fotografar essa cena de cumplicidade e doçura raras. Ainda existe amor, pensam os olhos tocados por esse encontro

Escrevi há 91 semanas, sobre esta foto:
https://instagram.com/p/fLmYNjSRqx/

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Nossas escolhas

A indústria industrializa nossos desejos, nossos pensamentos, mas não corrompe o nosso coração. Uma geração consciente vem por aí questionando tudo, se posicionando e nos fazendo refletir.

Eu não fui uma criança que gostava de tudo cor-de-rosa, eu não queria ser criança, me sentia discriminada e subestimada pelos adultos, então queria usar cores adultas e achava o rosa muito infantil. Cresci. Hoje a capa do meu computador é rosa, minha garrafa d'água é rosa, meu pijama é rosa, minha lapiseira é rosa… Cheguei `a conclusão que a indústria me pegou, colocou na forma o meu gosto, o meu olhar, a minha feminilidade. Tudo ficou rosa. Não há nada de mal nisso, mas a consciência sobre essas escolhas inconscientes nos permite fazer melhores escolhas, mesmo que sejam rosa.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Um pouco sobre liderança

Ontem fui em um jantar na casa do chefe do meu marido. Sou tão admiradora dele e da esposa! Gente tão "gente como a gente", moram em uma casa aconchegante, perto da natureza e o que eu mais gosto é a simplicidade deles. 
Ele tem uma equipe incrível com pessoas muito competentes, acredito que são os melhores da América Latina (no mínimo), meu marido entre eles. E o chefe vem e diz: "O que me deixa mais feliz com esta equipe é que vocês são muito melhores que eu, mas muito melhores, tenho orgulho de vocês, porque é assim que tem que ser mesmo"
Ele fala da equipe com admiração verdadeira. Um líder assim faz toda a diferença. Ele diz que só precisa soltar a rédea, deixá-los livres... E assim aprendi um pouquinho sobre liderança ontem. Foto da mesa do jantar. 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Surpresa de amor

Todo dia é dia de grandes emoções no Colégio Nahim Ahmad. (Jamais subestime nossa capacidade de nos emocionar e emocionar os outros 😂). Rose é uma professora querida que completou 20 anos no colégio em fevereiro deste ano, quase este tempo todo trabalhando na alfabetização das crianças. Hoje, exatamente, ela completa 20 anos de casamento. Estávamos reunidas na escola (eu e algumas professoras) fazendo a nossa "Ciranda das Mulheres Sábias", um momento de relaxamento e autoconhecimento para todas nós, ao final, quando fazíamos nosso minuto de silêncio de olhos fechados, com a ajuda de algumas "anjinhos", o marido da Rose entrou com uma cesta de flores para ela, que por sensibilidade abriu os olhos antes de todas nós. Aproveitei para perguntar o que os manteve juntos por 20 anos e ele respondeu "o amor". Então quis saber o que ele mais gosta na Rose e ele disse "tudo". Foi muito especial e inspirador presenciar esse momento romântico do casal. Saímos do encontro todas preenchidas com este mesmo sentimento. 
Depois, conversando com a Rose por facebook, ela me disse que o colégio e o marido são dois casamentos de muito amor na vida dela. 
Para nós também, Rose, tenha certeza!
#SomosAhmad #AhmadApaixonadoPorVocê

Corrente do Bem

Felipe Ventura, esse rapaz de 24 anos é uma inspiração para os jovens do nosso Brasil. Sensibilizado com o Teleton, quando tinha apenas 8 anos, ele pediu aos pais para doar suas economias no banco da emissora que estava promovendo a campanha. Por uma série de coincidências a família foi confundida com uns amigos de Silvio Santos, que chegariam naquele horário, e foi parar nos bastidores da gravação. Quando esclareceram que o menino estava ali porque queria apenas doar o seu cofrinho de economias Hebe Camargo ouviu e quis levá-lo ao palco. Silvio Santos o entrevistou e fez um desafio "Felipe ano que vem você volta e me traz 2 cofrinhos?" No ano seguinte ele estava lá. Silvio pediu "ano que vem 3?" E assim acontece há 16 anos. No começo era uma contribuição de amigos e familiares apenas (esta contribuição continua e chegou a mais de 30 mil reais no ano passado), mas há 10 anos Felipe percebeu que poderia ir mais longe. Então ele passou a dedicar parte do seu tempo fazendo palestras pelo Brasil, deixando seus cofrinhos e arrecadando dinheiro para construção de hospitais e ajuda na manutenção das AACDs que existem no país. O projeto que ele começou com 14 anos se chama "Corrente do Bem", ano passado o valor arrecadado chegou a um milhão de reais. Por sorte, nossa aluna Ana Júlia, uma linda cadeirante, conheceu Felipe nos bastidores do Teleton e este ano o convidou para visitar o Colégio Nahim Ahmad e compartilhar a sua história com nossos alunos. Foi muito emocionante! 
Eu me sinto honrada por proporcionar aos nossos alunos a convivência com Ana Júlia (e também por proporcionar a ela a convivência conosco, afinal sabemos da dificuldade que essas crianças passam para serem aceitas em escolas e na sociedade como um todo) e também por eles terem como exemplo este jovem, uma chama de solidariedade capaz de trazer luz e fazer brilhar o que cada criança e adolescente tem de melhor. Entramos com tudo nesta campanha. Até semana que vem chegarão nossos cofres de arrecadação e até setembro queremos reunir nossos esforços para contribuir com o Teleton. 

