quarta-feira, 24 de abril de 2019

36a carta para minha filha

Olhos de poeta são olhos atentos, filha. O tempo todo é preciso ver o que não é visto. A poesia está sempre acontecendo. Mas muitas vezes está vestida com uma roupa invisível. É como o vento que a gente sente arrepiar a pele, mas não enxerga.

Também podemos aguçar os ouvidos. Ouvir os silêncios, captar olhares e expressões que dizem ou que gritam palavras impronunciáveis. Mas podemos também perceber conversas soltas. Como músicas que quase ninguém ouve. Aqui na livraria uma moça falou ao vendedor: “Mas o livro que você está procurando pra mim você vai pegar aí da estante que todo mundo manuseou? Então eu vou pagar caro em um livro usado?”

Filha, você já veio tantas vezes comigo às livrarias… Já compramos livros novinhos, dentro de plastiquinhos transparentes e outros tantos com digitais de leitores que também passam por aqui e deixam suas marquinhas invisíveis nos livros. Nossos próprios olhos vão beijando as páginas que amamos. Beijinhos sem batom. Só o próprio livro sabe que já foi beijado muitas vezes por olhos diferentes. Então levamos pra casa livros que não só foram manuseados com os dedos, mas beijados com os olhos. Esses são os melhores livros! Os que ficaram na livraria por um descuido. São mesmo caros, como a moça disse. Porém são os que pagamos mais barato. Porque caro não é só o contrário de “barato”, não tem só essa conotação financeira, a palavra “caro” também dá nome ao que é querido, àquilo que desejamos que seja nosso e que, só por querê-lo já o é! Veja, são nossos os livros que amamos, mesmo que os tenhamos deixado nas estantes das livrarias e bibliotecas por onde pisamos durante a vida. Então os livros caros, são os queridos também por outros, manuseados por muitos dedos delicados, beijados por inúmeros olhos, e que vieram morar na estante de casa. A moça não sabia nada sobre livros “caros”, filha. Nem sobre alguma doçura que podemos colocar nas palavras ao conversar com desconhecidos. Ela tinha de repente despejado um ar arrogante por sobre o vendedor agachado, procurando para ela o livro na parte mais baixa da estante. Mas cada vez que eu reconheço uma arrogância, ou qualquer outro traço na personalidade de alguém, preciso, e quero te ensinar, voltar esse olhar também sobre mim, sobre a minha arrogância. O mundo é sempre a poesia que revela quem somos. 
~Março de 2019~
(Continua na 37a carta)

quarta-feira, 6 de março de 2019

35a Carta para minha filha

35a CARTA PARA MINHA FILHA 

Filha, foi seu primeiro carnaval. Meus pais diziam que eu tinha nascido em dia de carnaval. Só hoje fui conferir a informação para te escrever e percebi que o domingo de carnaval aconteceu uma semana depois do meu nascimento, em 1979. Pode até ser que na semana anterior os bloquinhos já estivessem festejando, mas acho que a palavra  “carnaval” expressa o mínimo do que a chegada de um bebê faz com a vida de seus pais. São dias intensos de “folia”, de dormir pouco, se entregar, gastar energia, ficar “grogue” de tanto cansaço e sonolência até dizer “eu queriaaa, que esta fantasia fosse eterna” ou mesmo “eu vou, atrás do trio elétrico eu vou”. Pois é nos tornamos um trio: eu, você e papai! Temos seguido muito juntos, muito unidos. Acho até que os 10 anos de relacionamento que eu e seu pai vamos completar esse ano foram para estruturar base sólida pra te receber. Nós estávamos, sem saber, caminhando pra você, e para nós, para esse “nós” que nos tornamos. Cabemos os 3 nessa palavra pequena. Apenas 3 letrinhas repletas de outras 4 letrinhas: amor. 

Já que é carnaval: qual a diferença entre sonho e fantasia? Sonho é o que a gente quer sempre realizar, fantasia é o que a gente quer sempre sonhar. Você é então nosso sonho. E também nossa fantasia. Vestida de mulher-maravilha, com sua beleza e sua força de heroína. 

Que você sempre seja capaz de salvar o mundo, aquele único que existe, o seu! Que os seus super poderes sempre te acompanhem e te ajudem a realizar seus sonhos e a sonhar as suas fantasias, mesmo quando não for carnaval. Lembre-se: o maior super poder é o amor! Transforma, edifica, cria, perdoa, faz nascer vida... Poder que você me dá e eu te dou. 
#cartasparaminhafilha #maternidadecomamor #maternidadeconsciente #maternagem #mãedemenina #cartaparaminhafilha


Julgar

Julgar é vício. É  como reclamar. Quando a gente vê já está fazendo. Passei uma infância e adolescência presa a muitas privações, escrava dos julgamentos dos outros. Quando não nos amamos o suficiente os outros assumem uma importância em lente de aumento. “O que os outros vão pensar” passa a ser uma régua para nossas escolhas, por pura falta de se sentir amado. Se a gente se ama não precisa tanto do amor dos outros. E quando estamos tão preocupados com o julgamento dos outros também somos severos julgando as pessoas que fazem escolhas autênticas. Essas pessoas incomodam. Parece que só nos resta julga-las. Então uma boa dica é observar: quem você tem julgado negativamente? Se você se incomoda com o jeito de alguém, talvez seja legal refletir se não há algo a aprender com esse incômodo ou até com essa pessoa. Não será aquele a quem julgamos alguém mais corajoso que nós? 
#autoconhecimento #autocura

domingo, 3 de março de 2019

34a CARTA PARA MINHA FILHA

Eu e seu pai não somos as pessoas mais disciplinadas e só agora, depois de 6 meses você dormiu às 9 da noite pela primeira vez. Faz aproximadamente um mês que você começou a dormir “naturalmente” cada vez mais cedo. Naturalmente porque até tentamos fazê-la dormir, abaixávamos a luz da casa, levávamos você para o quarto, seu pai tocava e cantava canções de ninar. Você mamava e ficávamos, eu e você, no meu colo, ora mamando de olhos fechados, ora dormindo, acordando pra mamar… E eu tentando colocar você no bercinho, mas isso te fazia acordar e nosso ritual recomeçava. Isso levava 3 horas no início, depois duas horas, depois uma hora e meia. E hoje, pela primeira vez apenas uma hora. Depois de mais de 6 meses. Houve um momento que você quase acordou, chegou a se virar sorrindo para o seu pai. Aquele sorriso que convida para brincar ou te abraçar. É sempre difícil resistir. E também difícil decifrar o que pode ser feito. Só hoje eu compreendi.  Falei baixinho para o seu pai fechar um pouco a porta, bloqueando ainda mais e entrada de luz de fora do quarto, coloquei você no meu peito e passei meus dedos ternamente em seus olhos. Aos poucos seu sono foi voltando. As pálpebras foram se entregando devagar. Então você dormiu, ensinando-me um pouco mais sobre si mesma, sobre como lidar com você.


