quinta-feira, 19 de julho de 2018

10ª CARTA PARA MINHA FILHA

10ª CARTA PARA MINHA FILHA

Filha, nossa reta final, últimas semanas.
Um misto de sentimentos me toma. Uma alegria antecipa sua vinda com ainda mais abertura do meu coração. Tenho junto um pouco de cansaço, sono e também alguma tristeza. Talvez eu esteja começando a me despedir de mim. Um eu que nunca é assim tão verdadeiro quanto o que a vida futura é capaz de me oferecer. Despeço-me do que fui. Algumas fraquezas às quais estive apegada, vitimismo… Mas o país dos sentimentos é sempre confuso. Não se pode lê-lo com as ferramentas do mundo. Não há escola que ensine o seu idioma ou tradução. Então me sinto submetida a um mundo que não compreendo completamente e preenchida de um mundo novo que é você!

Ontem fomos na Bárbara para a segunda consulta com ela, a enfermeira obstetra, uma das pessoas da equipe humanizada que nos assistirá no parto. Enquanto escrevo essas palavras você se move no meu útero, como se soubesse sobre o que está por vir. Você sempre se move quando o assunto é parto, seja se sou que quem fala, ou se sou eu quem ouve. Estamos juntas nessa! 

Na primeira consulta a Bárbara me fez uma série de perguntas que eu considero importantes. Pois o que vivemos no passado pode delinear nosso futuro, sabia, filha? No passado eu fui uma criança como você, na barriga da minha mãe e a Bárbara quis saber como eu saí de lá, o que eu ouvi da minha mãe sobre esse parto, o que minha mãe viveu depois com os partos das minhas irmãs, como foi para ela. Olha que forte, filha, as minhas experiências e o meu discurso tem o poder de determinar suas percepções de mundo, assim como fizeram os sentimentos a absorções da minha mãe comigo. Quando falo e relembro isso tudo, tomo consciência, trago para um campo mais claro o que eu sou e o que estamos vivendo. Com mais clareza surgem as escolhas que podemos fazer, pois no planeta há milhares de pessoas vivendo automaticamente, sem fazer uso das escolhas ou sem tomar consciência sobre si mesmas. Eu já fui uma dessas pessoas, e nada me impede de voltar a ser. A verdade é uma prática. A verdade é movimento. É um rio. Não é uma água parada. Só se mantem a existência da verdade quando a deixamos correr para o mar. Somos assim também, feitos de água. É no movimento constante de auto-observação que somos capazes de conhecer quem somos e retomar a consciência que perdemos constantemente neste mundo nebuloso que chamamos: realidade. Nós criamos a realidade. Cada um cria a sua. E, fatalmente, a mais forte e primeira influenciadora da nossa “fantasia” é a mãe. Para mim foi a minha mãe, sua avó. Para você serei eu. Muita responsabilidade. Por isso preciso me despedir de mim. A natureza já faz isso. Nem sempre somos capazes de perceber. Mas para nascer a sua vida uma morte mais profunda que a física está prestes a acontecer. É comum que na última fase do trabalho de parto as mulheres se remetam à morte: “Eu vou morrer!”ou "Estou morrendo” ou ainda “Não quero morrer”, essa morte metafísica antecede o nascimento dos filhos. Nasce também a mãe e o pai. 

Na consulta de ontem minha principal preocupação era se a sua cabeça já estava na posição, passei dias de ansiedade pensando nisso, com algum medo… Conversei com você, pedi, mas somente quando a Bárbara me examinou e confirmou que sim, você já tinha virado a sua cabeça e o seu corpo no sentido correto e que dificilmente isso mudaria daqui pra frente senti vontade de chorar de emoção, segurei as lágrimas por timidez, e só então percebi o quanto de sentimento eu estava acumulando... Eu não queria que a consulta acabasse mas apesar da disponibilidade dela eu não tinha mais muito o que perguntar. Já tinha perguntado de tudo que me veio à mente e ainda me faltava espaço para falar um pouco mais. Fui adentrando um lado meu que oprimo, embora não pareça, eu evito chorar ou expressar minhas verdades. As verdades mesmo eu escondo até de mim mesma, principalmente as dores, mas eu não quero que seja assim pra você. Porém não está sob meu controle. Eu só tenho a mim para transformar… O melhor que posso fazer por você é buscar a cura de mim mesma. Eu busco, filha, busco. 🙏🏻💜🙏🏻

Aline Ahmad🧚‍♀️ (na foto com minha mãe Avanil Ahmad. O vestido foi um presente dela, feito pela mesma estilista que fez um vestido para ela quando estava grávida de mim, a Helenice Barreto. Inspirado no modelo da minha mãe de 1979, ano em que eu nasci)


domingo, 15 de julho de 2018

O portal da mãe

Cada criança que chega traz a sua luz para iluminar o mundo. A mãe é o portal que entremeia os mundos. É como o nascer e por do sol no limiar do dia e da noite. Pela passagem pelo corpo (e alma) da mãe — e de forma muito mais sutil, do pai também — chegamos ao planeta imantados e somos “animados”, no sentido de preenchidos de nossa própria alma, conforme recebemos o sopro do amor, do reconhecimento e  da atenção dos que estão ao nosso redor. Como soprar a vida em um bebê sem estarmos nós mesmos preenchidos da nossa alma?

Antes de ser esse portal eu precisei buscar a mim mesma. E somente no momento último, quando a energia de uma criança pousou no meu útero, foi que eu realmente me senti preenchida. Como se concebê-la e gestá-la fosse o artifício que faltava para tornar-me eu. Ela também tem me soprado a vida, preenchido meu corpo e me permitido ser sagrada. 


Foto: @sitah_photoart 



O portal da mãe

Cada criança que chega traz a sua luz para iluminar o mundo. A mãe é o portal que entremeia os mundos. É como o nascer e por do sol no limiar do dia e da noite. Pela passagem pelo corpo (e alma) da mãe — e de forma muito mais sutil, do pai também — chegamos ao planeta imantados e somos “animados”, no sentido de preenchidos de nossa própria alma, conforme recebemos o sopro do amor, do reconhecimento e  da atenção dos que estão ao nosso redor. Como soprar a vida em um bebê sem estarmos nós mesmos preenchidos da nossa alma?

Antes de ser esse portal eu precisei buscar a mim mesma. E somente no momento último, quando a energia de uma criança pousou no meu útero, foi que eu realmente me senti preenchida. Como se concebê-la e gestá-la fosse o artifício que faltava para tornar-me eu. Ela também tem me soprado a vida, preenchido meu corpo e me permitido ser sagrada. 


Foto: @sitah_photoart 



sábado, 14 de julho de 2018

9a CARTA PARA MINHA FILHA

9a CARTA PARA MINHA FILHA

Meu amor, os meses de gravidez são longos para a sua espera mas curtos para que eu consiga preencher com tudo que gostaria. Eu me sinto ligada à você. A sua presença também me preenche de mim, da vontade de me presentear sendo mulher e viva, sendo encantada e bela. Encantada por esta outra vida impregnada no meu corpo e na minha alma. Só mesmo o encanto da matéria concebe a mágica deste mistério em que um outro corpo é gestado no interior do meu. O fenômeno se repete em toda parte e ainda deslumbra. É como a natureza, o sol nasce e se põe, as sementes se tornam árvores, os animais geram filhotes, a poeira na ostra converte-se em pérola, e você, fruto de um profundo amor, se tornará uma mulher! Minha filha!


Eu não tenho mais buscado por seu nome, nossa relação está selada pelo encontro da mãe que sou para você, e da filha que você é para mim. Sinto que os outros vão te chamar pelo lindo nome que surgir dos seus olhos e do seu respirar. De alguma forma espero saber decifrar sua linguagem e em seu  lugar pronunciar sua palavra-identidade. Mas enquanto tantos o usarão, você continuará sendo para mim: filha, minha filha. Ainda que jamais venha a me pertencer, mas “minha” como Saramago escreveu, no “Conto da Ilha Desconhecida”: por ser amada. Afinal amar deve ser a melhor forma de ter, e ter deve ser a pior forma de amar. Não pretendo te ter, mas você será minha pelo amor que nos liga uma a outra. E eu sua, sua mãe. Para sempre!


O encanto você me trouxe e a beleza, pela qual me sinto penetrada nesse estado gestante, foi registrada em um ensaio da artista e fotógrafa @sitah_photoart 

Veja também: @sitah_fineart 

Assim me presenteei, filha, repleta de você e de mim!💜🌷💜




terça-feira, 3 de julho de 2018

8ª CARTA PARA MINHA FILHA



(Escrita inicial em: 27/5/18)
Filha, recebi uma mensagem arrebatadora da sua tia:

“Line quando puder converse e conte pra ela de mim.... talvez ela não saiba de mim, que estou longe. Mas to pensando nela daqui”

Ela ainda colocou uma carinha chorando e corações na mensagem. Ler aquilo me fez chorar, filha, pois temos uma ligação muito forte e próxima e foi como se eu compreendesse os sentimentos da minha irmã, mesmo longe de mim, principalmente agora que estou grávida de você. A sua tia esteve presente nos momentos mais importantes da minha vida. Então resolvi te escrever sobre irmãos. Essa tia, a Andreza, ou tia Deza, foi a minha primeira irmã. Depois nasceu a Adelita. Seu pai também tem uma irmã maravilhosa, a Marília. Não tenho dúvida de que você amará todas elas (como eu também amo), irá aprender com elas, ensinar o que só seu espírito sabe, e ser muito amada. 

