quinta-feira, 2 de agosto de 2018
13a CARTA PARA MINHA FILHA
domingo, 29 de julho de 2018
12a CARTA PARA MINHA FILHA
12ª CARTA PARA MINHA FILHA
De que lugar do universo vem essa força, esse Ser que já me habita com suas vontades próprias e expressões? Parte de você filha, parece ter vindo de dentro de mim e de dentro do seu pai, assim demos origem a sua carne, ossos, sangue, sua matéria, o corpo com que viverá a aventura da sua vida no planeta Terra. Mas há também sua parte sagrada e etérea, sua alma sublime e potente, a música da sua existência, a essência do seu Ser. Acredito que não vem de mim, nem para mim, mas para o mundo. Para mim somente na medida que sou parte deste mundo, e que agora o represento, na esfera do meu útero: o mundo todo pra você. Sinto-a navegar nas águas do meu mar e do meu amar. Você ainda passará pela minha terra, um portal que dará você à luz.
Por muitas vezes refleti sobre esse termo “dar à luz”. O parto é a primeira dissociação de nossos corpos em que sabiamente a nossa linguagem nos indica que eu a estou dando, mais que a recebendo.
Preciso sempre me lembrar!
E quem te recebe é a Luz. Provavelmente esta, sim, a de onde realmente você veio.
Seja sempre bem-vinda, filha, ao lar iluminado que te deu origem, de onde se preencheram de alma todos os seres, e todas as coisas belas e puras!
Bem-vinda!
#cartasparaminhafilha
Foto: @sitah_photoart
sábado, 21 de julho de 2018
11a Carta para minha filha
Filha, ontem estava lendo sobre reconciliação com o nosso passado. Você ainda nem nasceu e sinto como se já criássemos juntas registros na sua vida. Meus sentimentos emitindo impressões nos seus. Minha vida tocando a sua. A sua tocando a minha. Estamos tão nuas uma para outra, tão próximas como jamais estaremos novamente, imagino. Sabemos uma da outra como a nós mesmas e desde sua chegada em meu ventre estamos criando um passado único. Há meses partilhamos os mesmos registros, as mesmas emoções, o mesmo alimento, o mesmo corpo. "É preciso se reconciliar com o passado", li ontem. Sim o passado anterior a você recobre meu presente com as marcas que ficaram. Revejo sobretudo minha mãe, o que ela foi para mim, o que ela é para mim, o que eu sou. Quanto dela ficou no que sou, quanto preciso me reconciliar com ela e com o que fomos. Observo que as mães desconhecem o olhar dos filhos para elas. As mães tem sua própria perspectiva amorosa de como criaram os filhos e se dedicaram a eles com o máximo que puderam oferecer. As mães são generosas, o olhar profundo para elas não é generoso, é humano. E é preciso esse olhar humano para alcançar a mãe dentro de nós, a que gerou e soprou a vida em nós. É preciso passar pela ausência da mãe, pelas imperfeições da mãe, por sua humanidade, para chegarmos a sacralidade da grande mãe: a natureza, a terra, o mar, grandiosos símbolos acolhedores da nossa vida, que nos dão o que comer, onde pisar, onde nos levar.. A mãe é a origem, o chão. Sem a mãe simbólica e única que criamos em terrenos supraconscientes do nosso Ser, não temos apoio para os pés, para caminhar no mundo, nem passagem para adentrá-lo, nem vida que nos alimente a alma. Quando falta a mãe precisamos criá-la recolhendo em nossas próprias raízes os restos de nós mesmos.