Aconteceu o inesperado. Pela primeira vez nesses 6 meses eu e seu pai a deixamos no quarto para assistirmos um filme. Fomos diversas vezes interrompidos pela nossa ansiedade, saudade e estranhamento por você estar dormindo tanto sem nós. Visitamos o quarto escuro, acendemos a lanterna do celular para observarmos seu semblante doce. Isso se repetiu algumas vezes.


O filme que escolhemos tem um nome muito propício “Nasce uma estrela” e em uma das cenas mais bonitas para mim o protagonista masculino aconselha a protagonista feminina a dizer o que tem a dizer, porque não somos ouvidos para sempre. Quando somos ouvidos precisamos dizer. Ele se referia ao sucesso da personagem. Mas eu penso que isso vale para nossas vidas. Na perspectiva de idade do nosso planeta, nossa vida é muito breve, como um sopro. Eu quero que você possa viver a sua, meu amor, expressando a verdade do seu coração, ciente de que esse espaço entre o nosso nascimento e a nossa morte é como o intervalo de um discurso. Precisamos viver nossas vidas fazendo o NOSSO discurso. Ninguém pode viver a nossa vida por nós. Ninguém pode dizer as nossas palavras. Só nós mesmos!!! Só você mesma.



sexta-feira, 1 de março de 2019

33a carta para minha filha

33a Carta para minha filha
Meu amor, você está sempre em meu colo, ou quase sempre. Mamando, sorrindo, dormindo… você sorri para quase todas as pessoas que vê. Basta que tenha dormido e se alimentado bem. O seu estado “natural” é um sorriso muito carinhoso que deixa os desconhecidos surpresos e encantados em todos os lugares que vamos. A sua carinha é um convite para que te olhem um pouco mais, para que te sorriam de volta ou conversem com você. 

Ontem, ao sairmos de um elevador uma senhora te disse: “Continue assim e todas as portas se abrirão para você!” Sinal que você tinha aberto a porta dela em poucos segundos. Assim é você! Leoinha, leonina, amável e encantadora. 

O seu rosto, quase sempre na altura do meu coração, olhando o mundo, deve ser a expressão do meu, deve ser também a minha vontade de sorrir, e ainda mais que isso a extensão do que eu mesma sou em essência. Ampliada, melhorada, tão amada.

Peguei um livrinho na estante da livraria pensando em comprar pra você. Nele um macaquinho contava ao seu filhote que iria amá-lo infinitamente por toda a vida. Tive vontade de chorar ao me imaginar lendo a historinha antes de você dormir quando as palavras te fizerem algum sentido. Hoje teu sentido é o sentimento, emoção, movimento. Eu, que amo as palavras, me movo em silêncio para não te acordar. Enquanto você dorme te escrevo um pouco mais. 

*autoretrato deste final de semana em uma daquelas horas do dia em que voltamos a ser uma só 💜
#cartasparaminhafilha #maternidadeconsciente #maternidadereal #vidamaterna #maternagem



32a carta para minha filha

32a Carta para minha filha
Por mim a nossa foto estaria estampada em todos os perfis das minhas redes sociais, afinal, quem sou eu além de sua mãe? Meus olhos se enchem de lágrimas ao me reconhecer assim. E ao não me reconhecer mais também. Sou tão grata por estarmos assim juntinhas, 24 horas por dia. 
22/02/2019 você completa 6 meses, na mesma semana que completei 40 anos. Foram 6 meses em que procurei fazer a sua vida a mais feliz, terna e acolhedora que pude. 6 meses de amamentação exclusiva em livre demanda, 6 meses procurando criar o ambiente mais próximo do aconchego que você sentiu dentro do meu corpo, sendo alimentada e aquecida sem que precisasse sinalizar para que isso acontecesse. Eu me sinto plena e feliz por tudo que fiz e faço por você, por conseguir ser tudo que sonhei para você e, principalmente, por ver seu sorriso confirmar a alegria que desejo te dar, com todo meu amor. Já sinto muita, muita saudade de tudo, de tudo... Feliz meio ano de vida, filha! 

Agradeço a seu pai @paulo.campregher por ao meu lado ser tão carinhoso com você e comigo, por te proteger da exposição que, eu sozinha, não saberia evitar, e por aceitar que criemos com um pouquinho do que cada um de nós somos, o melhor mundo que pudermos para você descobrir, desvendar, viver e, com a sua interferência também, ser criado por você, o nosso pequeno cosmos: a nossa família! 
#cartasparaminhafilha #maternidadecomamor #maternidadeconsciente #maternidadereal

31a Carta para minha filha

31a Carta para minha filha

Bebês não significavam nada pra mim. Sei que agora vou amar todos os bebês. Porque todos vão me lembrar você. 💜

#maternidadeconsciente #maternidadecomamor



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

30a Carta para minha filha

30a CARTA PARA MINHA FILHA

Somos duas apaixonadas pelo mundo. O que existe ali fora? Como posso interagir com as pessoas? Eu tenho tanto a dizer... Tanto a contar. O que eu sinto, o que eu vejo, eu não venho desse mundo, mas eu amo esse mundo, e porque amo é como se esse mundo fosse meu. Eu quero viver. Estou cheia de olhar pras paredes do meu quarto, da minha casa, de ver só o mesmo rosto. Também quero saber desta que me interpela pelo espelho, que me sorri quando eu rio. Essa outra que ainda não sei que sou. Sou eu. Sempre eu. Esse mundo em volta que eu vejo, percebo e recebo como a mim mesma. O mundo. Também sou eu. Também é ela. O mundo. Aquele de onde saí, escuro, pequeno, quente. A claridade entra pela janela. Eu sigo a luz. Eu saio. Foi o que fiz na primeira vez. Eu quero sair e ver o que há lá fora. 

Eu tenho muitas coisas pra contar. E muito mais pra viver. Filha, essa carta também poderia ter sido escrita por você!