Eu, como você, fui a primeira filha dos meus pais. Seu pai também foi o primeiro filho. Só que, diferente de nós, pode ser que você não venha a ter uma irmã ou irmão... Então preciso mesmo te contar o que significa isso. 

Eu não me lembro dos fatos, mas lembro do que eu senti. Eu tinha 2 anos e meus pais só para mim. Os pais são tudo na vida da criança. Tudo mesmo. O mundo todo. E me emociona pensar que já sou isso pra você. Todo seu entorno, e que continuarei sendo por algum tempo após você nascer. Todas as suas referências e inspirações vão vir desse lar, no início principalmente da nossa relação, e em segundo plano de como você enxergará seu pai e nós, a nossa família. As experiências que viver com a gente construirão as suas crenças e elas serão para você as suas verdades sobre o mundo todo. Forte isso! Assim era na minha infância. Até que meses após completar 2 anos a tia Deza nasceu. Foi como minha primeira tragédia, filha. Eu lembro do sentimento. Como se uma dor profunda tivesse me atravessado. Eu, com 2 anos, não sabia elaborar ou compreender aquilo. Já mais velha, lembro que meus pais contavam que a tia Deza era a bebê mais linda da maternidade. Grande, saudável, loirinha... Que todos queriam conhecê-la. Se assim foi na maternidade, imagino que também assim tenha sido na vida. E imagino que tenha se repetido um ano e alguns meses depois, com o nascimento da sua outra tia, Adelita. Ambas eram lindas e loirinhas. Meus cabelos eram mais escuros. Não sei, mas fiquei com a impressão filha, de que no Brasil, por ser menos comum os cabelos mais claros, achei que as crianças loiras eram mais amadas. E é assim mesmo que construímos nossas “meias-verdades”, concluindo bobagens a respeito de experiências vividas. Sobretudo as experiências de dor, e tentando encontrar explicações plausíveis para os nossos sentimentos. Aliás, talvez eu devesse dizer: para os nossos sofrimentos. Lembro da sensação de ter sido deixada de lado, de não receber atenção, não só dos meus pais, mas de todo o mundo em volta. Quase como se eu tivesse me tornado invisível e todos que chegassem na casa, ou perto da nossa família, de alguma forma, só tivessem olhos para elas. Chamamos os olhos do corpo de “janelas da alma”, é por onde podemos penetrar no universo interno do outro. Eu diria que os olhos são também uma fonte límpida de onde a alma pode ser jorrada para fora, para alimentar os outros de amor e atenção. Eu precisava desta fonte. Todos em algum nível precisamos ser vistos, notados, percebidos. É como se de fora recebêssemos um sopro sagrado que nos preenche de vida, confiança e amor, através do olhar do outro para o nosso Ser. 
Com o tempo e maturidade vamos descobrindo que essa fonte não está fora, é apenas a expressão do que trazemos dentro. E eu, filha, acredito que essa construção interna, ou o caminho para chegar à sua própria luz, pode ser mais suave se desde o início dos seus dias eu souber proporcionar boas impressões suas sobre o mundo, sobre mim, seu pai e, principalmente, sobre si mesma. 🙏🏻💜 
Bom, acabei me aprofundando um pouco e deixando de contar sobre as minhas irmãs, filha, suas tias. Elas foram um sopro sagrado que me preencheu de vida e de amor. Ainda que tenha me custado algum sofrimento, foram as cúmplices da minha infância, as testemunhas e coprotagonistas de tudo que vivemos juntas. Foram sobretudo minha maior alegria e doçura. Lembrar disso cura as feridas. O amor foi infinitamente mais amplo, se expandiu com a chegada delas. Então filha, caso você não tenha mesmo irmãos eu sinceramente torço para que você edifique relações análogas com primos e amiguinhos. Nunca será a mesma coisa. Mas isso não importa. Até porque eu preciso aceitar que é a sua vida, não a minha, e que é única. O seu caminho não está completamente sob meu controle, nada está, mas é minha responsabilidade oferecer o meu melhor a você. Eu me entrego em cada carta e espero pelo nosso encontro procurando me comunicar com você nessas palavras. 


sábado, 23 de junho de 2018

7a carta para minha filha

Você vivia pequenininha escondida na minha barriga que demorou a ficar arredondada e vistosa. Nem percebiam que eu estava grávida de uma luz tão brilhante como a que você é e que me ilumina por dentro. Eu procurava no espelho todos os dias e parecia que jamais o seu tamanho teria as proporções que os olhos das pessoas poderiam captar. Mas, de repente, de uma semana para outra, como de um dia para outro, não sei ao certo quando, a minha barriga foi crescendo de tal forma, que você ficou evidente. O porteiro que eu sempre comprimento mas nunca tinha falado sobre você se manifestou: “Pra quando?”

A recepcionista da academia (que me vê praticamente dia sim, dia não) me falou: “Nossa! Como está grande!” E o seu pai, filha, passou a conversar, cada vez mais, diretamente com você. Diretamente e diariamente. É a cena mais linda do meu dia. E você responde se movimentando. Eu também adoro a voz dele. Parece que nosso gosto é parecido, filha!

Para que saiba como está sendo tudo para mim: tenho pensado muito no nosso encontro aqui fora. No parto. Na equipe médica que vai te nos assistir e cuidar de mim, nos exames e consultas que ainda faltam e nas coisas que eu gostaria de fazer mas que não sei se acontecerão em tempo... Eu queria um dia de bênçãos, com os amigos próximos, para criarmos uma rede de pessoas para te receber. Um núcleo amoroso e terno. 🙏🏻💜 Eu queria encomendar lembrancinhas para dar às pessoas que amo e que quero que estejam por perto a partir do seu nascimento. Queria já ter definido seu pediatra (marquei uma consulta), a minha doula (está quase!) e a decoração do seu quarto. Ao mesmo tempo que sinto que as coisas práticas estão atrasadas, o meu coração não está distraído com tantas tarefas e está tomado do perfume inebriante da sua alma. É como se você não se importasse com nada disso... É como se você me perdoasse o desleixo ou descuido com a matéria e compreendesse a minha essência etérea, um pouco (ou muito!) aérea, que está com você o tempo todo. Sinto que cuido de nós em um outro nível, invisível e intocável pelos outros, um mundo imaginário e vivo, de candura e poesia. Lá caminhamos agarradas e acolhidas, eu por você e você por mim. Ninguém nos vê, mas nos sentimos assim, ainda um pouco misturadas e parte uma da outra. Pelo menos até você nascer! 

Não  sei quantos anos levaremos para ser duas, depois de tão intensamente sermos uma 💜

(23/06/2018, 6:19 AM)



domingo, 10 de junho de 2018

Quem não quer ser amado?

#30semanas

O que estou sentindo? 

Alegria, com a gravidez. Sensibilidade, com o mundo. 

Continuo querendo ser gentil. Mas continuo querendo gentileza também. 

Continuo querendo oferecer amor ao mundo, mas para dar precisamos ter. Às vezes estamos frágeis, já se sentiram assim? Às vezes não temos para dar e a solução é se recolher e se preencher do amor do nosso próprio coração. No fundo ainda quero mais ser amada do que amar. Quem não quer ser amado? 

Somos condicionados a acreditar que para sermos amados temos que fazer isso ou aquilo, ser de um jeito ou de outro (cada um inventa suas regras e as toma como verdades). Às vezes até alcançamos algum grau de admiração. Mas essa não vale... Não preenche. Porque foi preciso muito sacrifício para conquistá-la. Não foi espontâneo. Então é como se não nos tivessem amado pela nossa verdade. Se ficarmos relaxados sendo nós mesmos, seremos amados? Ou ser amado requer um esforço nosso? Se decepcionarmos, seremos perdoados?


Não sou perfeita. Sei que a maternidade vai me mostrar isso ainda mais, como também é provável que vou me cobrar ainda mais... Eu tenho muitos defeitos e acho mais saudável reconhecê-los que apontar os defeitos dos outros. Só assim sou capaz de aprender. 

Já falhei como amiga, como filha, como sobrinha, como chefe, como irmã... As pessoas criam expectativas sobre nós, sobre como devíamos ser ou fazer. Também fazemos isso com os outros. 

Sem nos comunicar fica difícil esclarecer qual a expectativa que estamos ou não atendendo. Isso se chama feedback. 

Como falei no início, estou grávida, sensível, procurando me resguardar e resguardar a minha filha. Para completar fui diagnosticada com uma pneumonia benigna, um vírus (metapneumovirus) que às vezes me abate (ou será um abatimento emocional? Ou natural da gravidez?) Tudo isso para que você leve em consideração meu estado e também pontue o seu. Pois é a partir do nosso estado que nascem nossos pensamentos, palavras, sentimentos e ações. E, mais importante, peço que me passe abertamente por aqui ou no privado o seu feedback sobre mim, me apontando se decepcionei você (já peço desculpas antecipadas) e como posso ser melhor que sou🙏🏻💕


(Escrito em 4/6/2018)



6a Carta para minha filha - Vim neste corpo

CARTA PARA MINHA FILHA

Vim neste corpo conhecer sua alma e forjar o seu. 

Vim desconhecendo esse destino escrito com a mão de Deus. 