Vou falhar filha, vou me culpar pelas falhas. Essa tem sido a cruz das mães do meu tempo, as que observam mais e que se cobram mais. Com os olhos mais vivos essas mães, nas quais me incluo, reconhecem imediatamente as marcas que estão deixando, tatuagens na pele sensível dos filhos. Quanto mais aprofundamos o olhar para nossas mães, fica mais claro o olhar para nós mesmos. Também as descobrimos em nós, decodificamos as repetições, boas ou más. Somos aquela mãe também. E a vida competente na capacidade de nos ensinar, nos presenteia com o perdão. Quando erramos ficamos mais doces para perdoar quem julgávamos ter errado com a gente. Quando compreendemos nossas pequenezas, nos abrimos para aceitar que todos podem ser pequenos também, inclusive nossas mães. Quanto de humildade recebo me tornando mãe! Não sou perfeita, nem posso mais sonhar ser. Nem sonhar que poderiam ser melhores comigo. Como me ensinariam tudo que tenho aprendido? A frase mágica que sempre me liberta das lamentações: "Vivemos exatamente o que precisamos viver para aprender exatamente o que viemos aprender". Chega de lamentar como poderia ter sido, como gostaríamos que fosse! Esta vida, tal como é, é a única forma possível de aprendermos exatamente o que viemos aprender. Controlamos nossas escolhas, mas não controlamos o que nos acontece quando escolhemos. E, ao mesmo tempo, podemos controlar o que faremos diante do que acontece…
Outra frase mágica, filha. Mágica porque nos tira da ignorância, da ilusão, com poucas palavras. "Não é o que nos acontece que nos marca, mas o que fazemos com o que nos acontece". Todo abismo pode representar uma queda, mas se formos pássaros podemos voar. Atravessar abismos com as asas dos sonhos que sustentam nossa realidade. Somos esse vôo pela vida. Um dia voamos, livres do passado. Meu sonho é que eu possa viver intensamente tudo com você, para que não me lamente de nada quando você voar de mim, de nós, de todas nossas memórias, para o céu do seu existir sem limites. Sem os meus limites. Sem os nossos limites. Que você seja livre, filha, LIVRE! Que nenhuma corrente possa impedir seu vôo. Nem as suas próprias. Que você aprenda a se soltar.
É preciso se reconciliar com o passado, filha!
quinta-feira, 19 de julho de 2018
10ª CARTA PARA MINHA FILHA
domingo, 15 de julho de 2018
O portal da mãe
Cada criança que chega traz a sua luz para iluminar o mundo. A mãe é o portal que entremeia os mundos. É como o nascer e por do sol no limiar do dia e da noite. Pela passagem pelo corpo (e alma) da mãe — e de forma muito mais sutil, do pai também — chegamos ao planeta imantados e somos “animados”, no sentido de preenchidos de nossa própria alma, conforme recebemos o sopro do amor, do reconhecimento e da atenção dos que estão ao nosso redor. Como soprar a vida em um bebê sem estarmos nós mesmos preenchidos da nossa alma?
Antes de ser esse portal eu precisei buscar a mim mesma. E somente no momento último, quando a energia de uma criança pousou no meu útero, foi que eu realmente me senti preenchida. Como se concebê-la e gestá-la fosse o artifício que faltava para tornar-me eu. Ela também tem me soprado a vida, preenchido meu corpo e me permitido ser sagrada.
Foto: @sitah_photoart
O portal da mãe
Cada criança que chega traz a sua luz para iluminar o mundo. A mãe é o portal que entremeia os mundos. É como o nascer e por do sol no limiar do dia e da noite. Pela passagem pelo corpo (e alma) da mãe — e de forma muito mais sutil, do pai também — chegamos ao planeta imantados e somos “animados”, no sentido de preenchidos de nossa própria alma, conforme recebemos o sopro do amor, do reconhecimento e da atenção dos que estão ao nosso redor. Como soprar a vida em um bebê sem estarmos nós mesmos preenchidos da nossa alma?
Antes de ser esse portal eu precisei buscar a mim mesma. E somente no momento último, quando a energia de uma criança pousou no meu útero, foi que eu realmente me senti preenchida. Como se concebê-la e gestá-la fosse o artifício que faltava para tornar-me eu. Ela também tem me soprado a vida, preenchido meu corpo e me permitido ser sagrada.