29a CARTA PARA MINHA FILHA

29a CARTA PARA MINHA FILHA
É meu amor, faz tempo que não te escrevo. Você está aí mais linda e gostosinha do que nunca, com mais vontades próprias de ver e viver o mundo. Agora seus interesses se ampliaram, os seus olhos ficaram espertos, vocês reconhece os conhecidos e estranha mais as pessoas  também. Já passaram 5 meses que nos conhecemos do lado de cá. A cada dia você é menos eu e mais você, interessante como, talvez proporcionalmente, o seu rostinho comece a lembrar um pouquinho mais a mim, para quem olha de fora... Mas a carinha do seu pai continua aí, assim como a sua segurança no colo dele, aliás essa só aumenta, o seu conforto quando ele te faz dormir e às vezes até consegue fazer você parar de chorar melhor que eu. 
Eu tenho me esforçado para lidar com o seu choro de uma forma menos dolorosa, para te permitir gritar, chorar, se revoltar, sem querer poupar a sua vida de sofrer pequenas decepções ou frustrações. Como é difícil! Li esses dias um texto do Osho falando que é preciso que você libere seus sentimentos chorando e entendi que talvez seja violento da minha parte querer te tirar essa expressão dos seus sentimentos autênticos querendo te distrair, ou te dando uma alegria momentânea que “tape” o buraco que você identificou em algum momento... Eu tenho, às vezes, que participar ativamente de um sofrimento seu, às vezes deitando você pra trocar a fralda quando você gostaria de continuar sentada, segurando seus braços para que a agulha de uma vacina te proteja a custa de dor (esse é um dos piores!) e assim vou construindo a nossa relação, procurando ser a melhor mãe que posso ser. Muito grata por contemplar o seu existir. 🙏🏻💜 #cartasparaminhafilha #maternidadenareal #maternidadeconsciente #maternagem #família #parentalidade


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Réveillon

Já faz 9 anos que passo o Réveillon na casa da minha cunhada @mariliacampregher 

Já fizemos 9 rituais diferentes, sempre tentando elevar a consciência para que este símbolo de passagem do ano possa ser aproveitado da melhor forma. Desta vez, antes da meia-noite cada um escreveu o que queria deixar em 2018, em outras palavras do que queria se desapegar para seguir livre daquilo em 2019. Em seguida jogávamos o papel na fogueira. 

É curioso observar, em momentos assim, que podemos estar apegados à coisas que não queremos mais. 

Pra mim foi bem difícil jogar fora a gula, pois eu estava com a cabeça nas sobremesas da ceia, que eu, praticamente, só como neste dia do ano. 

Percebi que a gula me dá um bocado de prazer e achei que me livrar dela seria perder um pedaço “gostoso” da vida. Então lembrei de algo que aprendi em uma live do Dr. @italomarsili . As virtudes humanas estão emaranhadas como teias. Não adianta querer no ano-novo uma virtude que te exija um esforço radical. Isso só vai te fazer fracassar e achar que não consegue nada. Ao passo que se você escolhe trabalhar uma virtude mais possível pra você ela se ergue e vai puxando para o alto, como uma rede, teia, todas as outras virtudes. Então escolhi outra coisa em que vou focar neste ano. Na verdade desapegar, mas é algo que também pode ser trabalhoso, mas ao qual eu já me sinto mais aberta. 

E vocês? Fazem rituais de passagem no ano-novo também?

#ritualdeanonovo #ritualdereveillon #ritualdepassagem





Após ser mãe

Escrito em 28/12/2018:

Hoje estava contando no stories que a maternidade é como nascer de novo. Nós mães, temos isso em comum com nossos bebês, a oportunidade de fazer tudo de novo pela primeira vez, bem diferente de antes. E é tudo mesmo, principalmente as atividades que resolvemos, ou temos que, fazer sozinhas com o/a bebê. Tomar banho. Alimentar-se. Ir ao banheiro. Sair de casa. Tudo que é simples fica novo e precisa de alguma artimanha para ser feito sem comprometer a segurança e conforto da criança. Afinal nos tornamos coadjuvantes da nossa própria vida. Cada passo é uma conquista. A autoestima fica renovada.


Quando os bebês nascem sentimos que nunca mais conseguiremos fazer umas série de coisas sem ajuda (com vocês também foi assim?), mas aos poucos vamos encontrando nossa força e autonomia. 

A foto no provador é só um registro da minha alegria de conseguir me virar com ela, amamentando no provador e escolhendo roupas com preços promocionais (algo que sempre curti fazer). Existe vida após a maternidade. rsrs 

#maternidadeconsciente #maternidadecomamor #maternagem #mãe




Dia da Doula

Escrevi 18/12/2018:

Estou há meses preparando um post para contar a nossa jornada para a chegada da Nina. Estou quebrando o silêncio sobre como foi o parto para homenagear a nossa doula @madhuri_oficial porque hoje é dia da doula. Tiramos esta foto depois de mais de 12 horas juntos. Aliás não fiz as contas direito. Mas foi no mínimo por aí. Foram várias fases do trabalho de parto e esta foi uma das lições que aprendi com a Madhuri nas conversas que tivemos em encontros anteriores ao parto. Mas o que eu mais lembro de sua presença, naquela noite que atravessamos muito juntas, é de seu canto, evocando a minha luz feminina, e de seu olhar, que em alguns momentos foi o meu único norte, que me segurou no chão, viva e consciente de que eu não estava sozinha. Quando a dor chegava ela me dizia “olha pra mim” e de seu olhar arranquei força e abrigo e, acima disso, encontrei o meu próprio poder refletido ali naquele brilho.  Obrigada por tudo, querida! Reverencio você e o que você faz. 🙏🏻🙏🏻🙏🏻💜💜💜



segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

28a CARTA PARA MINHA FILHA

28a CARTA PARA MINHA FILHA


Este tempo,

em que meu lugar é o sonho

em que te contemplo viva

mais real que eu mesma


Este lugar em que me apaixono

Em que você encerra meu sono

E me acorda com riso


Aprendo uma lição impronunciável:

Nada mais preciso

A não ser você nos meus braços 

E toda a minha vida nos seus. >poeminha de agora: 30/12/2018 - 14:28 >foto do início do Samba na Caverna, 29/12/2018, na casa dos meus cunhados, com o Paulo tocando ao fundo e Nina dormindo e sempre me tocando profundo





domingo, 30 de dezembro de 2018

27a CARTA PARA MINHA FILHA

27a CARTA PARA MINHA FILHA 

Já faz um ano. Eu era outra e você tinha acabado de chegar em mim. Eu tinha uma vida minha. Do início das manhãs ao fim das madrugadas, os dias eram meus. Eu tinha noites e sonos bem dormidos. O corpo mais rijo e esticado na cama. Banhos longos, sem pressa. Vontades que eu podia realizar. Horas livres. 

Você veio. Veio preenchendo os vazios. O vazio do meu corpo. O vazio da minha alma. O vazio da minha vida. 

Sorri quando senti você pela primeira vez. Senti seu espírito. Seu corpo não era passível de ser percebido. Mas a sua presença já reluzia como uma chama viva. Eu me confidenciava apenas com seu pai “acho que estou grávida”. Já faz um ano. Ele mal podia acreditar que tanta alegria e merecimento eram possíveis. Demorou para entender. Eu também. 

Já faz um ano e eu ainda não entendo. 

Não sei de nada. Só sei que você está em tudo. Toda a minha vida tomada. Eu: completamente sua. 