Vim de desertos, tecelagens, estaleiros, gerações de antigas mulheres

Vim ser sua mãe! A que costura seus ossos, sangue e carne, e tece o seu pensamento com o que sinto. 

Vim ser sua morada quente, redoma viva de água transparente. 

Vim caminhando sem saber, constituindo o meu próprio ser para alcançar a dignidade de receber você. 

Somente quando estive minimamente em mim é que pude ser preenchida por sua vida. 


Há meses que a alimento e a sonho. Que sinto seu mover e me emociono. 

Há meses que sou habitada por uma outra luz que mal posso conter. 


Recebo o amor do mundo às gestantes, como se estivéssemos grávidas de um sonho comum a todos: o novo que virá!


Você é este novo que não me encerra. 

Sou o portal de tudo que é efêmero para você. 


E você o meu portal para tudo que é eterno na matéria. 


Hoje você vive em mim. Amanhã eu que viverei em ti. 


(Aline Ahmad)


9/6/2018






sábado, 2 de junho de 2018

9 anos com você, Paulo!

Há 9 anos eu estava me preparando para te encontrar em Seattle. (E você para me receber)
No dia 3 de junho eu cheguei no aeroporto de Tacoma e você me esperava com um buquê enorme, a sua bermuda preferida (que anos depois você deixou na tribo Yawanawa) e seu mesmo sorriso encantador. 
Havíamos nos prometido um abraço de um minuto, mas eu ainda estava tímida perto de você. Você não. Você queria ficar bem perto de mim logo de cara, parece que nem me estranhou depois de tanto tempo. 

Com certeza este foi um dos dias mais felizes da minha vida. E um dos mais lindos também. Que dia lindo estava fazendo!(Como não ter escrito um livro para contar esta história?)

Horas depois, quando eu estava em seus braços e você em mim (e de onde não saímos desde então), você me pediu em namoro. 

Em 3 de junho de 2009...


sábado, 26 de maio de 2018

5ª carta para minha filha

5ª CARTA PARA MINHA FILHA 


Oi, meu amor!
Nesta carta quero te falar sobre ser mulher. 
Dizem que em algum momento, nos primórdios da humanidade, a mulher tinha status de deusa nas comunidades e tribos primitivas. O único ser capaz de gerar vida! De seu corpo saíam as crianças para embelezar o mundo e dar continuidade aos tempos. O homem ainda não tinha se dado conta de sua parte no processo. A impressão era de que a vida era gerada sozinha, pela mulher, pois os povos eram nômades, selvagens, e não se considerava a influência de um ato acontecido 9 meses antes ao nascimento do bebê. É por isso que dizem também que a mulher é mãe milhares de anos antes do homem se perceber pai. (Ao que me parece um caminho cujo os homens, em geral, ainda estão trilhando e evoluindo a cada geração, assim como nós mulheres também o retomando com consciência). Até que surgiu a agricultura, os povos passaram a não se deslocar e o homem viu a concepção gerar uma barriga e depois uma criança, até de alguma forma concluir, “esta criança quem gerou fui eu”, ou “eu sou o poderoso gerador da vida”. Acredita-se que a partir disso uma história de desrespeito com o feminino pode ter se iniciado. O masculino tomou o poder. Historicamente conhecemos poucas mulheres, a história da humanidade, a ciência, é contada, em grande parte, pelos homens... Em passos muito pequenos nós mulheres vamos conquistando o nosso espaço na sociedade.  
Você, minha querida, vai nascer em ano de eleição, quando as pessoas têm o direito de escolher seus governantes, os líderes que irão nos representar por alguns anos no comando do país e dos estados. Mas veja só, não faz nem um século que as mulheres conquistaram o direito de igualdade de voto no Brasil. Foi em 1932. Talvez pareça bastante tempo para você, mas a avó do meu pai, que eu conheci, foi uma mulher que viveu nesse Brasil em que somente os homens tinham o poder sobre as decisões públicas. Esta conquista aconteceu um pouco antes para as finlandesas, em 1906. Já para as sul-africanas somente em 1993, quando a mamãe já era uma adolescente de 14 anos. Ao passo que para as árabes (da Arábia Saudita) somente em 2011. Com essa comparação parece que este país é um pouco menos hostil com as mulheres, porém tudo que se passa no planeta é sentido por nós de alguma forma. Estamos ligadas a todas as mulheres do mundo, ao feminino invisível, e também aos homens, que são gestados por mulheres e que, de alguma forma, não conseguem quebrar o poder da cultura, dos costumes, que ainda depreciam o valor do feminino. Estes e outros acontecimentos, filha, estão cravados na carne, no sangue, no DNA humano. Somos descendentes de barbáries e temos na alma o sentimento do que mulheres e homens viveram em todas as eras planetárias. Estamos conectadas a esses sofrimentos mas também à violência que foi (e é) praticada por humanos como nós. Em qualquer lado é sempre alguém como nós. Não podemos esquecer disso. Mas eu quis te contar sobre as mulheres, a condição em que nascemos, para te falar de um homem que eu tenho admirado e que tem me lembrado muitas vezes sobre o meu próprio poder (eu me esqueço, filha, eu e tanta gente em volta!). É o médico que escolhi para “assistir” o seu (nosso!) parto. A cada consulta pequenas coisas que ele diz me tocam profundamente. Há uma beleza em estar diante de um homem que realmente compreende e sente tudo que estou tentando te explicar sobre a condição feminina. Confesso que sou filha de uma cultura muito machista. A linhagem de mulheres da nossa família (pelo menos as que conheci, sua bisavó, sua avó, e eu, sua mãe), crescemos e fomos educadas em uma cultura de valorização do masculino, como se fôssemos um pouco menos capazes que os homens. É uma história que se repetiu por muitas gerações em nossa família, então eu diria que está impregnada. Impregnar vem do latim “impregno”, que significa um corpo penetrar em outro. Veja só a nossa linguagem, meu amor, “grávida” em inglês é “pregnant”. Eu estou impregnada de você. E você já nascerá grávida, impregnada, de muito do que estou te contando. 
O seu pai também nasceu nesta cultura, influenciado por um inconsciente coletivo que valoriza mais o masculino. O lado bom disso foi que nos encontramos e nos apaixonamos envoltos por algumas dessas distorções sobre o masculino e feminino mas ficamos anos nos relacionando e procurando nos “limpar” de tudo para ficarmos mais puros para você. Totalmente isso não é possível, pelo menos não foi ainda, no nosso caso. Mas eu observo que caminhamos e que a sua chegada e o fato de você trazer esse DNA feminino irá contribuir no nosso aprendizado a respeito do que é ser mulher e de como uma mulher merece ser tratada, respeitada e amada como um ser divino (não que os homens também não sejam, este é um merecimento humano, que se estende aos outros seres vivos que partilham o mundo conosco). 
Mas voltando a falar do nosso médico, o Bráulio. Ele trabalha com uma equipe de pessoas comprometidas em oferecer segurança, bem-estar, conforto, para a mãe e para o bebê que vai nascer. Nos partos naturais é a criança que escolhe a hora, então todos precisam estar disponíveis 24 horas para atender essa demanda. Por isso é importante que seja uma equipe, uma rede de apoio. Durante a gestação o Bráulio terá um período de férias e nós gostamos tanto dele que papai quis perguntar “mas você que vai fazer o nosso parto, né?” Para se certificar de que ele teria voltado e não delegaria isso a outra pessoa. Então ele respondeu: “Eu não, quem vai fazer é ela” e apontou para mim, filha, e depois confirmou “mas eu estarei com vocês para acompanhar”. Foi a primeira vez que eu estive diante de um homem, médico, consciente do poder da mulher ao parir um bebê. Deveria ser óbvio, mas nossa cultura é tão distorcida que parece que quem dá à luz a criança é o médico. Acredito que o Bráulio amadureceu como homem (e pôde ficar mais consciente) pela experiência nos mais de 100 partos naturais que ele assiste por ano... Ele viu muitos bebês, mães e pais nascerem da forma mais natural que existe: sem intervenção. Isso deve gerar uma baita fé na natureza, na vida. Medicina e técnica vem depois, para complementar o que a natureza deixou belo e pronto. 
Na consulta desta semana eu saí para ir ao banheiro e quando voltei seu papai estava comentando que ouve dos amigos médicos (educados dentro da cultura da cesárea, que é uma dádiva necessária para a segurança de uma minoria de mães e bebês, muito importante e que eu celebro que exista, pois salva muita gente), ao saberem que escolhemos tentar o parto natural, que a cesárea é o parto mais seguro para o bebê. E o Bráulio comentou: “Então quer dizer que seus amigos médicos querem dar palpite nos procedimentos que serão usados no corpo da sua mulher, na escolha dela para o nascimento da sua filha, é isso?”
Obviamente eles não fazem isso por mal. Eles apenas seguem a cultura de desrespeito ao feminino. O poder está na mão da medicina, da técnica (às vezes médicos, às vezes médicas, hospitais) e acredita-se que a própria mãe, grávida da vida, não sabe o que é melhor para si e para o bebê. Velada está uma violência que atinge o corpo da mulher, sua natureza parideira e suas escolhas. Eu mesma já fiz parecido em outras situações. Porque trabalho com educação muitas vezes me intrometi dando conselhos sobre como criar uma criança. Então para mim a fala do Bráulio foi uma lição de consciência, de alguém que está consciente de alguns absurdos que cometemos sem perceber, do quanto somos violentos e invasivos disfarçados de amorosos. 
Celebro, minha filha, que além do papai, ele será um dos primeiros homens que você irá conhecer quando estiver fora do meu corpo. Que você possa ter gravado em sua memória essa integridade com nós mulheres. Confio muito nele, mas torço para que possamos ser nós duas (e papai como coadjuvante) as protagonistas do seu nascimento. Vai ser a nossa dança de amor, a coreografia mais mágica e única de dois corpos entrelaçados, que marcará o seu momento de nascer mulher e o meu momento de nascer mãe, sua mãe!
Aline Ahmad
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*quero deixar claro que não estou dizendo o que é melhor para o corpo de nenhuma mãe ou mulher. Sonho com a liberdade de cada uma poder se informar e escolher. O parto natural é a minha escolha por enquanto e é possível para 80% das mulheres com segurança. A medicina consegue identificar quem são os 20% (ou 15%), que bom! Se eu não fizer parte dos 80% aceitarei com amor a oportunidade de dar à luz com a cesárea. Mesmo assim quero muito viver a experiência do trabalho de parto. Esta é a minha vontade. Infelizmente minha filha ainda não pode responder a vontade dela. Vai ser o conjunto das nossas vontades que vai possibilitar o que irá acontecer. E a equipe estará a postos para garantir a segurança das nossas escolhas ou para reconhecer a escolha da minha filha com os aparatos disponíveis que a medicina dispõe, caso a minha intuição erre, por exemplo. Há aparelhos para medir a frequência cardíaca do bebê o tempo todo, se for necessário, e detectar qualquer risco. Deixando claro que as dificuldade acontecem no máximo para 20% das mães e dos bebês. Todos os outros casos não necessitam de nenhuma intervenção. Isso é um  dado científico que arredondei para mais, importante ser levado em conta. 