Foto: @sitah_photoart
sábado, 14 de julho de 2018
9a CARTA PARA MINHA FILHA
9a CARTA PARA MINHA FILHA
Meu amor, os meses de gravidez são longos para a sua espera mas curtos para que eu consiga preencher com tudo que gostaria. Eu me sinto ligada à você. A sua presença também me preenche de mim, da vontade de me presentear sendo mulher e viva, sendo encantada e bela. Encantada por esta outra vida impregnada no meu corpo e na minha alma. Só mesmo o encanto da matéria concebe a mágica deste mistério em que um outro corpo é gestado no interior do meu. O fenômeno se repete em toda parte e ainda deslumbra. É como a natureza, o sol nasce e se põe, as sementes se tornam árvores, os animais geram filhotes, a poeira na ostra converte-se em pérola, e você, fruto de um profundo amor, se tornará uma mulher! Minha filha!
Eu não tenho mais buscado por seu nome, nossa relação está selada pelo encontro da mãe que sou para você, e da filha que você é para mim. Sinto que os outros vão te chamar pelo lindo nome que surgir dos seus olhos e do seu respirar. De alguma forma espero saber decifrar sua linguagem e em seu lugar pronunciar sua palavra-identidade. Mas enquanto tantos o usarão, você continuará sendo para mim: filha, minha filha. Ainda que jamais venha a me pertencer, mas “minha” como Saramago escreveu, no “Conto da Ilha Desconhecida”: por ser amada. Afinal amar deve ser a melhor forma de ter, e ter deve ser a pior forma de amar. Não pretendo te ter, mas você será minha pelo amor que nos liga uma a outra. E eu sua, sua mãe. Para sempre!
O encanto você me trouxe e a beleza, pela qual me sinto penetrada nesse estado gestante, foi registrada em um ensaio da artista e fotógrafa @sitah_photoart
Veja também: @sitah_fineart
Assim me presenteei, filha, repleta de você e de mim!💜🌷💜
terça-feira, 3 de julho de 2018
8ª CARTA PARA MINHA FILHA
sábado, 23 de junho de 2018
7a carta para minha filha
Você vivia pequenininha escondida na minha barriga que demorou a ficar arredondada e vistosa. Nem percebiam que eu estava grávida de uma luz tão brilhante como a que você é e que me ilumina por dentro. Eu procurava no espelho todos os dias e parecia que jamais o seu tamanho teria as proporções que os olhos das pessoas poderiam captar. Mas, de repente, de uma semana para outra, como de um dia para outro, não sei ao certo quando, a minha barriga foi crescendo de tal forma, que você ficou evidente. O porteiro que eu sempre comprimento mas nunca tinha falado sobre você se manifestou: “Pra quando?”
A recepcionista da academia (que me vê praticamente dia sim, dia não) me falou: “Nossa! Como está grande!” E o seu pai, filha, passou a conversar, cada vez mais, diretamente com você. Diretamente e diariamente. É a cena mais linda do meu dia. E você responde se movimentando. Eu também adoro a voz dele. Parece que nosso gosto é parecido, filha!
Para que saiba como está sendo tudo para mim: tenho pensado muito no nosso encontro aqui fora. No parto. Na equipe médica que vai te nos assistir e cuidar de mim, nos exames e consultas que ainda faltam e nas coisas que eu gostaria de fazer mas que não sei se acontecerão em tempo... Eu queria um dia de bênçãos, com os amigos próximos, para criarmos uma rede de pessoas para te receber. Um núcleo amoroso e terno. 🙏🏻💜 Eu queria encomendar lembrancinhas para dar às pessoas que amo e que quero que estejam por perto a partir do seu nascimento. Queria já ter definido seu pediatra (marquei uma consulta), a minha doula (está quase!) e a decoração do seu quarto. Ao mesmo tempo que sinto que as coisas práticas estão atrasadas, o meu coração não está distraído com tantas tarefas e está tomado do perfume inebriante da sua alma. É como se você não se importasse com nada disso... É como se você me perdoasse o desleixo ou descuido com a matéria e compreendesse a minha essência etérea, um pouco (ou muito!) aérea, que está com você o tempo todo. Sinto que cuido de nós em um outro nível, invisível e intocável pelos outros, um mundo imaginário e vivo, de candura e poesia. Lá caminhamos agarradas e acolhidas, eu por você e você por mim. Ninguém nos vê, mas nos sentimos assim, ainda um pouco misturadas e parte uma da outra. Pelo menos até você nascer!