15/12/2018

#cartasparaminhafilha #maternidadeconsciente #mãedemenina #mãe #vidademãe #maternagem 

Ensaio gestante: @sitah_photoart





terça-feira, 27 de novembro de 2018

26a Carta para minha filha

26ª CARTA PARA MINHA FILHA 

Amo você, filha. Meu amor nasce de todas as minhas transcendências. Ao me levantar com preguiça para te pegar no colo, ao me deixar sempre pra depois para ficar com você. Você é mais importante! Da minha preguiça nasce meu amor, pois ele a vence, forte como um touro. Então acolho você em meus braços e o amor me acolhe. Tenho vislumbres sobre minha condição de mãe. Sobre a oportunidade de ir além, de descobrir partes minhas que eu desconhecia, alcances maiores do meu ser, pontos mais sublimes da minha personalidade… Claro que atravessamos juntas a minha sombra. Mas seu sorriso me perdoa. Parece que você não se importa e cura a culpa pelas falhas que eu penso cometer. Sei que não haverá perfeição. Mas me deixa tão feliz poder te dar o meu melhor, o melhor que posso, o melhor que eu tenho agora. Cada processo de maternidade é único, mas o meu é de regar essa minha alegria vaidosa de ser a melhor mãe. Não melhor que as outras, melhor do que eu mesma! A melhor mãe que eu posso ser. 

#cartasparaminhafilha #maternidadeconsciente #mãedemenina #maternagem 📸: @sitah_photoart

25a CARTA PARA MINHA FILHA


Choro com você nos meus braços, como se eu fosse a criança nos seus. Você me Nina, eu menina, mesmo sendo você a mais pequenina, você me ensina jeitos de te fazer dormir, jeitos de renovar o amor, de te conhecer, jeitos de não saber, de reaprender, lembrar, esquecer, começar de novo. Afinal há sempre um amor novo por você. Lágrimas de poesia, transpiração etérea do que sinto, flocos de ternura, meu colo tão repleto, e eu tão sua, tão sua…

Estou ouvindo “A soaring heart” uma canção que conheci para te ninar, ninar seus sonhos. Dessa canção vão nascendo essas palavras de pranto. Esse canto que eu canto. 

Esse instante é uma eternidade que quero manter e ao mesmo tempo ver crescer, florescer, desabrochar, como seu riso ao acordar, ou ao me ver, diante do seu olhar. Então a dor da mãe que se doa completamente, inteiramente, se dissolve em um solúvel universal: um amor que só se compreende sentindo. É preciso alertar as jovens mães sobre a dor, pois nada adianta dizer sobre esse amor, ele atravessa as expectativas e brilha quando menos esperamos. Coloco alguma consciência quando você está no meu colo e percebo que tenho pressa. Pressa de sair, de conseguir me arrumar antes, de me sentir bonita, de experimentar alguns momentos dos braços livres, de espreguiçar, pegar um copo com água, comer… À luz da consciência perco a pressa e tenho você, meu tesouro encantado, dona de toda a minha vida, a quem entrego a liberdade, o amor, meus braços, meu peito, meu corpo. E você vai tomando o espaço de tudo e às vezes me devolvendo em pílulas algum conforto na suas singelas independências conquistadas: alguns minutos deitada no sofá olhando o lustre, tentativas de conversar em grunhidos com a almofada, silêncio na cadeira de descanso… Até que seu choro ou incômodo me convoca novamente. Não tive tempo de nada, filha, penso inutilmente em fazê-la compreender. Não adianta. Eis que se abre uma oportunidade nova: você mais uma vez em meus braços. Olho seu rosto dormir ou me olhar e sonho em guardar em um cofre secreto esse momento. Choro com você nos meus braços, filha. Choro de amor. (Out/2018)

#maternidadeconsciente #mãedemenina #cartasparaminhafilha 📸 @sitah_photoart

sábado, 3 de novembro de 2018

Oceano




A natureza é mesmo mágica. Um ser completo se formou dentro de mim. E meu corpo o expeliu como se fosse um órgão vital, do qual abrisse mão todo meu organismo. Mas não era um órgão. Era uma pessoa inteira. Uma pessoa pequena mas com todos seus órgãos inteiros, que iria se alimentar de um líquido branco, saído do meu peito. Do leite que não sei como comecei a produzir, como vaca, macaco e baleia também fazem. A pessoa pequena se fez sabendo sugar, chorar, abrir boca e olhos, fechar as mãos para agarrar meu dedo. A comunicação ainda precisa ser toda desenvolvida, nasce inteira mas não sabe falar. Já dorme e sonha. Já mira os olhos das pessoas em silêncio. Já travou uma jornada comprida e desafiadora dentro do meu corpo. Foi como atravessar um oceano no escuro. Sozinha. Eu não era companhia. Eu era o oceano. E, de repente, isso tudo, me torno uma voz familiar, uma mão desesperada que quer atender o choro rápido trazendo esta pessoa pequena ao colo, ao peito, ao leite. E eu me torno outra, um berço acolhedor, em forma de gente, que se molda a ela e às suas vontades. Conectadas por bicos (do seio e da boca) quase parecemos uma. Não somos uma. Somos duas mulheres inteiras se descobrindo.


(Out/2018)

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

24a CARTA PARA MINHA FILHA - sobre não saber


"Você ama muito a nossa filha?"
Ele sorria com os olhos repletos de encantamento e amor, querendo se certificar de que compartilhávamos esse deslumbre com a sua chegada.
"Não sei", respondi. 
Não vou mentir a ele, nem a você. O amor é algo que sempre teve um sentimento e um nome em minha vida. O que vivo com você, filha, é diferente de tudo. Se eu fosse chamar isso de amor teria que renomear tudo que vivi. E também não posso dizer que é maior, ou que é melhor, pois estou de tal forma misturada a você que nem mesmo sei me distanciar para compreender e decodificar com palavras a nossa experiência. Acho que ainda estou aprendendo a me amar, me reconhecer, e tentar entender o que estamos vivendo. Até pouco mais de um mês você era como um pedaço do meu corpo, e é como se continuasse sendo, só que fora dele. Porém agora é mais complexo, é como se meu corpo, que tinha vivido quase 40 anos a aventura de se tornar autônomo, tenha se tornado um pedaço do seu, uma extensão da sua boca, da sua fome, de tudo que você possa necessitar. Eu sou um seio, um colo, braços que te acolhem no peito, lábios que te beijam, olhos que se comovem com seu rosto… O que eu sou, minha filha? Além disso eu não saberia dizer… Quem eu sou? Sou sua mãe!

Sabe, filha, a minha educação foi um aprendizado de interrupção dos meus impulsos, de afastamento do meu corpo e reconhecimento das expectativas do mundo. Tornei-me absolutamente mental. Através do intelecto eu busquei sempre atender o que esperavam de mim. Os sentimentos acontecem no corpo, justamente a voz que mais tentei silenciar. Achei que para ser amada seria preciso gostar do que é certo, sentir o que é previsto, ser o que é esperado. Segui esta cartilha. Então a vida me deu você, um caminho novo para o meu corpo, para o meu instinto, uma aproximação dessa carne que sou e que conflita com o que fui até hoje. A voz da minha mente não é suficiente para calar o corpo que quer você perto cada vez que te vê. 