CHE Guevara

Em uma venda de livros de um morador de rua, na calçada da Av. Paulista, ele nos mostrou este livro, no domingo passado. Conversamos tanto com ele que, quando eu disse que queria tirar uma foto da frase, ele me falou "é seu". Claro que não quis levar o livro de graça. Pagamos por ele. A frase linda é de #CheGuevara

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Quando estamos muito próximos

Quando estamos muito próximos, criamos fantasias, porque somos próximos, porque nos vemos, nos sentimos e sinto que você cabe em todas elas.

Quando não estamos próximos, criamos fantasias, porque estamos distantes, porque a distancia permite as fantasias e elas aumentam.

Quando estamos presentes, inteiros, completos, não criamos fantasias, vivemos, criamos a nossa história, sem expectativa do que poderia ser ou do que eu pensamos que seria, simplesmente com o que é. Você é. Eu sou. Somos. Juntos, presentes, criadores da nossa realidade. Então a realidade fica sendo nosso sonho. E o nosso sonho, que é viver essa doce realidade, a gente não sonha mais: vive.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O olhar da árvore



Ela estava tão sozinha diante desta linda vista que resolvemos oferecer nossa companhia e ela, aos nossos olhos, deixou a vista mais linda...

sábado, 23 de maio de 2015

Nascimento da vida e consciência de viver

 Ontem eu vivi uma das maiores emoções de toda a minha vida. Eu agradeço muito por fazer parte desta família que me permitiu entrar em contato com esse momento tão mágico, tão verdadeiro, que acontece todos os dias, mas que não nos damos conta: viver! Porque estar diante de um nascimento renova todos os nossos conceitos sobre o milagre de viver. Alguém nascer faz respirar em nós a nossa própria vida e vibrar na pele o respeito e amor por cada vida deste mundo, por cada pessoa que nasceu e vive, e por todas que viveram esta experiência [viver] e não estão mais aqui. Tive um vislumbre de consciência como se estivéssemos a maior parte do tempo dormindo, sem notar a riqueza e o milagre que é a vida. Recebi um sopro forte de "verdade" vindo de dentro do vidro, de uma criança absorvendo seu primeiro sopro e de todos em volta, cada um à sua maneira, sendo impactados por isso. 

A irmã do meu marido, Marília, deu à luz a sua primeira filha, minha segunda sobrinha. Ela teve todo o cuidado para que este momento fosse reservado e vivido intensamente por ela, seu marido, a equipe médica (que incluía sua prima Daniela e meu marido Paulo), ela estava um pouco avessa a expor este episódio a um grupo de pessoas assistindo ao vivo por um vidro, soava um pouco como uma "espetacularização" do nascimento, creio eu. Eu pensava da mesma forma, achava esquisito expor um momento tão íntimo. Mas da sala ao lado, onde aguardávamos o nascimento, recebemos a mensagem de que ela tinha liberado o vidro. Flora tinha acabado de nascer, de fora da sala vi aquela pequena criança ainda absorver suas primeiras frações de ar, todo seu corpo movimentar-se com este enorme desafio vivido pela primeira vez, vi meu marido emocionado chorando, tanto quanto eu, presenciando o "tornar-se mãe" de sua irmã mais nova. Vi os recém-pais tranquilos e tocados e a médica e prima segurando todas as pontas para não chorar junto com a família inteira. Do lado de fora os quatro avós não sabiam se riam, pulavam, choravam e faziam um pouco de tudo isso para verem um pouco mais, o que nem mesmo os olhos acreditavam serem capazes de ver. Os sentidos desacreditam que a vida existe. O coração pulsa no peito para provar que é verdade. 
Eu me senti um pouco mais viva, um pouco mais "pessoa", um pouco mais"gente" do que costumo ser, um pouco mais humana do que minhas distrações permitem...

Enquanto eu chorava e tirava fotos, nem sei como, a cortina se fechou. Todos saíram. Precisei de alguns longos minutos sozinha para chorar mais e sentir mais a emoção que eu deveria sentir em cada instante da vida. Fui tomada. 
Silenciei com os olhos fechados para estender, o máximo que pude, aquela sensação de presença e consciência que Deus me presenteou sentir. Fui arrebatada!
É exatamente a sensação que busco através da meditação: sentir-me viva, plena, completa, unida a tudo e a todos, mesmo aos que parecem dormir... 
A sensação de uma compreensão maior que demora a chegar: "Como não chorei assim antes? Como não vivo assim emocionada? Eu deveria me sentir assim o tempo todo. Então é isso que é estar vivo!"
E, sinceramente, como não me sinto assim o tempo todo, não é sempre que estou completamente viva e desperta, não é sempre. Mas agradeço por cada instante em que isso acontece!