Não sei quantos anos levaremos para ser duas, depois de tão intensamente sermos uma 💜
(23/06/2018, 6:19 AM)
domingo, 10 de junho de 2018
Quem não quer ser amado?
#30semanas
O que estou sentindo?
Alegria, com a gravidez. Sensibilidade, com o mundo.
Continuo querendo ser gentil. Mas continuo querendo gentileza também.
Continuo querendo oferecer amor ao mundo, mas para dar precisamos ter. Às vezes estamos frágeis, já se sentiram assim? Às vezes não temos para dar e a solução é se recolher e se preencher do amor do nosso próprio coração. No fundo ainda quero mais ser amada do que amar. Quem não quer ser amado?
Somos condicionados a acreditar que para sermos amados temos que fazer isso ou aquilo, ser de um jeito ou de outro (cada um inventa suas regras e as toma como verdades). Às vezes até alcançamos algum grau de admiração. Mas essa não vale... Não preenche. Porque foi preciso muito sacrifício para conquistá-la. Não foi espontâneo. Então é como se não nos tivessem amado pela nossa verdade. Se ficarmos relaxados sendo nós mesmos, seremos amados? Ou ser amado requer um esforço nosso? Se decepcionarmos, seremos perdoados?
Não sou perfeita. Sei que a maternidade vai me mostrar isso ainda mais, como também é provável que vou me cobrar ainda mais... Eu tenho muitos defeitos e acho mais saudável reconhecê-los que apontar os defeitos dos outros. Só assim sou capaz de aprender.
Já falhei como amiga, como filha, como sobrinha, como chefe, como irmã... As pessoas criam expectativas sobre nós, sobre como devíamos ser ou fazer. Também fazemos isso com os outros.
Sem nos comunicar fica difícil esclarecer qual a expectativa que estamos ou não atendendo. Isso se chama feedback.
Como falei no início, estou grávida, sensível, procurando me resguardar e resguardar a minha filha. Para completar fui diagnosticada com uma pneumonia benigna, um vírus (metapneumovirus) que às vezes me abate (ou será um abatimento emocional? Ou natural da gravidez?) Tudo isso para que você leve em consideração meu estado e também pontue o seu. Pois é a partir do nosso estado que nascem nossos pensamentos, palavras, sentimentos e ações. E, mais importante, peço que me passe abertamente por aqui ou no privado o seu feedback sobre mim, me apontando se decepcionei você (já peço desculpas antecipadas) e como posso ser melhor que sou🙏🏻💕
(Escrito em 4/6/2018)
6a Carta para minha filha - Vim neste corpo
CARTA PARA MINHA FILHA
Vim neste corpo conhecer sua alma e forjar o seu.
Vim desconhecendo esse destino escrito com a mão de Deus.
Vim de desertos, tecelagens, estaleiros, gerações de antigas mulheres
Vim ser sua mãe! A que costura seus ossos, sangue e carne, e tece o seu pensamento com o que sinto.
Vim ser sua morada quente, redoma viva de água transparente.
Vim caminhando sem saber, constituindo o meu próprio ser para alcançar a dignidade de receber você.
Somente quando estive minimamente em mim é que pude ser preenchida por sua vida.
Há meses que a alimento e a sonho. Que sinto seu mover e me emociono.