As expressões do seu rosto, seus contornos, o cheiro da sua pele acordam calor no meu peito. É isso o amor? A sua voz, nossa aproximação, os seus olhos que me contemplam e sua boca que me sorri são sinais que não ouso conceber. O que vive e pulsa entre nós é amor? Ou são apenas nossos corações vivos testemunhando a potência da nossa relação? 

Não sei como chamar isso tudo, filha. Não sei. 

Saber foi o que aprendi. Sentir é o que você me ensina. 

E termino esse texto com um eu te amo querendo sair da boca. Você faz isso com o meu corpo, mesmo quando eu não sei. 

#cartasparaminhafilha

sábado, 22 de setembro de 2018

23a Carta para minha filha

23a Carta para minha filha


Você redimensiona o mundo, meu olhar, meu sentir, eu mesma.

A cada olhar para você uma ampliação.

Tens o cheirinho perfumado de uma flor que é humana, plantada por um profundo amor, de dois corpos e duas almas.

Você eterniza uma união efêmera…

Em você seu pai e eu estaremos unidos para sempre.  


O amor que você faz acordar em mim é um território que eu desconhecia e ainda desconheço, é você que me guia ao se revelar e assim revelar uma planície intocada de mim mesma. Cada dia uma descoberta. Descubro você crescer, ganhar bochechas maiores e mais rosadas, um papinho abaixo do queixo, os olhos cada vez mais alertas reconhecendo o mundo. Há uns 3 dias você olha as paredes, os quadros da casa, os violões e máscaras que temos pendurados na sala. Você agora vira o rosto e parece tentar emitir com a boca o som das nossas vozes quando conversamos com você.


Temos tanto tempo juntas, mas esse tempo corre tão depressa. Não é mais o mesmo tempo de antes. Tudo acelerou e também ficou mais lento. Demoro mais para fazer o que eu fazia, o relógio não me espera. Os dias correm sem caber neles as minhas vontades, os meus planos, ou mesmo meu sono. Você dorme por horas durante o dia. À noite às vezes demoro horas para conseguir que você pegue no sono.


Amanhã seu pai volta a trabalhar e viveremos uma nova fase, assim como serão sempre novos nossos dias. Os adultos são tão previsíveis e iguais. Você muda o tempo todo antes que eu me acostume.


Estou sendo uma boa mãe? Você se sente amada? É o que me pergunto e te pergunto quando estamos a sós. Quero tanto que você sinta meu amor...


Amo o seu biquinho que antecede o choro, quando as extremidades das laterais da sua boca descem e seus lábios formam o desenho de uma meia lua deitada para baixo. Tenho pouco tempo quando olho para esta cena, pois meu corpo tem o impulso selvagem de enlaçar você nos braços e do bico dos meus seios jorra um leite puro para alimentar tudo que te falte. Para que nunca falte. Para que eu nunca falte pra você. (Ainda que eu mesma me falte). Sua mãe.


(escrito em 17/9/2018)





quinta-feira, 13 de setembro de 2018

22a Carta para minha filha

“Ela vai crescer rápido”

Ele me disse essa madrugada, com você no colo, no intervalo de uma canção de ninar que balbuciava.

Tive alguns segundos para pensar se estava se referindo a algum conhecimento biológico sobre seu crescimento, mas ele completou:

“Passa tão rápido. Por isso quero aproveitar todos os momentos”.

Desde que você chegou, escrevo este texto no seu 19o dia, seu pai trocou praticamente todas as suas fraldas. A sua vovó também várias e eu poucas. Mesmo assim vivemos momentos muito intensos, só eu e você, enquanto todos dormiam, ou enquanto só havia nós mesmo, ainda que todos estivessem acordados em volta. Você ainda não sabe que sou sua mãe. Você procura meu seio no ar mesmo quando estou muito perto. É como se você nem sequer me visse ou percebesse a minha existência. Sei que bebês são assim mesmo nesta fase, mas eu me enxergo sendo muito sua, um pouco perdida de mim mesma, renunciando minhas vontades, meu conforto, para que não te falte leite, colo, ou companhia. Ainda que esteja tudo misturado pra você, todas as companhias, colos, leite (apesar de nesse caso ser sempre eu), te dão o mesmo conforto, quando você o consegue sentir, o mesmo sono, quando ele chega, não importa muito quem seja… Mas, às vezes, parece que faço alguma diferença quando observo você se acalmar de um choro nos meus braços. E sei que estas singelas situações tem me importado mais porque meus dias tem sido você. Como qualquer ser humano é de fora que acabo procurando o afeto essencial do meu ser. Então, mesmo você sendo tão frágil e pequenina, me pego esperando de você reconhecimento e amor, o que ainda parece muito cedo para que consiga me dar. Sendo assim sou sempre eu que te dou, de uma fonte que eu nem sabia que seria capaz de oferecer, uma nascente interna e abundante, do leite que jorra do meu seio, o seio do meu corpo e do meu sentimento. Assim como você expandia meu corpo, minha pele, agora expande meu coração, um vasto lugar, de onde tiro forças e intensidade para soprar a você potência, alma...


Nossos encontros, em noites mal dormidas, madrugadas adentro, quando só alguns pássaros estão acordados e cantam no silêncio desta enorme cidade, como se soubessem que, ali muito perto, há uma mãe a alimentar sua filha. Esta mãe está exausta e sua bebê chora sem que o motivo fique claro. Aos poucos se esgotam as tentativas de acalmá-la. É sempre o peito que cala o choro e faz dormir, mas isso pode durar uma sequência de horas, até que se instale na penumbra do quarto um intervalo silencioso cujas vozes se apaziguem com o cerrar dos olhos. Somos duas crianças e duas mulheres querendo descanso.


Nina, vou sentir saudade de tudo isso. Mesmo quando tão intensamente desejo que passe. Vou sentir saudade. E, como bem me lembra seu pai, passa rápido, meu amor, passa muito rápido!