*esta carta foi escrita há algumas semanas mas a foto tem apenas uma semana e minha barriga já cresceu de lá para cá. Tirei a foto no domingo 13/5/2018, entrando nas 28 semanas

domingo, 20 de maio de 2018

3ª carta para minha filha

3ª CARTA PARA MINHA FILHA
Filha, ainda não comprei nenhuma peça de roupa para você, nem iniciei a decoração do seu quarto. Ainda não soube escolher seu nome (como é difícil escolher algo tão importante que te acompanhará pela vida toda e se misturará com a sua identidade!) 

Mas, filha, parece que me preparei a vida toda para a sua chegada. Estou preparando meu coração. Tenho aberto espaço dentro de mim. Tenho pensado em você. Leio histórias ou canto para que me ouça. Leio livros de educação para me preparar. Leio poesia e literatura. Leio o que me encanta. E assim cuido de mim com você dentro. 

Tenho ficado mais saudável com atividades para o meu corpo e para o nosso momento mágico: o trabalho de parto. Você é uma motivação que me presenteia. Faço por você coisas que não faço por mim e de alguma forma você me ensina a também fazer por mim mesma. 

Sinto que você está feliz no meu corpo. Está?

4ª carta para minha filha

4ª Carta para minha filha

Desde que sua chegada no meu ventre se aproximou algum fatos extraordinários tem acontecido. Recebo “sinais” da sua vinda há mais de 2 anos. E tenho a sensação de que você me acompanhou durante todo este tempo, aguardando o amadurecimento do papai e da mamãe e a abertura do nosso coração para você. Agradeço por ter nos escolhido e por esperar tanto. Uma mãe espera 9 meses (talvez a vida toda), mas você também estava me aguardando há anos.

O primeiro sinal
Em 2015 sua mamãe (eu) passou por processos bem fortes, alguns deles foram literalmente iniciações espirituais com um mestre muito amoroso e sábio, chamado Prem Baba. Essas iniciações aceleraram o amadurecimento e o acontecimento da VERDADE. Tudo que não era verdadeiro foi desmoronando, caindo, e somente ficou o que era puro e transparente. Foi uma grande limpeza. Com isso até mesmo parte do relacionamento da mamãe e do papai foi comprometida, chegamos a pensar que não suportaríamos olhar-nos de frente sem tudo que havia caído de nós. Foi difícil, doloroso, mas ao mesmo tempo havia muita guiança e muita força ao nosso lado naquele ano. Lembro de tudo como se eu estivesse sendo carregada por mãos muito poderosas, inclusive as minhas próprias.

Com tudo isso pedimos uma conversa com nosso mestre, pois nos sentíamos perdidos com as novas perspectivas que estavam se abrindo em nosso relacionamento. Inclusive com a possibilidade de não caminharmos mais juntos.

Estávamos em Alto Paraíso, durante uma temporada em que ele recebe seguidores, devotos e pessoas de diversas partes do mundo para estar em sua presença e aprender com seus ensinamentos. Ele conseguiu nos receber para uma conversa em seu singelo chalé. Na entrada há um pequeno jardim com delicadas flores e assim que entramos o vimos sentado próximo a uma janela, de onde raios de claridade faziam moldura em seu corpo. Sentamos diante dele e a primeira coisa que nos disse foi: “Vocês não pensam em ter filhos?”

Filha, esta era uma ideia ainda distante para nós, já havia passado pela cabeça, claro, respondemos que ainda não sabíamos, que estávamos estudando... Mas na ocasião eu não tinha dado o real valor de uma pergunta como esta, vinda de um mestre espiritual. Eu estava muito perdida em outras questões. Mesmo assim depois de toda conversa, conforme o tempo passou, aquela pergunta foi a frase que ficou mais viva em mim daquele encontro. E foi a questão com a qual passei a conviver em diversos momentos (alguns mais conscientes, outros menos) até a sua chegada. Foi apenas o primeiro sinal. E hoje eu tenho a impressão de que ele viu ou sentiu sua presença com a gente naquele dia, e que por isso fez a pergunta. Será mesmo que você já me acompanhava?

O segundo sinal
Mais de meio ano após esse encontro eu fui para um retiro com meu guru. Era maio de 2016. Meu coração estava repleto de dúvida sobre a maternidade. Eu não me sentia preparada. E minha alma já sentia a sua presença, minha querida, era como se você já me pedisse passagem. Ele sempre alertou em seus discursos sobre a importância de exercer a parentalidade com consciência e responsabilidade, de identificar se a experiência seria parte de um programa da alma e não apenas um impulso social e automático.  Isso me trazia mais dúvida. Eu não me sentia sensível o suficiente para reconhecer a minha programação. Escrevi a ele uma pergunta, contando sobre nossa dúvida (minha e do seu pai). Ele respondeu genericamente primeiro, mas depois especificamente pra mim:

“(...)Hoje eu sinto que você está recebendo essa clareza, a guiança divina, eu sinto que você pode realmente fazer diferença pra cuidar de uma criança. Pode ser uma grande experiência. Um grande sadhana. (...)
Se isso está realmente vindo, pergunte para o Universo, peça um sinal, um sinal claro. E se vier, ok, é hora de viver esta experiência”

O terceiro sinal
Segui o que meu guru tinha falado. Quando eu e seu pai estávamos a caminho de um trabalho espiritual importante para nós eu resolvi, mentalmente, pedir por um sinal.  Assim que fiz o pedido o carro fez uma curva na estrada e bem diante de nós surgiu uma galinha com muitos pintinhos atravessando a pista. Ela parecia feliz e orgulhosa com suas crias. Aquela cena tão clara me emocionou muito. Seu pai, que é tão doce e sensível, logo disse: “que lindo! Que linda essa galinha com os pintinhos”, e eu ainda fiquei em silêncio. Eu esperava que o sinal fosse acontecer quando chegássemos, durante o trabalho espiritual. Não esperava algo tão imediato.

Na volta contei para o seu pai. Ele sorriu. Nunca esqueci e nunca vou me esquecer deste sinal.

O quarto sinal
Estava tudo tão claro, mas eu não via, filha. Eu tinha bastante medo de não ser uma boa mãe para você. Ou de não gostar de tudo que mudaria em minha vida. Peço perdão por minha falta de coragem. Mesmo com tantos sinais... Cada vez mais eu me sentia recusando um chamado da minha alma. Eu reconhecia que nos meus momentos de inteireza e segurança o que eu mais desejava era receber você. Mas eles passavam. Esse mundo tem muitas distrações, nem sempre estamos próximos de quem realmente somos. Quero poder te apresentar todas as coisas sem interferir na sua pureza, mas já sei que é praticamente impossível viver por aqui sem construirmos um ego, que difere de nós. Nós o construímos para que em algum momento possamos abandoná-lo. Até lá nos confundiremos com ele... Eu sempre fui sua mãe. Mas estava confundida com alguma outra coisa construída no meu ser. Nos meus momentos de sensibilidade a maternidade me preenchia de amor. Como neste momento você preenche meu corpo com o seu.

O que estou chamando de quarto sinal são as muitas pessoas que sonharam com você antes mesmo da concepção. Todas mulheres. Algumas em sonhos em que eu aparecia grávida, outras me viam carregando uma recém-nascida. Quando elas me contavam eu logo ativava minhas ferramentas mentais e pensava que o sonho tinha mais a ver com a pessoa do que comigo. Agradecia pelo fato de representar para ela um símbolo, e respondia que provavelmente algo novo estava para acontecer para ela e que o meu aparecimento no sonho, grávida, estava simbolizando isso. Eu me arrependo muito de não ter anotado esses sonhos, as datas e as pessoas, mas assim que você chegou eu busquei reencontrá-las e pouco a pouco localizei algumas.