Há meses que sou habitada por uma outra luz que mal posso conter.
Recebo o amor do mundo às gestantes, como se estivéssemos grávidas de um sonho comum a todos: o novo que virá!
Você é este novo que não me encerra.
Sou o portal de tudo que é efêmero para você.
E você o meu portal para tudo que é eterno na matéria.
Hoje você vive em mim. Amanhã eu que viverei em ti.
(Aline Ahmad)
9/6/2018
sábado, 2 de junho de 2018
9 anos com você, Paulo!
sábado, 26 de maio de 2018
5ª carta para minha filha
domingo, 20 de maio de 2018
3ª carta para minha filha
4ª carta para minha filha
domingo, 13 de maio de 2018
2ª carta para minha filha
Korczak
Sobre presença e comunicação nos relacionamentos
sábado, 28 de abril de 2018
1ª Carta para minha filha
Filha, estou adiando escrever para você. Talvez porque agora você não vá ler, mas poderá sentir dentro de mim o que está acontecendo e o que temos vivido juntas. A sua mãe desde muito pequena sonhou em ser escritora. Ela até já publicou um livro inspirada na história de como conheceu seu pai. (Acabo de perceber que eu disse “a sua mãe”, ao invés de “eu”, talvez ainda esteja me familiarizando com essa nova persona que é sua mãe, no fundo, no fundo, somos almas companheiras vivendo esses papéis nesta vida. Eu sinto profundamente que você é uma alma que me acompanha. Nós nos escolhemos em algum tempo e espaço em que tempo e espaço não existiam. E já é uma honra para mim ser sua mãe!)
Como estava dizendo, sobre minha vontade de ser escritora, de não apenas escrever, mas de ser lida, isso faz com que eu queria compartilhar com as pessoas o que eu vivo e o que eu sinto. Hoje temos a oportunidade de fazer isso através das redes sociais. Toda vez que escrevo sobre mim e você muitas pessoas lêem e se emocionam, acredito que consigo conectar nelas não o meu amor por você, mas algum amor que exista nelas. Na verdade o amor deve ser um só. Então são palavras de amor que despertam o amor, filha. Você já deve sentir.
Esta semana, na noite de 23/4, seu pai e eu nos deitamos para dormir mas antes de fechar os olhos ou de ler um pouquinho (como costumamos fazer) o papai veio conversar com você colocando o rosto bem pertinho da minha barriga. Ele também colocou as mãos e eu coloquei as minhas com as dele. Ele já tinha feito isso outras vezes mas nesta noite foi a primeira vez que sentimos você se mexer dentro de mim. Enquanto ouvia a voz dele você se mexeu algumas vezes. E eu me dei conta que para sentir você eu preciso ficar bem quieta e atenta. Seu pai me ensina muitas coisas e neste dia ele me ensinou a te sentir.
quinta-feira, 5 de abril de 2018
Terceiro ultrassom
terça-feira, 3 de abril de 2018
De repente um espinho
quinta-feira, 29 de março de 2018
Primeiro ultrassom
Assim que constatamos a gravidez, o Paulo ligou para a prima obstetra que disse a ele o conselho que dá a todas as suas pacientes:
“Com o teste de farmácia você conta ao marido”
(No meu caso praticamente ele que tinha me contado...rs)
E ela continuou:
“Após o primeiro ultrassom conte para seus pais e irmãos. E após o ultrassom morfológico, dos 3 meses de gravidez, vocês contam para todos”
Procuramos seguir o conselho à risca, bem cientes de que a gravidez só fica mais segura após os primeiros 3 meses.