(Escrito em 13/9/2018, Nina tem 3 semanas e 1 dia)

domingo, 2 de setembro de 2018

21a Carta para minha filha


21a Carta para minha filha


Quando o amor veio singelamente suspirar suas cantigas de vento em meus ouvidos/

Eu soube, não haveria espera que não te enviasse ao meu corpo/

Nem sonho que não te criasse em meu colo/

O amor vinha sussurrar seus nomes/

Pequeninos e imensos cristais de tocar com dedos delicadamente/

Jamais saberia escolher um para te representar.../

Verdes são as frutos nas árvores intocadas/

Você no ventre ainda imatura a amadurecer tua árvore de leite/

Beberás o leite como uma gotinha orvalhada da noite derradeira/

Sempre sedenta como uma flor no deserto/

Tua alma vem com histórias que vou contar, para que nosso canto nunca cesse/

Um canto feito de vozes, música, danças e doces/

Convertido em beijinhos na face rosada, ou lágrimas de sentir demais você/

Essa água não cabe mais em mim/

Choro meu amor, canto meu amor, nino meu amor no peito/

Uma menina, uma pétala, eu, seu pai: uma família/

Eu te nino, me-Nina, Nina o pai também/

Pois és preciosa e pequenina mas sua grandiosidade nos ensina/

O amor que não sentimos antes/

Guardado estava, pra você brincar. 

#cartasparaminhafilha

domingo, 12 de agosto de 2018

20a Carta para minha filha - Dia dos pais



Sabe, filha? Eu ainda sonho com meu pai. Em como seria a minha vida se ele estivesse aqui. Nos sonhos é como se nada tivesse acontecido. Hoje acordo de um deles e me lembro da sensação boa dele existir e me ajudar no que fosse preciso, dele saber resolver problemas e me dar segurança naquilo em que eu não me sentia capaz. E reflito que essa relação que eu e você criamos pode atravessar nossa vida, além da morte do corpo, de um jeito tão profundo, que eu e seu pai poderemos viver enquanto você viver, através dos seus sonhos, das suas lembranças, do nosso amor, entrelaçado em mil palavras que te escrevo, em lágrimas de saudade que derramaremos, na força de um elo inquebrantável, que não se confirma no sangue, no gene, ou na carne, mas no olhar. O mesmo olhar que você irá sempre me lançar, como o de quem vê uma força misteriosa logo que nasce.  E também o meu olhar, capaz de amadurecer um pouco mais meus olhos, a cada vez que mirarem quem você é. Quem você é, filha? Como chamarei você? Por um nome que seu rosto irá me sussurrar? Ou de filha, como tenho te chamado?

Terei histórias para contar sobre seu avô, mas você só compreenderá através do que irá sentir no peito por seu pai. O brilho que seus olhos vão emitir ao vê-lo cantar, viver, ou te ninar. Será um reflexo um pouco tardio do brilho que sua presença há de fazer emergir dos olhos dele, como o sol faz emergir da água as flores aquáticas, e faz abrir os botões perfumados de todos os jardins. 

Da nossa experiência juntos se abrirão caminhos em seu futuro e por mais que tentemos não interferir você poderá lembrar de nós (como tenho feito com meu pai) além de 40 anos da data que você nasceu. Quando você irá nascer?

Eu já tenho 39, lembro das mãos robustas do meu pai, em uma cor mais jambo que a minha pele, dedos gordinhos e uma letra muito característica e caprichosa em tudo que escreveu meu pai. Lembro de uma alegria que ele buscava para me ver sorrir e me surpreender, mesmo que não a sentisse tanto e sempre. Mas havia seu entusiasmo, esse sim muito genuíno, e sua vontade de viver e testemunhar a vida de suas filhas por muitos mais anos do que a doença permitiu. E, mesmo doente, seu avô me deu a oportunidade de conhecer seu pai, filha, a quem ele reconheceu como a um espelho. É uma história que não me canso de repetir. Todo escritor tem a sua história original, clássica, como se dela nascessem todas as outras, a minha deve ser essa. Escrever é recontá-la, lembrá-la. O dia em que meu pai conheceu o seu. O dia em que vi juntos os 2 dois homens que mais amo. Meu pai reconheceu o seu, como se o estivesse procurando há muito tempo, como se percebesse que ele seria seu pai, filha, “o pai da filha da minha filha”, ele poderia ter pensado. 

Em uma noite desta semana eu acordei várias vezes, seu pai ficou ansioso achando que era um anúncio do seu nascimento. Então ele chegava perto de mim e com as mãos na minha barriga sentia as contrações de treinamento. Não conseguiu dormir mais naquela noite. Ligou várias vezes durante o dia. Ele quer tanto te conhecer. 

Achei que pudesse ser nesta noite. Ele falou que queria esse presente de dia dos pais…[risos]

O dia ainda não acabou. Mas venha no seu tempo. Nosso amor está pronto!

Quem sabe você também tem sonhado com ele como eu sonho com o meu pai. Você vai ver que por mais lindo que sejam os sonhos com nossos pais eles ainda são mais especiais pessoalmente. Você vai amá-lo muito e ele a você (pois já te ama – e também te sonha!). Vem ver, filha!




domingo, 5 de agosto de 2018

18a Carta para minha filha

18a CARTA PARA MINHA FILHA

(Continuando a carta anterior)

Quando nos apaixonamos criamos eixos que sustentam nosso encontro (e reencontro, que precisa ser repetido com a mesma potência para estar vivo e novo). É fato que todo relacionamento duradouro se faz de “recontratos”, pois mudamos sempre, mas o nascimento de uma criança deve ser o que de mais transformador possa acontecer a um casal. Como se de repente a substância de duas pessoas fosse demasiada para seus corpos e inundasse de líquido humano, fértil, perfumado e amoroso um outro “pote” corporal. Você, filha, já nasce banhada pelo nosso amor e emerge dele também. Você é fruto e motivação do nosso encontro, geradora e consequência da nossa união. 

Mas por inspiração nas conversas que temos com Madhuri ( @madhuri_oficial ), a doula, reconhecemos que após o seu nascimento, quando o furacão da transformação tiver passado e deixado suas marcas, precisaremos olhar com profundidade para quem somos, fatalmente seremos outros. Teremos que atravessar a redescoberta da nossa alma para então nos apresentarmos novamente. (Sugestão baseada nos estudos da Madhuri)

“Olha, meu nome é Aline, hoje eu gosto disso, eu não gosto mais daquilo, eu me interesso por isso, para mim é importante aquilo. Para tal coisa eu não ligo mais, porém preciso disso e posso oferecer isso. Para mim relacionamento se tornou isso. Você topa?”

Filha, o seu pai há de fazer o mesmo e me dizer. Poderemos pensar se somos capazes de levar adiante um casamento tão diferente do que aquele ao qual nos dissemos “sim, eu quero me casar com você”, mas sabendo disso parece que será ao menos um pouco mais fácil, estaremos mais abertos a nos compreender e compreender o outro. Pode ser que daremos como resposta: “Vai ser difícil para mim tolerar essa parte! Mas aceito tentar” e também pode ser (sou romântica e otimista, filha!) que nos apaixonemos ainda mais e mais profundamente por aqueles que seremos, após você passar por nós. É assim que sinto. (Continua na próxima carta)

#cartasparaminhafilha

19a Carta para minha filha

19a CARTA PARA MINHA FILHA

Filha, nas horas doces da vida vi muitas vezes escapar, do homem que amo, o seu pai em um sorriso. Saía sem timidez ao olhar um bebê, carregar uma sobrinha, ou te imaginar. Em alguns momentos antes de dormir a se perguntar "já pensou uma menininha dormindo aqui com a gente?"