Além dessas mensagens que consegui registrar, tem também uma pessoa que engravidou bem próximo de mim mas que antes disso havia sonhado que ficaríamos grávidas juntas, a Fabiana. Com ela são 7, mas tenho memória de no período de uns 2 anos ter ouvido de aproximadamente 20 mulheres sobre sonhos como esses. Eu estava distraída, filha, nem cogitava que estes também eram sinais.

Isso sem contar as amigas que me viam como a mãe que eu não sabia me ver, mas que me traziam alguma coragem momentânea e muito amor. Amanda Galler, Alzira Torrado, Isabella Dragão e, creio eu, muitas outras... Em 2011, lembro que estava visitando Seattle com seu pai (a cidade em que começamos a namorar) e brincando com a Sarinha (filha da Amanda) no colo, seu pai também não acreditava na minha estrutura para ser uma boa mãe. Ele também estava distraído. Mas a Amanda disse: “Imagina! A Aline é uma leoa. Vai ser uma mãe leoa.” E assim reconhecemos as nossas amigas, filha, nos olhos das mulheres que nos veem selvagens como realmente somos. 🙏🏻❤️


domingo, 13 de maio de 2018

2ª carta para minha filha

2ª CARTA PARA MINHA FILHA
O amor também começa nesta fantasia que faço de você. 
Você com 30 cm e eu dentro dos seus tecidos, e você dentro do meu vazio, corações batendo e duas almas dividindo espaço. Uma dentro da outra, uma na outra, num espelhamento sem fim. Ainda somos uma, una. Você é minha. Minha barriga. Meu útero. Meu ventre. Minha filha. Neste instante sou seu mundo todo. O céu, a terra, o seu universo. Viveremos ainda encaixadas uma a outra até a vida vir delimitar novamente uma física que nos separa. Então chegará um dia que que nos daremos conta: você é você e eu sou eu. Uma jornada que irá começar quando você disser pela primeira vez esta palavra mágica: EU. Você terá notado que não é apenas uma extensão minha, como não serei mais uma continuação sua. Estaremos livres. Até lá você beberá a vida no meu leite, enxergará o mundo por meus olhos e abrirá as portas com as minhas mãos. O que eu desejo? Que estejamos prontas, meu amor. Para o parto do seu ego, anos depois do parto do seu corpo. Que estejamos prontas para quando Deus nos partir, para que você possa partir para reconhecer seu mundo e viver sua história, sabendo que fomos uma só pessoa e que continuarei sendo sua mãe e você filha. Mas a cada dia menos minha...

(29/04/2018 -25 semanas)



Korczak

“Você diz: ‘meu filho’.
Quando, senão apenas durante a gravidez, você terá o direito de dizê-lo? A batida de um coração tão pequeno como o caroço de um pêssego faz eco no seu pulso. É a sua respiração que lhe fornece o oxigênio. Um sangue comum a você circula em ambos, e nenhuma destas gotas vermelhas sabe ainda se ela será sua ou dele, ou se, derramada, será preciso que morra em sacrifício ao mistério da concepção e do nascimento. Este pedaço de pão que você está mastigando é material para a construção das pernas sobre as quais ele correrá, da pele que o recobrirá, dos olhos com os quais ele olhará o mundo, do cérebro onde o pensamento brilhará, das mãos que estenderá para você, e do sorriso com o qual ele chamará 'mamãe'. 
Juntos vocês irão viver um momento decisivo; juntos sofrerão uma mesma dor. O despertador tocará: pronto. 
E vocês dirão ao mesmo tempo; ele: 'eu quero viver minha vida'; e você 'viva a sua vida'.
Com poderosas contrações das suas entranhas você o expulsará sem se preocupar com o sofrimento dele, e ele abrirá o seu próprio caminho com força e decisão, também sem se preocupar com o sofrimento de sua mãe. 
Ato brutal. 
Na realidade, não. Você e ele executarão mil movimentos imperceptíveis, maravilhas de habilidade e de sutileza, a fim de que, tomando cada um sua parte de vida, não tomem além do que é devido a cada um, segundo uma lei universal e eterna. 
— Meu filho.
Não,  nem nos meses de gravidez, nem nas horas do nascimento, a criança não é sua...”
(Janusz Korczak, médico e educador, nascido em Varsóvia em 1879, em trecho de seu livro “Como amar uma criança”, p. 30)

Sobre presença e comunicação nos relacionamentos

Sou uma gestante que por varias vezes tento convencer meu marido a me acompanhar em eventos da jornada de preparação para a chegada de nossa filha: rodas de gestantes, yoga para gestante, curso de cuidados com o bebê, etc. Ele me acompanhou uma única vez, justo o dia que ele se sentiu um pouco atingido pois era uma roda de doulas falando sobre violência obstétrica (que de fato existe, mas como em todos os conflitos é preciso ouvir o outro lado, no caso dele, como médico, mesmo não sendo obstetra ele se identificou mais com o lado que estava sendo atacado no tal encontro...).

Ontem tentei mais uma vez, quando soube de uma aula de yoga para ser feita em casais, para se prepararem juntos para a experiência do parto natural. Então percebi que ele se exaltou um pouco (se sentindo sobrecarregado com meus muitos convites) e me respondeu:

“Olha, eu vou ser um pai presente, assumir toda a responsabilidade e contribuir com o que você e a criança precisarem quando nossa filha nascer. Mas, no momento, eu estou valorizando muito a leveza deste período em que me preparo para ser pai fazendo apenas coisas que gosto e que me interessam. Não quero fazer nada por obrigação e acho que se eu fizer a paternidade pode começar a pesar, sem necessidade disso”. 

Enquanto ele falava procurei ouví-lo com atenção e entender seus sentimentos, pois mesmo não querendo ir aos eventos que o convido ele tem sido um companheiro que eu adoro e está muito gostoso os momentos que temos vivido juntos. Então lembrei de praticar a Comunicação Não-Violenta. Falei:

“Você está sentindo que quando nossa filha nascer poderá ter menos tempo para fazer as coisas que gosta e então está querendo aproveitar agora para fazer essas coisas? Você acha que se for comigo só para me agradar será uma perda de tempo para você e não conseguirá atender às minhas expectativas? Você quer viver a sua despedida de uma vida mais autônoma e sem filhos e acredita que aprender demais sobre parto e educação pode tornar a sua conexão com a criança algo artificial (esta parte eu tinha notado em outras situações)? 

E ele sorriu e me respondeu:

“É isso”.

Então, depois de contemplado eu o convidei a praticar a empatia comigo. 

“Por que você acha que estou querendo participar desses eventos?”

A resposta sincera dele foi: “não sei”. 

Então falei: “Todo esse tempo que te convido você não parou pra pensar a esse respeito? ”

E expliquei: “Eu quero me preparar para o parto natural, estar pronta para quando o momento chegar e, sobretudo, trabalhar isso internamente, em mim. E acho que seria gostoso passar esses momentos com você”.

E pedi que ele me dissesse com suas palavras o que entendeu:
“Você quer o parto normal mas está com medo e quer se preparar”

Falei que não chamaria de medo mas refleti um pouco e percebi que tem a ver com o medo de quebrar uma expectativa que estou criando mesmo sem querer. 

Falei “tá vendo como a Comunicação Não -Violenta nos ajuda?”

Ele concordou. E o diálogo trouxe compreensão e união para nós.
16/5/2018

sábado, 28 de abril de 2018

1ª Carta para minha filha

Filha, estou adiando escrever para você. Talvez porque agora você não vá ler, mas poderá sentir dentro de mim o que está acontecendo e o que temos vivido juntas. A sua mãe desde muito pequena sonhou em ser escritora. Ela até já publicou um livro inspirada na história de como conheceu seu pai. (Acabo de perceber que eu disse “a sua mãe”, ao invés de “eu”, talvez ainda esteja me familiarizando com essa nova persona que é sua mãe, no fundo, no fundo, somos almas companheiras vivendo esses papéis nesta vida. Eu sinto profundamente que você é uma alma que me acompanha. Nós nos escolhemos em algum tempo e espaço em que tempo e espaço não existiam. E já é uma honra para mim ser sua mãe!)

Como estava dizendo, sobre minha vontade de ser escritora, de não apenas escrever, mas de ser lida, isso faz com que eu queria compartilhar com as pessoas o que eu vivo e o que eu sinto. Hoje temos a oportunidade de fazer isso através das redes sociais. Toda vez que escrevo sobre mim e você muitas pessoas lêem e se emocionam, acredito que consigo conectar nelas não o meu amor por você, mas algum amor que exista nelas. Na verdade o amor deve ser um só. Então são palavras de amor que despertam o amor, filha. Você já deve sentir. 