Marcamos o ultrassom para os próximos dias. No dia do ultrassom eu também quis aproveitar para fazer o exame de sangue. O Paulo queria que eu fosse só no final do dia, pois achou que não daria tempo de chegar no horário marcado do ultrassom, olhei no relógio e achei que dava. Eu queria que ele fosse comigo e sabia que no final da tarde não estaríamos juntos, então indignada por ele preferir que eu fosse só no final do dia, sozinha, eu saí meio desaforada: “se você não quer ir agora comigo eu vou, vou sozinha então, você me pega lá e vamos juntos para o ultrassom”. Saí com raiva de casa. Com vontade de ir sozinha para o ultrassom também, só pra me “vingar” e não deixar ele ver o primeiro momento do nosso bebê. Mas eu sabia que ia me arrepender se deixasse a minha raiva tomar conta... Quando ele passou pra me pegar já entrei no carro chorando, me sentindo a maior vítima do mundo por ele não ter movido uma palha para me acompanhar no exame de sangue também (olha como as emoções já foram ficando a flor da pele!)
Fui falando que já desmaiei algumas vezes tirando o sangue, que sempre recomendam que eu leve acompanhantes (mas já faz alguns bons anos que vou sozinha e nunca mais desmaiei ou precisei de ajuda), falei que esperava que ele fosse mais sensível e cuidadoso comigo, ele foi ouvindo, me pedindo desculpas e rindo. O Paulo ri quando eu choro e percebe que é por bobagem. Ele não ri da minha cara, é o riso que damos olhando a inocência das crianças, é um riso diante de uma beleza. E quando ele ri assim de mim eu consigo reconhecer que estou exagerando um pouco, ou me aproveitando da situação para me vitimizar. E também me sinto amada neste riso que me contempla e aceita.
Já estava tudo bem entre nós, mas quando cheguei no lugar onde faríamos o exame meus olhos estavam inchados de choro. Pedi um tempinho para o Paulo, para descermos em seguida. Eu estava com vergonha da minha cara e nem tinha pensado o quanto chorar deve ser um acontecimento natural naquele recinto. Em geral o choro de emoção, imagino e espero.
Entramos na sala de exame. Sentei e fiquei bem de frente para uma tela bem grande. O Paulo ficou de frente pra mim olhando a tela do computador do médico, que estava ao meu lado. Acho que ele nem percebeu essa tela maior. Foi tão mágico pois o rosto dele foi o que vi de mais nítido na hora que ouvimos o coração bater. Não tinha muito o que ver na tela, mas ele deu um passo pra frente como se tivesse sido empurrado, ou levado um susto, então abriu a boca, arregalou os olhos, com as sobrancelhas bem levantadas, e quis confirmar com o médico: “É o coração?”
O médico respondeu que sim. Mas o Paulo também é médico. Ele sabia que era o coração. É que a nossa alma precisa de uma confirmação para acreditar nos momentos de beleza e alegria. É como se disséssemos “me belisca para que eu tenha certeza que não é um sonho”. Mas não era um sonho, a realidade é que é inacreditável*
Eu achei que os olhos dele estavam lacrimejando, os meus estavam (e estão de novo ao lembrar). Alguns dos mais memoráveis momentos da minha vida eu passei vendo o sorriso dele, as emoções dele, e mais uma vez Deus estava me presenteando com a cena do seu sorriso, da sua alegria, bem diante dos meus olhos, e o motivo, desta vez, era a constatação de que dentro de mim tinha um outro coração batendo, uma outra pessoa feita de pedaços nossos misturados. ❤️❤️❤️
(*frase do livro: Uma aprendizagem, de Clarice Lispector)
(Foto tirada perto do dia que fizemos o ultrassom)
quarta-feira, 28 de março de 2018
Como ficamos grávidos
Entre tantas coisas chatas e difíceis com que os nossos olhos tem contato eu, que amo escrever, resolvi contar belezas que, de fato, aconteceram.