Desde que ele instalou você no meu ventre esse sorriso tão pouco assíduo foi ficando mais presente e duradouro. Um sol brilhante no rosto dele, um sol todo seu, filha, direcionado para essa lua cheia, crescente, luminosa, na minha barriga. Há meses, quando notamos você se expandir como uma semente que rompe a terra para cumprir seu destino de árvore, ele começou a conversar com você todas as noites antes de dormir. "Está quentinho aí, filha? Deve ser gostoso estar na barriga da mamãe! A gente está te esperando. Vai ser gostoso aqui também. Olha, a saída é por aqui!". Dizia ele apertando levemente meu baixo ventre. Outros dias ele contava algum acontecimento "Filha, hoje fizemos o ultrassom e vimos você!" ou ainda "Hoje a vovó veio aqui em casa e levou umas roupinhas suas para lavar". Também fazia muitas perguntas como se sua voz estivesse disponível para responder e fosse decifrável para nós "Já está dormindo, filha? Tá acordada?" e com as mãos ficava sentindo se você correspondia com algum movimento, como se você estivesse nos ensinando o seu alfabeto próprio que o deixava mais entusiasmado em traduzir "É mesmo? Acordou?" E olhava para mim, como se para confirmar que eu também testemunhava o fenômeno de um pai amar e se comunicar com uma filha que ainda não nasceu. Por vezes meu olhar ficava turvo de lágrimas. Enquanto te dizia em palavras, filha, ele me validava em silêncio, seu pai reconhecia em mim a mãe emanando carne, ossos, sangue, te nutrindo de vida e ele ali, nos nutrindo de amor. O seu pai tem tanto amor dentro de si, que ele se esparge em arte e em ciência, em música e em poesia, em presença e em abraço, em carinho e no sorriso dele. Meu pai, filha, o avô que você não vai conhecer fisicamente quando nascer, dizia que "era um sorriso capaz de iluminar uma sala toda".


Daqui uma semana será domingo de dia dos pais. Fico pensando se você vai querer passar essa data dentro de mim ou no colo do seu pai, se ele estará olhando seus olhos ou o meu umbigo e se estaremos sorrindo de amor ou de ansiedade. Você escolhe, filha!








17a Carta para minha filha

17a CARTA PARA MINHA FILHA

Uma das coisas que tenho aprendido nessa gestação é que, nós humanos, nos distanciamos tanto de nossa essência que precisamos do afeto, na conexão com outros seres, para nos aproximar de novo, não só do outro, mas da gente mesmo. Afinal o outro é apenas uma representação ou projeção do que somos por dentro.

Lembro que meu obstetra, Dr. @brauliozorzellaobstetra quando o questionei sobre a anestesia, me respondeu: “Há uma anestesia natural, que já falei pra você. Lembra qual é?” 
Pensei um pouco se era alguma medicina, fiquei tentando me lembrar, até que me surgiu a resposta: a doula! 
Uma outra mulher (em geral) que estuda o humano, a gestação e o parto e que fica disponível para nos ensinar ou nos lembrar da nossa natureza feminina e potente, sobrevivente e criadora, forte e transcendente...
Quando engravidei eu não tinha claro que ia querer uma doula profissional comigo. Para mim poderia ser alguém da família que se disponibilizasse a essa função, mas conversando com minha irmã @adelitaahmad que viveu 2 partos com doulas diferentes, ela me alertou que como minha irmã não se sentia capaz de oferecer o mesmo que uma doula. Nessa fase em que eu estava fazendo a escolha, primeiro internamente filha, a figura da @madhuri_oficial me veio à mente. Ao menos era uma pessoa conhecida, embora não tão próxima. Pesquisei outras pessoas que me indicaram. Até que somente mais para o final da gestação fui sentindo que minha escolha (ou sua, filha!) era a primeira e mais intuitiva: a primeira que me veio à mente. Então ela propôs alguns encontros comigo e com o Paulo, para nos alinharmos. Ela também é professora de yoga para gestantes e com ela aprendemos posições e exercícios para praticarmos juntos criando um repertório corporal ao qual poderemos nos remeter quando você resolver chegar, filha. Considero também muito preciosas as conversas que ela suscitou para nós como casal, o conteúdo de autoconhecimento e consciência do quanto você irá mudar nossas vidas, do quanto nos seremos outros ao sermos atravessados por você, e do quanto precisaremos restabelecer laços entre duas pessoas novas que nos tornaremos. 
(Continua) #cartasparaminhafilha





16a Carta para minha filha

16a Carta para minha filha

Enquanto publico as cartas que escrevo a você, filhinha, muitos corações nos acompanham. A sua mãe tem mesmo gosto por ser lida e partilhar o que sente. Além de te deixar esses vários símbolos de amor, cada carta também espalha pelo vento do mundo a conexão única que estamos criando mesmo antes de você nascer. Na carta anterior falei da nossa bagagem, que ao nascer já está um pouco cheia, nela trazemos também alguns segredos que aos poucos somos capazes de revelar a nós mesmas. Não são inventados, só mal compreendidos. São origens anteriores a nós. Veja só, filha, eu com esse prazer pela escrita e minha mãe cursou Letras. Eu com meu amor pela educação e minha mãe e pai são pedagogos. Jung, um homem muito admirado por nossa cultura, querida, e que deixou uma linda obra de pesquisa sobre o humano e nosso inconsciente (onde provavelmente esta bagagem se situa), tem uma frase muito boa que diz mais ou menos assim: “Nada influencia mais os filhos do que a vida não vivida de seus pais”. Todos os sonhos que eu não viver pode ser que sobrem como peso na sua bagagem. Preciso viver meus sonhos!

Porém não sei se Jung previu que podemos também ser escolhidos por almas que compartilham nossos sonhos. Acredito que de alguma forma escolhi assim meus pais, os que já amavam o que eu também amava, mesmo antes de mim. Como e por que será que você nos escolheu?🙏🏻💜 #cartasparaminhafilha

📸 @sitah_photoart





 #cartasparaminhafilha
📸 Sitah

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

15a carta para minha filha

15a Carta para minha filha


Como é sábia a natureza, filha!

A mulher tem 9 meses para tornar-se mãe. Um tempo de mergulho em si mesma. Acontece ou acontece. Algumas podem viver isso propositalmente com entrega e consciência. Quando não é possível existe o sono incontrolável que toma as grávidas. Não é só cansaço, é tempo para se assimilar internamente todas as transformações. O sono permite os sonhos, as imagens e histórias inverossímeis que formulam na alma o que precisa ser vivido ou revisto, revisitado. Também é comum que a gestante se torne mais seletiva, escolha melhor com quem irá encontrar, de quem irá se aproximar ou distanciar. Às vezes o distanciamento pode ocorrer mesmo de pessoas muito amadas, mas se alguma convivência não está trazendo amor e acolhimento, sem nem notar, a gestante se afasta, e não faz isso por si mesma, mas pela criança que carrega e que não pode se defender sozinha. É o instinto materno protegendo a cria. Não é incrível? 