Esta semana, na noite de 23/4, seu pai e eu nos deitamos para dormir mas antes de fechar os olhos ou de ler um pouquinho (como costumamos fazer) o papai veio conversar com você colocando o rosto bem pertinho da minha barriga. Ele também colocou as mãos e eu coloquei as minhas com as dele. Ele já tinha feito isso outras vezes mas nesta noite foi a primeira vez que sentimos você se mexer dentro de mim. Enquanto ouvia a voz dele você se mexeu algumas vezes. E eu me dei conta que para sentir você eu preciso ficar bem quieta e atenta. Seu pai me ensina muitas coisas e neste dia ele me ensinou a te sentir. 




quinta-feira, 5 de abril de 2018

Terceiro ultrassom

Terceiro ultrassom - 3/04/2018

21 semanas. Bastante esperança de que confirmaríamos o sexo do bebê. 
Sempre tivemos expectativas de ter uma menina. Vivi neste universo desde a infância. Acompanhei a chegada de duas irmãs e 3 sobrinhas. Não tinha a mínima ideia de como seria criar um menino. Não dava pra sonhar com algo tão desconhecido. Sou rodeada de mulheres. Sempre foi assim. Além disso as menininhas da família sempre deixaram no Paulo um apaixonamento e um brilho nos olhos tão encantado que eu sempre tinha vontade de termos a nossa e de poder vê-lo também assim deslumbrado com uma que tivesse saído do meu ventre e tomado do meu leite, sendo um pedaço meu inteiro e autônomo recebendo dele atenção e devolvendo a ele a suprema alegria que mora em seu rosto nos contatos que faz com as crianças. 
Eu entendo bem uma menina, sendo uma até hoje, naquilo que me liga a todas as mulheres do planeta, nos desafios que a vida apresenta, nas doçuras possíveis. Eu não sabia nada sobre um menino. Estava disposta a seguir meu instinto mas sentia um lampejo de medo. Meu menino seria frágil demais com o amor que quero dar. E minha vontade de vestí-lo, quase fantasiá-lo, das tantas expectativas que tento me desvencilhar, mas que crio, assim mesmo. Umas são objetivas como roupas coloridas, flores, delicadezas... Como me livrar dos tantos conceitos que estão comigo a respeito do que é um homem e uma mulher?

Sim, aspiro a igualdade, como uma feminista. Como mulher reconheço uma sociedade que ainda limita os alcances do feminino. Observo com admiração as expoentes que atravessam barreiras e brilham. Talvez nunca as disseram: homens e mulheres são diferentes!

Pensei em não saber o sexo, deixar a surpresa para o momento do parto, para tentar me livrar das expectativas. Mas percebi que não conseguia. Estava acima do meu controle. A minha vontade de viver esse caminho um pouco mais conhecido — de criar uma menina — era tanta que eu temia machucar ou interromper a masculinidade de um menino sendo gerado no meu corpo. Muito neurótica? Talvez...rs

O Paulo, por sua vez, também tinha suas certezas. Abdicou do sonho de conviver com uma menininha e se preparou para receber um menino, começou a aceitar essa verdade que acreditava ser a mais provável. Ele dizia que no ato da concepção sentiu a alma de um menino passar por nós. Acreditou nisso o tempo todo, com tanta convicção, que eu também passei a compartilhar a sensação de que um menino estava nos preparando para chegar. 

Marcamos o ultrassom com o mesmo médico do exame anterior. Nosso segundo morfológico (um ultrassom bem detalhado). Vimos em 3D um lindo rostinho na tela. Narizinho arrebitado, boquinha. De repente o médico mostrou corriqueiramente os órgãos genitais. E já foi se referindo a ela. Foi um susto e não uma notícia. “Vocês não sabiam? Achei que já tivesse falado no ultrassom anterior. Como conseguiram esperar até agora?”

Fizemos aquela pergunta que só denuncia o espanto: Certeza?

Sim, certeza, ele respondeu e acrescentou: “Olha aqui como já está tudo bem formado” e com a seta ele apontava na tela alguns pontos e descrevia. 

Uma alegria me invadiu. Meu amor pela criança cresceu 10 vezes. Me arrependi de não saber antes. Incrível como esta única informação me aproximou deste Ser, como se agora eu a pudesse compreender mais. Como se eu, agora, soubesse mais quem ela é. Uma mulher! Uma fêmea! Uma espécie como a minha. Sei quem ela é. Alias, sei quem você é, mas terei que a descobrir por toda minha vida, filha. 

Finalmente posso chamá-la de filha. Filha. Filha! Filha...

Você ainda não tem nome, mas já tem todo o meu coração. 

(Foto ilustrativa deste momento de surpresa. Tirei da minha sobrinha Rubi)




terça-feira, 3 de abril de 2018

De repente um espinho

De repente um espinho atravessa camadas de pele e fica ali cravado, sangrando horas, dias, anos. Até nos acostumarmos com aquela dor como um acontecimento perdido no passado, mas continua ali, e a qualquer momento pode ser ativado novamente como se alguém fincasse o espinho um centímetro a mais, para nos lembrar que jamais parou de doer ou sangrar e que continua manchando de vermelho a nossa vida como se fosse novo, mesmo sendo só um reflexo, uma repetição daquela dor original. O espinho é cravado na nossa distração com a pétala e com o perfume, quando inocentemente estávamos entregues, com os poros bem abertos e a pele receptiva. 
Nossas dores são originárias de choques de humilhação, rejeição, exclusão ou abandono. Às vezes estes 4 aspectos de dor e tristeza estão presentes na mesma situação em que o espinho foi fincado. Fomos humilhados, rejeitados, excluídos, abandonados... Os sentimentos estão vivos, mesmo que as lembranças estejam mortas. Com sorte lembramos da cena, uma imagem de muita dor. Somos capazes de recordar quem nos humilhou, o que disse, ou onde nos abandonaram, ou porque até hoje nos sentimos excluídos ou novamente rejeitados. Às vezes o choro da criança está claro, às vezes perdido na memória. Pode ser que sobre uma cena da adolescência, ou então apenas essa sensação repetitiva em nossa vida adulta. Quando esta dor é tocada, por algum motivo qualquer, somos tomados profundamente por uma tristeza incompreensível aos outros e inexplicável com a razão. Nem sempre condiz com o que está acontecendo, mas é algo que fez o espinho ser espremido um pouco mais e aflora toda a dor guardada e reprimida, volta com força o sentimento de exclusão, rejeição, humilhação, abandono, volta atualizado e reeditado no presente. 
Dizem que a gravidez é uma travessia por todos os fatos importantes, bons ou ruins, que vivemos. De certa forma eles podem estar sendo reeditados no feto, não está sob nosso controle evitar isso. 
Tenho tido uma gravidez muito doce e alegre mas também tenho visitado (em alguns momentos com suavidade em outros com intensidade) os meus espinhos. Acho que aconteceu duas vezes nesta gravidez, por enquanto, mas na segunda vez parece que foi mais doloroso que na primeira. Há poucos dias estava bem no ponto em que o espinho foi fincado, revivendo a dor de uma cena que no passado não é muito clara e com um gatilho que sinto vergonha de contar. Mas é o momento chave em que sentimos tristeza. Da tristeza profunda nasce muita raiva e da raiva criamos nossos pactos de vingança  “eu vou me vingar de quem fez isso comigo”, e criamos também a mentira “ninguém vai saber, pois corro o risco de viver isso de novo, se souberem. Não posso deixar que ninguém perceba minha raiva e meu plano de vingança”. Pronto então nos mascaramos daquilo que consideramos que não será mais excluído, rejeitado, humilhado, ou abandonado. Mas o espinho nos acompanha como que denunciando que enquanto estivermos com ele fincado na pele será mais simples e fácil sentirmos a dor novamente. 

Fatos muito corriqueiros, uma frase que alguém nos disse, uma atitude de uma pessoa próxima ou desconhecida, qualquer coisa pode desencadear um processo doloroso conectado ao espinho da nossa dor original. Mas, sem dúvida, a esfera em que estaremos mais suscetíveis a sentir a dor novamente é na esfera dos relacionamentos, com ênfase para os relacionamentos mais íntimos. Assim como a criança faz com os pais e/ou familiares mais próximos, depositamos, na pessoa com quem nos relacionamos, muitas das nossas expectativas de felicidade. Esperamos sempre algo em troca ao que damos. Nada é de graça. Nosso coração ainda não é puro. É um coração ferido que teima em se ferir novamente. Esse é o caminho da liberdade e da autonomia, quando vemos em nós o movimento na direção de uma compreensão mais ampla, mesmo que o caminho inclua atravessar as dores, oferecendo-nos a única forma de curá-las: bem de perto!


quinta-feira, 29 de março de 2018

Primeiro ultrassom

Assim que constatamos a gravidez, o Paulo ligou para a prima obstetra que disse a ele o conselho que dá a todas as suas pacientes:


“Com o teste de farmácia você conta ao marido”

(No meu caso praticamente ele que tinha me contado...rs)

E ela continuou:

“Após o primeiro ultrassom conte para seus pais e irmãos. E após o ultrassom morfológico, dos 3 meses de gravidez, vocês contam para todos”


Procuramos seguir o conselho à risca, bem cientes de que a gravidez só fica mais segura após os primeiros 3 meses. 





Marcamos o ultrassom para os próximos dias. No dia do ultrassom eu também quis aproveitar para fazer o exame de sangue. O Paulo queria que eu fosse só no final do dia, pois achou que não daria tempo de chegar no horário marcado do ultrassom, olhei no relógio e achei que dava. Eu queria que ele fosse comigo e sabia que no final da tarde não estaríamos juntos, então indignada por ele preferir que eu fosse só no final do dia, sozinha, eu saí meio desaforada: “se você não quer ir agora comigo eu vou, vou sozinha então, você me pega lá e vamos juntos para o ultrassom”. Saí com raiva de casa. Com vontade de ir sozinha para o ultrassom também, só pra me “vingar” e não deixar ele ver o primeiro momento do nosso bebê. Mas eu sabia que ia me arrepender se deixasse a minha raiva tomar conta... Quando ele passou pra me pegar já entrei no carro chorando, me sentindo a maior vítima do mundo por ele não ter movido uma palha para me acompanhar no exame de sangue também (olha como as emoções já foram ficando a flor da pele!)