Flora acabou de nascer e já começou a nos ensinar. ❤️

(Na foto: de perfil, meu marido Paulo e, no centro, a prima dele, e da mãe, vendo toda a família no vidro e sendo com maestria a médica responsável pelo parto. Mágico!)

Uma lição de vida (e amor!) no elevador

Em 23 de fevereiro de 2015:

Depois de um dia longo de tristeza com a perda de uma amiga querida, de muitos abraços em seus irmãos tão queridos quanto, da tentativa de dar algum consolo a sua mãe, de uma visita a minha mãe, eu cheguei na garagem de casa exausta. Do elevador saem um casal de senhores distintos, alegres, bonitos. Eles sorriem para mim e meu marido e a alegria deles nos invade. Entramos no elevador, ele segura a porta e ela pergunta se moramos no prédio. Dizemos que há 2 anos. Ela explica que nunca nos viu porque não usa muito o elevador pois mora no primeiro andar e emenda a pergunta: vocês estão casados há quanto tempo? Assim que respondemos o senhor nos diz: "estamos casados há 55 anos". 
Eu amo casais que estão juntos há bastante tempo, eles me trazem esperança e fé no amor, sempre que posso eu abordo e pergunto há quanto tempo estão juntos e em seguida lanço um "como faz?", adoro conversar com essas pessoas e ouvir como elas me respondem, dessa vez ele me disse: "Como faz? Eu acordo todos os dias, olho para ela, dou um beijo na boca e digo 'eu te amo', isso há 55 anos, todos os dias", ela ouvia sorrindo de orelha a orelha e os dois aparentavam muito mais jovens do que são. Aquela energia contagiou a gente de tal forma que eu abracei meu marido e desejei que possamos construir um relacionamento assim, verdadeiro, presente, amoroso, que seja um amor que possa se espalhar pelas pessoas, inspirar os mais jovens e nos ensinar a ser, cada vez mais, quem somos.

domingo, 17 de maio de 2015

Festa Infantil




Papai & mamãe da Amora, esse aniversário foi muito fofo!

Por muito tempo as famílias se acostumaram a fazer aniversários infantis em buffets com super produções que atendem mais a necessidade dos pais de se autoafirmarem do que a delicadeza da infância de ser só si mesma, com acolhimento e amor. As crianças precisam do lúdico, da imaginação, da criação para crescerem saudáveis e conectadas. Uma festa onde tudo está planejado (por adultos) e não há espaço para esta "criação", para a invenção da brincadeira como experimentação do mundo, não é uma festa infantil, pois a "brincadeira" mesmo, foi feita pelos adultos. Sobrou para a criança copiar, repetir, seguir o planejado. Assim agem os "monitores" dos buffets, propondo atividades o tempo todo para entreter os pequenos e despreocupar os pais. 

Hoje, na festinha de 2 anos da minha sobrinha, fiquei feliz em ver a "produção" amorosa dos pais, que receberam os convidados na casa dos avós. Conforme a festa foi enchendo de gente e crianças, Amora, minha sobrinha, diante do "agito" pegava a mão de seu amiguinho querido (no caso, Paulo, meu marido) e pedia: "vamos para a cabana". A cabana ficava do lado de fora da casa, em seu espaço aberto ela podia olhar para cima e ver o céu, andar em seu cavalinho e atravessar montanhas e florestas sem sair do lugar. 

Que possamos permitir à criança o sonho, a pureza de sonhar, antes de realizar o que ela jamais sonhou e que pode impedir que o sonho exista. 

sábado, 16 de maio de 2015

Livros e livrarias



Eu já contei uma vez que um dos passeios familiares que fazíamos muito na minha infância e adolescência eram idas ao shopping. Meu pai tinha muita paciência com suas 4 mulheres (minha mãe, eu e minhas duas irmãs) ele adorava nos esperar na livraria, conforme cada uma ia acabando o que queria fazer a livraria era nosso ponto de encontro para esticarmos em um jantar ou sorvete. Era comum que cada um de nós escolhesse um livro, meu pai lia às vezes mais de um por semana e sempre nos dizia que com livro não se faz economia. Até hoje acho tão gostoso visitar as livrarias no final das compras (ou durante, ou antes). Sempre pego vários para olhar e procuro comprar apenas um por vez, nem sempre consigo. Hoje comprei esse primeiro "Como ficar sozinho", uma indicação do Léo Fraiman, o autor das apostilas de autoconhecimento e projeto de vida que usamos no Colégio Nahim Ahmad. O segundo se chama "O brilho do bronze", do historiador Boris Fausto, que vai ser um dos convidados da Flip deste ano, a festa literária de Paraty.