Olhando para trás, nesses meses, filha, me percebi algumas vezes em conversas desagradáveis. Lembro que logo minhas mãos tocavam a barriga na tentativa de criar uma barreira para aquele conteúdo não atingir você. Também me notei mais caseira, querendo mais horas de descanso, sono, ou de lazer divertido e gostoso que fizesse bem pra mim e pudesse agradar você também. Acho que fiz essas coisas com pouca consciência e escolha, por isso celebro a minha natureza feminina que me guiou nessas direções. 


O mundo está evoluindo mas continua um tanto despreparado para compreender os processos internos humanos. Carregamos a bagagem do nosso passado e dentro dela a bagagem de todos nossos antepassados com as percepções deles, dores, mágoas, alegrias e belezas de todo o tipo. Essa hereditariedade está ainda mais presente na gestação, na maternidade e na paternidade, porque justamente estamos ampliando para mais uma geração que irá carregar a nossa bagagem. Quando abrimos essa “mala” de conteúdos inconscientes e procuramos compreender (o que implica nos compreender), damos a oportunidade de que o próximo carregue uma bagagem mais leve. Tenho tentado aliviar o tempo todo o peso da sua bagagem, filha.

📸 @sitah_photoart 



14a Carta para minha filha

14a Carta para minha filha

Já me sinto mais ansiosa, filha. Às vezes preocupada. Já estamos juntas há meses e parece que foram passos que você deu na minha direção. Ou na direção da minha vida. Você está prestes a bater na porta do meu mundo. Um outro, além desse que tenho sido pra você. Não temos hora marcada, previsão exata de chegada. Sua avó (@lauriav) diz que é como se você estivesse já com as malas prontas para a viagem, pode acontecer a qualquer momento. E abro o seu armário e vejo suas malas prontas mesmo, com suas primeiras roupinhas, suas mantas quentinhas, tudo separado com tanto amor. Você tem de tudo. Pequeninas coisas. E você me tem. Você tem a mim, você tem a seu pai, suas duas avós, um avô, (outro que pode estar guiando seu espírito com o afeto que inspirou a minha vida), tias, tios, primas... Somos a constelação na qual você vem brilhar. 
Ainda não conheço o brilho dos seus olhos, mas sei do brilho do olhar dessas pessoas para você. Já vi todos eles sorrindo e amando. Algumas dessas mãos já te acariciaram, distantes de ti apenas pela minha pele. Algumas vozes te disseram doçuras e lábios te dedicaram beijos e eu que recebi essas ternuras, filha, mas são todas pra você. Procuro guardá-las como a um tesouro, a herança mais valiosa que eu poderia deixar: o amor!
Ninguém em sã consciência troca amor por fortunas materiais. Pois nós humanos vivemos sem luxo, mas não sobrevivemos sem amor. Para viver precisamos do outro. Você nascerá dependente desse amor, do meu leite, dos meus olhos mirando os seus e eu me sentirei mais dependente de toda essa rede de pessoas para me amparar e me deixar inteira para tudo que desejo te dar. Para que não te falte meu amor espalhado em tudo que quero e preciso oferecer a você. Só da centelha desse amor nascerá a sua jornada, filha. 
💜
#cartasparaminhafilha
📸 Sitah Ji




quinta-feira, 2 de agosto de 2018

13a CARTA PARA MINHA FILHA

13a Carta para minha filha

São tantas lindas fotos com você oculta na minha barriga. Esta, de um mês atrás, com 34 semanas (acho!), e já me sentindo explodindo. Mas a gente vai e se expande mais. Viver já é ultrapassar limites, “maternar” é mastigá-los, bebê-los, até se constituírem naquilo que somos. 
Eu não tinha mais para onde crescer, mas você foi me impondo seu espaço, e toda mãe cresce por dentro o tamanho que se expande por fora. 
Estou aprendendo a me amar. Amando mais meu corpo, que carrega você, filha. Amando a barriga que sempre evitei mostrar. Agora, com você dentro, é a parte mais linda de mim. Também é a que seu pai mais se orgulha, sabia?
Ele diz para os amigos, quando estamos juntos: “você viu a barriga da Aline?”, como se estivesse mostrando a filha.  Ele sorri e ri enquanto conversa em voz doce com você todos os dias antes de dormir. Você sempre se mexia ao ouví-lo, mas agora tem ficado mais quietinha neste momento. 
Esses dias, em uma meditação, vi você com aproximadamente um ano, saindo de uma luz e caminhando na minha direção. Tão linda! Usava um vestido azul escuro, parecia jeans, andava como se tivesse aprendido há pouco tempo e vinha na minha direção. A medida que você caminhava eu a amava e admirava cada vez mais. Vi alguns traços da sua beleza... Os cabelos eram negros e lisos (será que serão assim?) Será que vi você ou era apenas uma projeção?
Em breve nos veremos do lado de cá e em algum tempo terei certeza se vi sua alma caminhar ou apenas se meu coração a imaginou. 💜
#cartasparaminhafilha


domingo, 29 de julho de 2018

12a CARTA PARA MINHA FILHA

12ª CARTA PARA MINHA FILHA


De que lugar do universo vem essa força, esse Ser que já me habita com suas vontades próprias e expressões? Parte de você filha, parece ter vindo de dentro de mim e de dentro do seu pai, assim demos origem a sua carne, ossos, sangue, sua matéria, o corpo com que viverá a aventura da sua vida no planeta Terra. Mas há também sua parte sagrada e etérea, sua alma sublime e potente, a música da sua existência, a essência do seu Ser. Acredito que não vem de mim, nem para mim, mas para o mundo. Para mim somente na medida que sou parte deste mundo, e que agora o represento, na esfera do meu útero: o mundo todo pra você. Sinto-a navegar nas águas do meu mar e do meu amar. Você ainda passará pela minha terra, um portal que dará você à luz. 

Por muitas vezes refleti sobre esse termo “dar à luz”. O parto é a primeira dissociação de nossos corpos em que sabiamente a nossa linguagem nos indica que eu a estou dando, mais que a recebendo. 


Preciso sempre me lembrar!


E quem te recebe é a Luz. Provavelmente esta, sim, a de onde realmente você veio. 


Seja sempre bem-vinda, filha, ao lar iluminado que te deu origem, de onde se preencheram de alma todos os seres, e todas as coisas belas e puras!


Bem-vinda! 

#cartasparaminhafilha

Foto: @sitah_photoart