Fui falando que já desmaiei algumas vezes tirando o sangue, que sempre recomendam que eu leve acompanhantes (mas já faz alguns bons anos que vou sozinha e nunca mais desmaiei ou precisei de ajuda), falei que esperava que ele fosse mais sensível e cuidadoso comigo, ele foi ouvindo, me pedindo desculpas e rindo. O Paulo ri quando eu choro e percebe que é por bobagem. Ele não ri da minha cara, é o riso que damos olhando a inocência das crianças, é um riso diante de uma beleza. E quando ele ri assim de mim eu consigo reconhecer que estou exagerando um pouco, ou me aproveitando da situação para me vitimizar. E também me sinto amada neste riso que me contempla e aceita. 

Já estava tudo bem entre nós,  mas quando cheguei no lugar onde faríamos o exame meus olhos estavam inchados de choro. Pedi um tempinho para o Paulo, para descermos em seguida. Eu estava com vergonha da minha cara e nem tinha pensado o quanto chorar deve ser um acontecimento natural naquele recinto. Em geral o choro de emoção, imagino e espero. 


Entramos na sala de exame. Sentei e fiquei bem de frente para uma tela bem grande. O Paulo ficou de frente pra mim olhando a tela do computador do médico, que estava ao meu lado. Acho que ele nem percebeu essa tela maior. Foi tão mágico pois o rosto dele foi o que vi de mais nítido na hora que ouvimos o coração bater. Não tinha muito o que ver na tela, mas ele deu um passo pra frente como se tivesse sido empurrado, ou levado um susto, então abriu a boca, arregalou os olhos, com as sobrancelhas bem levantadas, e quis confirmar com o médico: “É o coração?”

O médico respondeu que sim. Mas o Paulo também é médico. Ele sabia que era o coração. É que a nossa alma precisa de uma confirmação para acreditar nos momentos de beleza e alegria. É como se disséssemos “me belisca para que eu tenha certeza que não é um sonho”. Mas não era um sonho, a realidade é que é inacreditável*

Eu achei que os olhos dele estavam lacrimejando, os meus estavam (e estão de novo ao lembrar). Alguns dos mais memoráveis momentos da minha vida eu passei vendo o sorriso dele, as emoções dele, e mais uma vez Deus estava me presenteando com a cena do seu sorriso, da sua alegria, bem diante dos meus olhos, e o motivo, desta vez, era a constatação de que dentro de mim tinha um outro coração batendo, uma outra pessoa feita de pedaços nossos misturados. ❤️❤️❤️


(*frase do livro: Uma aprendizagem, de Clarice Lispector)


(Foto tirada perto do dia que fizemos o ultrassom)

quarta-feira, 28 de março de 2018

Como ficamos grávidos




Entre tantas coisas chatas e difíceis com que os nossos olhos tem contato eu, que amo escrever, resolvi contar belezas que, de fato, aconteceram. 

(Principalmente com todo carinho que recebi com o post da minha gravidez. É mesmo muito lindo que a gente continue se comovendo com os novos seres que se preparam para chegar em nosso mundo!❤️🙏🏻)

Estou casada há quase 7 anos, estamos juntos há quase 9 e nesse tempo todo nos questionamos bastante sobre a responsabilidade vitalícia de sermos guardiões de uma nova vida. Fomos adiando e assumindo o risco de talvez a natureza não nos permitir mais esta escolha, afinal há um limite para a fertilidade. Ano passado foi um ano de mergulhos internos bem profundos, eu diria que até mais para o Paulo, mas eu acompanhei bem de perto suas descobertas e em especial o momento em que ele se percebeu firmemente com vontade de se eternizar. 

A única imortalidade possível ao nosso corpo físico é se manter vivo em um outro corpo, o de um descendente. Somos, cada um de nós, feitos da matéria viva de nossa ancestralidade. Carne, sangue e ossos novos com o componente genético antigo de nossos pais e avós que, muitos, nem sequer pudemos conhecer. 

Ao contrário do Paulo, a coragem de viver o desafio da maternidade não estava me visitando, ainda não me sentia completamente pronta. A primeira vez que deixamos de nos prevenir foi bem anterior ao meu período fértil, eu estava segura com isso. Quando, finalmente, nossa união mais profunda aconteceria em meu momento de fertilidade, tive que me abrir com o Paulo dizendo que precisava de pelo menos mais um mês para me preparar. Ele sentiu raiva, como um menino birrento, daquele dia em diante não me procurou mais. Porém algo de diferente estava acontecendo em mim. Uma alegria sem causa, segurança, amor-próprio... Dias depois comecei a desconfiar que eu tinha engravidado naquela primeira tentativa, fora do período fértil. Conforme os dias passavam eu me preenchia de uma sensação única de poder. Eu não tinha mais dúvidas sobre mim ou sobre o futuro, me sentia forte e saudável, como que uma escolhida pela cosmos para abrigar em meu útero uma semente humana. 


Sinalizei para o Paulo que gostaria de fazer o teste com ele para descobrirmos juntos.  Via em seu olhar um brilho de felicidade e, ao mesmo tempo, uma cautela bloqueando a expectativa. Quando nos tornamos adultos, não nos animamos demais com alegrias que podem ser efêmeras. Sentimos medo da frustração. Crianças não perdem tempo com isso. Criam expectativas e se frustram. E não ligam de criá-las novamente. Até que ficam adultas. Normalmente são as experiências de dor que nos transformam...

No dia 15 de dezembro, quando meu ciclo já estava atrasado há 6 dias, acho, trabalhei até tarde porque tive um evento de formatura no colégio. Lembro que sentei na mesa de homenageados perto da professora Camila e da Fabiana, assistente de direção, ambas grávidas, e que me senti parte daquela realidade que as duas estavam vivendo.


Antes de chegar em casa liguei para o Paulo e ele me pediu para esperar uns minutos na garagem enquanto ele chegava da academia. Na verdade ele queria que chegássemos juntos porque tinha me preparado uma surpresa. Comprou o teste e deixou ao lado de um buquê de flores. Ele também estava se convencendo de que seria uma noite de uma descoberta especial para nós. Além disso as flores não seriam só pra mim. Estávamos felizes com a simples possibilidade. Assim que fiz o teste ele já tirou da minha mão antes que eu visse e levou para debaixo do lustre da sala. Não tive nem tempo de sair do banheiro e o ouvi dizer: “Amor, você está grávida!”

Quando cheguei na sala vi o seu sorriso, que me encantou desde o nosso primeiro encontro. Meus olhos se enchem de lágrimas de lembrar. A gente se abraçou e se beijou, se deu parabéns e ficamos rindo, bobos, como que rodeados de estrelas. 


Eu registro aqui para que possa me lembrar para sempre exatamente como foi. (Como se eu pudesse esquecer) 


E compartilho na esperança de que possa trazer alguma alegria também a você que está lendo. 🙏🏻❤️❤️❤️


Quando o amor se expande em nós ele é capaz de transformar o mundo. Quem sabe o seu mundo😉

(Foto de 15/12/2017)

sexta-feira, 23 de março de 2018

HÁ UM SONHO CRESCENDO DENTRO DE MIM




Como esta história começa? 
“Tudo começou com uma porta entreaberta” esta é a primeira frase do romance que escrevi contando a história de amor que eu vivo e sonho. As histórias, mesmo vividas, são sempre criações. Não sei a história que o Paulo criou sobre isso tudo, até sei um pouco, quando conversamos sob o seu olhar. É uma história bem diferente da minha. Há momentos do livro em que uso as palavras dele, em especial a primeira vez que ele me respondeu um e-mail:

“Compactuo sim dos mesmos pensamentos que você e acho que esse contato iniciado entre nós pode, de alguma forma, trazer frutos. Afinal, hoje em dia são raras as pessoas com esse brilho no olhar.
 
Beijo.
 
Me escreva.”

Eu me lembro claramente que o trecho “acho que este contato iniciado por nós pode, de alguma forma, trazer frutos” me fez fantasiar muitas coisas. Afinal o que ele queria dizer com “frutos”? Quando me enviou essas palavras só tínhamos nos visto uma única vez. Mas as intenções que trocamos por e-mail ficaram gravadas na minha alma e, acredito eu, foram escritas pela alma também. 

Nossos primeiros frutos demoraram anos para nascer: muitas poesias, algumas canções, um livro...

Mas só agora compreendemos sobre o que, verdadeiramente, a alma do Paulo estava se referindo naquele primeiro e-mail, ainda que nenhum de nós tivesse muito consciência sobre isso. 

Estou aqui, quase 14 anos depois, gestando o fruto e o sonho deste contato iniciado por nós em 2004: uma criança!

Era isso então, amor?

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Relacionar-se com outro é um jeito de se relacionar consigo

Não se trata de olhar somente um para o outro. Mas de olhar, os dois, na mesma direção.