(Principalmente com todo carinho que recebi com o post da minha gravidez. É mesmo muito lindo que a gente continue se comovendo com os novos seres que se preparam para chegar em nosso mundo!❤️🙏🏻)
Estou casada há quase 7 anos, estamos juntos há quase 9 e nesse tempo todo nos questionamos bastante sobre a responsabilidade vitalícia de sermos guardiões de uma nova vida. Fomos adiando e assumindo o risco de talvez a natureza não nos permitir mais esta escolha, afinal há um limite para a fertilidade. Ano passado foi um ano de mergulhos internos bem profundos, eu diria que até mais para o Paulo, mas eu acompanhei bem de perto suas descobertas e em especial o momento em que ele se percebeu firmemente com vontade de se eternizar.
A única imortalidade possível ao nosso corpo físico é se manter vivo em um outro corpo, o de um descendente. Somos, cada um de nós, feitos da matéria viva de nossa ancestralidade. Carne, sangue e ossos novos com o componente genético antigo de nossos pais e avós que, muitos, nem sequer pudemos conhecer.
Ao contrário do Paulo, a coragem de viver o desafio da maternidade não estava me visitando, ainda não me sentia completamente pronta. A primeira vez que deixamos de nos prevenir foi bem anterior ao meu período fértil, eu estava segura com isso. Quando, finalmente, nossa união mais profunda aconteceria em meu momento de fertilidade, tive que me abrir com o Paulo dizendo que precisava de pelo menos mais um mês para me preparar. Ele sentiu raiva, como um menino birrento, daquele dia em diante não me procurou mais. Porém algo de diferente estava acontecendo em mim. Uma alegria sem causa, segurança, amor-próprio... Dias depois comecei a desconfiar que eu tinha engravidado naquela primeira tentativa, fora do período fértil. Conforme os dias passavam eu me preenchia de uma sensação única de poder. Eu não tinha mais dúvidas sobre mim ou sobre o futuro, me sentia forte e saudável, como que uma escolhida pela cosmos para abrigar em meu útero uma semente humana.
Sinalizei para o Paulo que gostaria de fazer o teste com ele para descobrirmos juntos. Via em seu olhar um brilho de felicidade e, ao mesmo tempo, uma cautela bloqueando a expectativa. Quando nos tornamos adultos, não nos animamos demais com alegrias que podem ser efêmeras. Sentimos medo da frustração. Crianças não perdem tempo com isso. Criam expectativas e se frustram. E não ligam de criá-las novamente. Até que ficam adultas. Normalmente são as experiências de dor que nos transformam...
No dia 15 de dezembro, quando meu ciclo já estava atrasado há 6 dias, acho, trabalhei até tarde porque tive um evento de formatura no colégio. Lembro que sentei na mesa de homenageados perto da professora Camila e da Fabiana, assistente de direção, ambas grávidas, e que me senti parte daquela realidade que as duas estavam vivendo.
Antes de chegar em casa liguei para o Paulo e ele me pediu para esperar uns minutos na garagem enquanto ele chegava da academia. Na verdade ele queria que chegássemos juntos porque tinha me preparado uma surpresa. Comprou o teste e deixou ao lado de um buquê de flores. Ele também estava se convencendo de que seria uma noite de uma descoberta especial para nós. Além disso as flores não seriam só pra mim. Estávamos felizes com a simples possibilidade. Assim que fiz o teste ele já tirou da minha mão antes que eu visse e levou para debaixo do lustre da sala. Não tive nem tempo de sair do banheiro e o ouvi dizer: “Amor, você está grávida!”
Quando cheguei na sala vi o seu sorriso, que me encantou desde o nosso primeiro encontro. Meus olhos se enchem de lágrimas de lembrar. A gente se abraçou e se beijou, se deu parabéns e ficamos rindo, bobos, como que rodeados de estrelas.
Eu registro aqui para que possa me lembrar para sempre exatamente como foi. (Como se eu pudesse esquecer)
E compartilho na esperança de que possa trazer alguma alegria também a você que está lendo. 🙏🏻❤️❤️❤️
Quando o amor se expande em nós ele é capaz de transformar o mundo. Quem sabe o seu mundo😉
(Foto de 15/12/2017)