Se trata de caminhar junto e de se ver refletido no olhar do outro (para o bem e para o mal). É na parceria que temos a oportunidade de nos relacionar com quem somos. Nossos medos aparecem. Nosso melhor também aparece. Depende de quanto somos merecedores. E da coragem que temos de enxergar. O relacionamento pode favorecer muitas ilusões mas a intimidade permite as revelações. Uma dança dos 7 véus. As máscaras vão caindo. Os 7 chakras se apresentam, em um caminho que descobrimos mais sobre o outro (e sobre nós mesmos) quando somos capazes de nos reconhecer e nos mostrar. “Não é o outro, sou eu.” “Preciso assumir que vejo em você o que eu sou.”

“Não é a você que quero mudar, preciso mudar (curar) a mim mesmo”

“Você me dá a lente para que eu seja capaz de me ver verdadeiramente.”

Estas são frases-guias, lembretes importantes de uma verdade irrefutável: o outro não existe. Sou sempre eu e eu. Eu e o que escolho para mim. Eu com as lições que me servem. Eu me queixando, ou aprendendo e amando, eu recriando e revivendo o passado, ou eu vivenciando e criando o presente... Eu, eu, eu!

Se temos um companheiro que também reconhece esta verdade em si mesmo as chances de aprendizados profundos se ampliam, as de alegrias intensas também. 




Você me apresentou o autoconhecimento, quando nos conhecemos. Depois você me apresentou a Índia, meu amado guru, meu caminho espiritual, impulsionou meus talentos, minha poesia, meu livro, minha vontade de gerar uma outra vida... E nunca foi você. Fui eu que me permiti e você estava lá...

Lá no meu coração ❤️❤️❤️


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

É da sua natureza

É da sua natureza me mostrar poemas
É da sua natureza me deitar na terra
E a terra deitar também sobre mim
Com toda a natureza dela
me subindo pelas pernas
Só você faz isso assim
Porque é da sua natureza e da minha também 
(Manhã de 5/8/2017)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Sobre o passar do tempo e florescimento

Em 19/02/2015 às 3 da madrugada na legenda da foto de uma flor no Instagram:

Horas atrás foi o dia do meu aniversário. 
É preciso rever o que eu vivi. Já são 36 anos, mas ainda não me sinto velha, nem perto disso, como não considero velhos os que têm o dobro da minha idade. Acumular anos não é tornar-se imprestável, como a velhice já foi vista. A idade traz sim uma sabedoria. Embora o mundo valorize o jovem, acho que eu nunca fui tão boba quanto quando era "jovem". A sabedoria mora nos extremos da vida, infância e velhice e eu sou grata por parte dela ter me visitado aos 30 e poucos, não sei exatamente quando, mas eu tenho florescido. 
A flor é a ejaculação da planta, a exuberância da beleza que precede o fruto. Eu tenho florescido. Um florescimento que pode durar uma vida toda (ou mais!?) e mesmo neste processo eu tenho gerado frutos. Tudo que escrevo e que sai do meu coração; as palavras que passam pela minha boca como expressão do meu ser; os atos por mim praticados que geram frutos em outras pessoas, por intervenção da minha relação com elas, do amor que reverbera do nosso encontro, da luz que se celebra em uma alma e outra, de uma alma para outra. Enfim percebo que os frutos não são meus, mas da árvore (ou floresta) "humanidade", a qual me sinto pertencer, porque tenho florescido. 
Eu tenho florescido e vejo mais beleza no mundo e em mim mesma. Há flores que são sementes, vejo que um fruto aconteceu antes, para que a semente pudesse existir. E estas flores são belas, na semente que elas sabem ser, e eu uma privilegiada por vê-las neste instante do crescimento, quando elas nem imaginam a beleza que sairá delas mesmas, então às vezes são duras, como algumas sementes precisam ser para sobreviver. Mas há a incandescência (a indecência!) dos pequenos brotos, dos botões prestes a se abrir e há as flores que me mostram perfume, ou que me permitem saborear seus frutos e me alimentar de sua existência. Ah, como são lindas as pessoas a minha volta! Tenho florescido e visto, não o tempo todo, confesso, mas meu florescimento é conseguir ver e o florescimento dos outros é conseguir me ver... Mesmo quando não consigo ver...
Eu aceito vida! Eu agradeço por tudo que tenho recebido, por tudo aquilo que já compreendo, e por tudo aquilo que ainda não posso compreender, pois eu tenho florescido, mas não sei sobre tudo ainda, nem sequer sinto todo amor e beleza disponíveis neste Universo tão vasto, tão próspero... A natureza não economizou em nada. Ela me invadiu e, até por isso, por vezes eu não suportei tanto deslumbre, eu me fechei.
Neste ano, que se iniciou aos meus 35, no dia 18 de fevereiro de 2014 (com um sarau comemorativo em que fui muito feliz compartilhando minhas poesias e recebendo o talento de tantos amigos) e se finalizou no dia 17 fevereiro de 2015, eu vivi muita coisa: muitos retiros; muitos contatos com o silêncio e comigo mesma; eu consegui um editora para publicar meu primeiro romance (um projeto antigo que tenho sonhado há quase 30 anos!); eu iniciei um processo de transformação da escola que sempre foi minha mas que eu ainda não tinha conquistado; eu experimentei o que é ter um guru, um mestre espiritual, uma guiança de luz e amor infinitos... Eu compreendi tantas coisas de que nem fazia ideia!
Eu reconheci meus dons e meus talentos, que são as ferramentas que tenho para fazer o que eu vim fazer nesta vida. E à partir deste contato interno eu me conectei com todos ao meu redor, eu reconheci o talento das pessoas e a riqueza de tê-las comigo. 
Não há como perceber a si mesmo sem que se perceba os outros. E também não há como perceber os outros sem se perceber. 
Até que, por lampejos de consciência, eu concluo, em alguns instantes da minha existência, que "os outros" são também uma manifestação, uma criação minha, da minha vida, pelo menos esta forma de vê-los e percebê-los é uma expressão do meu próprio ser, que nada mais é que um ser único e maior: a mesma árvore, a mesma floresta!

É, meu Deus, tenho florescido! Obrigada!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Inhotim

A de amarelo sou eu, caminhando por uma das lindas obras de #Inhotim, um enorme jardim botânico (140 hectares, só ontem, sem perceber, andei mais de 10 km, mas há também a opção de fazer o passeio em carrinhos) e museu a céu aberto, repleto de galerias de artistas brasileiros e internacionais. A cada galeria temos uma surpresa. Um banho de beleza e criatividade. Passear pelo parque é ser arrebatado pela natureza (paisagens exuberantes, flores e árvores) e pela arte (às vezes convidativa e surpreendente, às vezes delicada e emocionante). Estou amando!
A obra que aparece na foto é de John Ahearn e seu parceiro Rigoberto Torres. É um mural todo esculpido e resultado de uma imersão dos artistas em #Brumadinho, cidade onde está instalado Inhotim, para conhecer seus personagens reais “invisíveis”, mas que sustentam a cultura local com suas vidas, e, assim, retratá-los com sensibilidade, neste processo comum na trajetória dos artistas. 


Fotógrafo: Paulo Campregher
#mg #minasgerais #jeitinhomineiro

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Contemplo




Quero agradecer suas bênçãos, seu amor, quero agradecer porque viajo para a Índia (apenas em espírito) sendo levada em seu coração. 


Talvez eu ainda não seja digna disso tudo... Mas eu não sei de nada. É você, grandioso e eterno, quem sabe. É seu canto e sua luz que não se encerram, sua força e seu olhar potentes e belos que desvendam o universo. A sua presença se expande, e eu, miúda como um grão de areia, contemplo a grandeza do meu coração no seu. 🙏🏻❤️ #sriprembaba #prembaba #devoção #amor #alinenaíndia 

domingo, 21 de janeiro de 2018

Um conto encantado

Há milhões se séculos a lua cheia ofereceu ao céu seu mais belo ramalhete de estrelas. O universo escuro foi respingado de brilhos e ela ficou estática como um lago cor de pérola, bem redondo, no centro. 

Nas noites de luar é só olhar para cima e ver. As estrelas ainda brilham floridas nos jardins escuros e profundos. E a lua, como um raso lago perolado, encanta e às vezes mingua e sorri. 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Estamos em extinção

Pessoas conscientes e sensíveis estão nos dizendo que este não vai ser um ano fácil. Então precisamos de ânimo, precisamos buscar no coração a nossa força vital que já nos fez vencer grandes batalhas. Estar vivo é uma milagre! O funcionamento do nosso corpo, a harmonia do planeta que propicia a nossa existência, o amor que uniu duas pessoas que geraram nosso DNA, a água, o ar, são possibilidades muito raras no universo. Muito raras!

Estamos aqui, escrevendo com nosso corpo, com nossos sentidos, a nossa história. Temos sim, muitos motivos para celebrar esse dia, esse momento, esse encontro (do meu ser com o mundo, vivendo esta época, este ano). Posso escolher me conectar com a vida que pulsa em meu peito, veias, carne, sangue, alma... Posso escolher ser uma testemunha dos acontecimentos que vem e vão, compreendendo sua real brevidade e importância, e também protagonizar cada cena do meu dia com o meu melhor, colocando brilho em meus olhos, sorriso em meus lábios e canções que acariciem meus ouvidos. 

Eu canto meu destino. Eu crio meu caminho. Eu percebo os desafios como oportunidades novas que me surgem. 

Somos únicos, cada um de nós. Por isso estamos todos em extinção. 

Este dia é a única chance de vivê-lo. 

Eu tomo esta chance nas mãos. A minha chance! O MEU DIA!